sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pensando Nisso

Privilégios

Hoje estou cansada. Muito cansada. E é quando chego em casa de um dia, de uma semana, de um mês inteiro de intensa atividade e muita preocupação e ainda cheia de coisas para fazer, que mais percebo o tamanho dos meus privilégios. Porque tenho casa, óbvio. Porque pude passar no supermercado e comprar queijo, salame e quinquilharias afins pra não ter que cozinhar. Porque chego, abro uma cerveja, ligo o som, encho a banheira e fico lá, meia hora adiando tudo que ainda falta realizar. Porque posso, inclusive isso: procrastinar um tiquinho. Porque posso reclamar. Porque tenho colos que acolhem meu cansaço. Porque saio da banheira, pego outra cerveja, belisco os petiscos e fico vendo a tv, muda, em imagens de jogos passados. Futebol é relaxante, sabia? Porque tenho esse blog que recebe as letras que eu me fizer. Porque posso planejar dias de menos cansaço sem sabor de impossível. Porque posso escrever e-mails pensando em juntar Minas e França bem ali, em Canoa Quebrada. Porque hoje venta gostoso, na varanda. Ah, pois é, tenho casa com varanda. Sou privilegiada. Tudo isso ser resultado de estudo, trabalho e empenho não muda o fato de que eu pude ter estas coisas todas em uma sociedade que muita gente não pode. Mais ainda, suspeito que posso ter e fazer isso tudo porque tanta gente não pode. Não se trata de culpa, mas de reconhecimento. Tenho privilégios e, olha, hoje eu usei e apreciei cada um deles. Me julguem.



Das Discussões 

Eu não sei de nada. Exagero meu, claro. Sei de alguma coisa. Pouca coisa. Pouquinha mesmo. Quase nada. E as que sei chegam-me muito mais vezes em forma de pergunta que no jeito de resposta.


Sempre me fascinou a acentuada convicção com que algumas pessoas carregam e acenam suas bandeiras. As certezas absolutas. A completa negação da inquietação. As concepções definitivas. A irrestrita falta de espaço para a dúvida. Estão certas, sabem o que é melhor, o que é verdadeiro, o que é necessário e não se furtam a dizer, letra a letra, tudo isso: a quem se interessa ou não.


Fica tudo melhor (só que ao contrário) porque geralmente as ideias defendidas com tanto vigor costumam vir apresentadas em uma lógica estropiada, carregada de moralismo e aquela argumentação super válida (só que não): aconteceu comigo, acontece assim com todo mundo. Não há nem um espacinho pra compreensão de que um exemplo pessoal é isso: um exemplo, uma narrativa simbolicamente individualizada e não uma cartilha.


Todo dia – e cada dia mais – eu vou sabendo (essa é daquelas lá de cima, das pouquinhas) todo meu des-saber sobre mim, sobre o mundo e, com nitidez, sobre o Outro. Perguntar parece, cada dia mais, necessário. Não supor, não prever, não prescrever e, especialmente, não julgar. As razões, os motivos, os desejos são do Outro e do seu próprio des-saber. Por isso, aferro-me ao mundo de gentilezas. De generoso olhar. De tolerância. De indagações mais do que de afirmações. Não parece bom? A mim, sim.


Tua 

Não dormir. Deixar a porta aberta pras estrelas entrarem e tecerem firmamentos no meu desejo. Fazer-me imagem. Chegar a seus olhos e suspiros. Criar palavras que brincam de laço. Não pensar. Querer. Deitar no cantinho da cama planejando partilhas. Ser boba. Rir. Entregar os pontos. Em confissões: ficar na tua mão.


Parabéns, Teresa! 

E hoje já é amanhã em Portugal e já se canta o parabéns pra minha querida Teresa Font. Eu nunca soube (mais uma das coisas todas que desconheço) como as amizades me surgem. Às vezes brinco de pensar que já estavam em mim e a vida só tratou de me relembrar. Como boa materialista, desconfio da minha própria idéia. Pior, eu rio dela. Sei das concretudes. E, no entanto, há os que chegam dispensando os salamaleques e pegando lugar VIP, com vista pro mar e serviço de bordo. Vou logo querendo bem. Minha amiga Teresa foi assim: mal a li, já dizia, amiga. Um gostar que chegou quase antes dos motivos. Chamego. O que importa é a alegria de uma cumplicidade que se adivinha. Pouco importa que ainda não exista um abraço. Virá. Posso esperar o café, a risada cúmplice, as impressões do dia a dia. Posso esperar a ligação no meio da tarde e o passeio no fim do mês. Escrevi uma vez: Não tenho amizades virtuais. Todos os meus afetos são reais, apenas os braços necessários ao aconchego são de outra matéria que não carne e sangue, são abraços de encanto. É exatamente assim, a vontade de sabê-la por perto. Perto o bastante pra dizer que a festa do seu aniversário é, também, celebração minha. Pertinho o suficiente pra sussurrar votos de um dia, um ano, uma vida, de risos, prazeres, letras, surpresas, encontros, afetos, sabores e sonhos. Uma vida, um ano, um dia especial. Perto que dê pra dizer da minha admiração, carinho, preocupação e ternura. Perto. Amiga, Feliz Aniversário!


4 comentários:

Renata Lins disse...

Delícia, Lu. Adorei o "não tenho amizades virtuais". Parece um pouco o que eu tentei dizer naquele post em que falava de icebergs... Beijosbeijos, borboleta...

Luana Margarida disse...

Vim pela Lu Guedes. E adorei isso aqui:
"Perguntar parece, cada dia mais, necessário. Não supor, não prever, não prescrever e, especialmente, não julgar. As razões, os motivos, os desejos são do Outro e do seu próprio des-saber. Por isso, aferro-me ao mundo de gentilezas. De generoso olhar. De tolerância. De indagações mais do que de afirmações. Não parece bom? A mim, sim."

A mim também!
beijo florido para suas borbolestas.

Luana Margarida disse...

borboletas bagunceiras... suas asas ventaram um s do plural a mais para o meio delas... rs...

Camila disse...

"Perguntar parece, cada dia mais, necessário." Puxa, Lu. Outro dia li um texto tão bonito da Maria Rita Kehl sobre isso. Um texto sobre o que as pessoas esperam que psicólogos e psicanalistas falem na mídia. E, claro, o que a gente mais espera é o selo "Freud explica" de qualidade. E o que ela faz no texto é justamente explicar (dã) que o melhor que a Psicanálise tem a oferecer não é explicação nenhuma, e sim um jeito de perguntar, questionar, investigar. Fazer as perguntas certas, as inesperadas, aquelas que não nos ocorrem imediatamente. Pois perguntar se faz tão mais necessário quanto mais ferrenhas são as certezas que a gente vê por aí. Beijo :*