quarta-feira, 2 de maio de 2012

Coisas Inúteis e Belas


Tem um filme maravilhoso – do Frears – chamado Coisas Belas e Sujas. Um filme pesado, daqueles que nos arrastam da zona de conforto. Tramas que se encaixam, personagens bem construídos, temas adultos e necessários. Um filme triste. Com diálogos amargos e que apontam, com clareza, o fim do túnel. Um filme de desesperança. De fim de estrada. É? Só que é lindo. Daquelas belezas que arrebatam, fazem ninho no peito e marca nos olhos. Beleza daquelas que, de tão intensas, pra nada servem. E é dessa incrível e absoluta falta de razão pra existir, a inutilidade da beleza, que ela me parece redentora. Gosto especialmente das coisas inúteis. Como um poema. Os arabescos que a espuma do mar desenha na areia antes de nela sumir. O cheiro da cabeça de um bebê. O tempo passado olhando o negro em uma reprodução de um quadro de Caravaggio. Ficar ali, balançando a cabeça e ouvindo uma sonata de Chopin. As formas das nuvens em dia de sol intenso. Um bom diálogo em um filme. São coisas que, ocasionalmente, podem fazer pensar, podem causar ações, podem, podem, podem...mas não existem pra isso. A bem da verdade, existem pra nada a não ser a fruição. É claro que afirmar que a beleza é inútil não é dizer que não se possa dar-lhe sentido ou perspectiva. Pode-se. Deve-se. O que não se consegue é dar-lhe limite. Ou razão.

É inútil querer-te. É belo. Quero. Ainda mais em Sinatras rodando na vitrola perdida no tempo. Em noites com lua cheia. Em sorrisos. Em camas na varanda.


Espetacularmente Inútil



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