quarta-feira, 23 de maio de 2012

Das Ressacas

Uma das coisas de que gosto de verdade, com intensidade, com empolgação... é do mar. Em grandes alegrias, em enormes tristezas, quando tudo é imenso demais no sentir, eu me deixei no mar. Me deixei ser mar. O mar pede entrega. Outra coisa de que gosto com a mesma intensidade e empolgação é de gente. Gente assim que nem a Isabela, que vem visitar o Borboletas hoje. Gente que vive com paixão, reflexão, sensibilidade e sabe colocar, em cada letrinha, todo esse sentir. É sempre meu prazer e minha alegria acolher os textos que tocam, comovem, encantam. E quando chegam assim, em dupla, gente e mar, admiráveis, não há como resistir. O Borboletas se sente honrado com a presença de Isabela.


Ele, o Mar... by Isabela

Ele era o mar. Ele era o mar que vinha em ondas altas. Tsunamis que engoliam tudo e a deixavam sem fôlego, sem espaço, sem movimento  e....  querendo mais. Mais água, mais ondas, mais afogamento. Que susto. Que medo. Que encantamento. O mar. O mar que vinha e cobria as cores do seu mundo. Ela, que mal nadar sabia. Que tinha se assustado da primeira vez. Que tinha dito espera, pára. Olha. E o mar vindo. E o encantamento era tão mais forte. A vontade de se perder no mar.... ah.... se perder no mar.... e então, quando ela, encharcada e sem ar, parou de lutar e se deixou ir, largou as amarras e se entregou, maravilhada e aterrorizada, à fúria das águas, ele recuou. De repente. Tudo seco. Deserto. Sol a pino e sem abrigo. Recuou tão longe que não dava nem mais pra ver. E ela, que por trás da fachada apaixonada e impulsiva era bicho que se comprazia em águas plácidas, das quais se vê o fundo, da primeira vez quase morreu na seca. 

Achou que era pra sempre. Mas não: era o movimento do mar. O vai-e-vem do mar.  

E ela  - e como seria diferente? - se viu enfeitiçada pelo balanço do mar. Pelas ondas que quase afogavam. Pela sensação de se perder. Aguardava, ansiando. Sonhando. E quase esquecia da seca que, inevitavelmente, viria depois.

Até que o movimento começou a ficar mais lento: ondas menores, mais contidas. Mais espaçadas. Não afogavam mais. Ele não sumia de vez, não totalmente: difícil sumir totalmente nesse mundo de conexões permanentes. Mas sumia pra ela. Falava em público: não pra ela. Olhava para o conjunto. Para o grupo. Era como sumir. Às vezes aparecia rapidamente, como se estivesse com muita pressa. Muito atarefado. Muito pouco tempo. Ondas tão pequenas. E ela, depois de um período doído, sem entender muito, se deu conta: o mar acabou. Hora de levar a vida. De ir adiante. Novos caminhos, novos desafios. Hora de ir para lugares sem mar.

Se despediu do mar, algumas vezes, pra tomar coragem. Disse a gente se vê. Talvez. Um dia. Quem sabe. E o mar, como num eco distante: talvez. Um dia. Quem sabe. 
Como num levantar de ombros. Como num resto de espuma na areia.

E então, quando ela não esperava mais, quando ela achava que dava até pra brincar, que dava pra chegar perto do mar só para olhar, sem medo de se perder e se afogar, só na beiradinha... quando ela passava por ali meio distraída, sorrindo de leve pelas lembranças...  viu uma onda vindo. Custou a acreditar. Mas era. O mar voltou quando ela quase nem se lembrava. Quando ela achou que nunca mais. Ondas maiores do que nunca. Voltou como se nunca tivesse ido embora. Voltou engolindo, pedindo, querendo. E ela, mais uma vez. E ela, que jeito. E ela. E.


Um comentário:

::::FER:::: disse...

Me identifiquei totalmente, a primeira vista, há muitos anos alimentei o sonho de conhecer o mar, pois sou do interior de minas, e todas oportunidades que tive não puderam ser aproveitadas, minha impressão ao ver o mar foi inenarrável, consigo dizer que vi vida naquelas águas, e sinto saudades!!!
vou linkar o blog para não perder de vista!

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