segunda-feira, 7 de maio de 2012

Mãe de Cesárea

Meu filho não está morando comigo. Está morando com o pai: outra cidade. Quase todo o tempo, sinto que isso foi uma boa decisão. Uma parte, ainda maior, do tempo, sei que foi uma boa decisão - e só não digo: “todo o tempo sei que foi uma boa decisão", porque sempre considerei salutar manter uma ou duas portas abertas à dúvida. Lá ele tem uma vida mais estruturada, colégio melhor, mais opções de lazer e muito mais família e amigos amorosos por perto. É uma rotina melhor.

Vou aprendendo algumas coisas: um jeito cotidiano de sentir saudades, mais especialmente. E outras. Por exemplo, a respeitar aqueles pais que se costuma condenar: os que compensam presença e afeto com dinheiro e presentes. São uns incompreendidos, garanto. De forma geral, se diz: displicentes. Eu tentava ser mais profunda e dizia: culpa. Hoje, sei: também é culpa. Uma grande parte. Mas é, também, uma complexa trama de impossibilidades, dificuldades materiais de deslocamento, compromissos, obrigações, vontade de agradar e incerteza quanto à realidade concreta. É diferente ver cotidianamente o tênis com o qual o garoto vai a escola e supor que ele precisa de um novo. É diferente abrir o guarda-roupa ou tirar a roupa da máquina e imaginar se ele tem uma blusa adequada pra comemorar o aniversário. A distância faz miragens.



Então, essa sou eu, sem poder ir à festa de 15 anos do meu filho e comprando coisas pra estar lá. Eu estava no tênis novo, na blusa nova, na mesa de chocolates. Estava, também, eu sei, de outras formas e na lembrança dele e de um monte de gente legal. Mas, olha, não é a mesma coisa. Dava uma dorzinha fina receber, no celular, fotos do bolo, das mesas arrumadas, do jogo de luz, das pessoas se divertindo. Não foi uma festança, foi uma celebração divertida do viver. E isso é mais complicado de lidar. Saber que se morássemos juntos seria muito, muito mais difícil isso acontecer em um momento que eu não pudesse estar.

O certo é que a festa foi e eu a saberei sempre e apenas em relatos e imagens às quais tento dar um sentido e narrativa. Depois tivemos um almoço, feliz e festivo, com a família. Com bolo, parabéns e brincadeira de valsa. Não compensa, claro. Não a ele, a mim. A ele, se perguntarem e eu perguntei, fiz falta na noite de sexta, mas não a ponto de incomodar de verdade, porque ele sabia que eu iria me fazer presente no almoço, um dia depois. Acho bonito que ele sinta isso e, mais ainda, se sinta capaz e à vontade para enunciar isso. 


Quase sempre ainda é assim: um não-saber ser mãe. O menino, a curuminha, escrevi eu, em post antigo. Podia ser, quase sei agora: Uma aprendizagem. 

12 comentários:

Luana disse...

Nao imagino como eh sentir tudo isso... Mas olha, esse menino tem uma cara taaaaao linda, de que "sou amado e seu disso" que tudo deve valer a pena, nao eh?

Parabéns pro seu anjo... Parabéns pra mãe do anjo!

E eu não canso de dizer, seu blog eh lindo!

Penélope disse...

Bom dia.. sempre aompnho seus post, e te digo vivo o mesmo dilema, mas para mim, salutar é ele estar onde le quer estar, onde ele decidiu...há tempos decobri, que já não sou mais tão essencial na vida dele, ele construiu uma rotina, uma nova vida...percebi que ele já tinha ruflado suas asas e eu fiquei no ninho vazio...beijos, Penélope
maniasdapenélope.blogspot.com.br

Anne disse...

Olha, que felicidade ele saber que é amado e não ter problema vocês almoçarem no dia seguinte ao da festa. Já falei que acho tão lindo o seu amor e a liberdade que você dá para aqueles a quem ama.
Lindo.
Beijinhos

Mari disse...

Vendo as fotos pensei que você estava presente, mas foi no dia seguinte. Não sabia que ele não morava mais com você. Cada escolha uma renúncia.

Mas o Samuel ele já foi muito bem criado. Ele entende.

Danielle Martins disse...

Você e essa mania de me fazer chorar... filho é dor... de alegrias, de saudades, de crecimentos... dores de não podermos está sempre com eles no colo e nina-los a cada choro...

Danielle Martins disse...

Você e essa mania de me fazer chorar... filho é dor... de alegrias, de saudades, de crecimentos... dores de não podermos está sempre com eles no colo e nina-los a cada choro...

Juliana disse...

ah, gente! Me tragam lenços, por favor!Que coisa mais linda de todo o mundo!

Caminhante disse...

Oh, Lu, que coisa bonita e triste. Li isso do ponto de vista do seu filho, porque sempre fui uma filha que morava longe.

Rita disse...

Viver é assim, cheio de escolhas. E de nossos olhares sobre elas.

Parabéns a ele e a você. E ele sabe, né.

Beijos
Rita

Niara de Oliveira disse...

Ai, Lu, como te entendo. Não estou podendo fazer presente em nenhuma coisa, em nada para o meu filho nesse momento. Para ele sou só saudade assim como ele é pra mim. E isso não é vida. Doeu ler teu texto, mas foi profundamente necessário.
Daqui do meu egoísmo nesse momento, obrigada.
Beijo!

Menina no Sotão disse...

Eu confesso a você que gosto de ausências e do tipo de sensação que elas causam. Lembro que depois dos meus quinze anos passei a viajar em dezembro só para sentir a ausência nos dias de dezembro mais forte. E sentia por dentro e escrevia. É preciso doer. É preciso o não saber para saber.
Não estou comparando, apenas, partindo da sua emoção, trazendo-a para mim. Essa mania de leitor de tornar tudo seu. rs
bacio

Ps. Como não temos mais tempos para diálogos (snif) tenho que te contar sobre um email que recebi ontem. Um ser me disse assim "dona Luna, se a senhora soubesse quem de fato foi Caio Fernando Abreu jamais o citaria, mas eu a perdoou por ser estrangeira".

Levei uns cinco segundos para fechar a boca e bem menos para deletar o email. rs

bacio

Douglas disse...

Não li o texto até o final.Parei pra chorar a saudade dos meus filhos e não voltei mais os olhos no texto!Não importa como e nem o porque da distância, a dor da saudade e da ausência do cotidiano sempre vai estar presente!paz!

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