quinta-feira, 19 de abril de 2012

Em Azul


O viver, pra mim, sempre foi em vermelho. Sanguíneo. Em rubro, o sentir, desde menina. Em minha caixinha de música, colecionava vermelhos: a voz de Callas, o corpo em arrepios, vinho, andar de mãos dadas, gargalhar no escuro, a luva de Gilda, acordar no peito de alguém, cangote, cafuné... Sentia o amor como quem sente a vermelha batucada e não se sabe ao certo onde: no pulso? na garganta? Ah, nos ouvidos. Quando amo, escuto em vermelho. Mas hoje, não. Hoje, enquanto não é, a não ser em vislumbres, o amor se faz de céu. A espera, eu venho descobrindo, é azul. Com um cheiro de mar, sussurrando possibilidades, antevendo mistérios, o amor é azul.  O amor é azul como azuis são palavras prometidas, sugeridas, cristalinas em seus segredos. O amor é azul como a seda do vestido da moça em sua primeira festa. E como o cotidiano do jeans. O amor é azul como azuis são os primeiros desejos e as últimas esperanças. É em delicado azul como as pequenas flores dos jardins dos fundos, tímidas e contentes de se fazer alegria em intimidades. Safira na palma da mão, esse azul amor tem um quê de frio e duro, como se evitasse uma lágrima qualquer. Meu amor azul é amor de amanhã feito vontade hoje. Um azul que é como se fosse vermelho de tanto que me arde. 


Eu me lembro de tudo. Sim, eu sei, não sabemos usar o futuro. Até as antecipações já tem o embaçado de ser memória. Na pele. Então, eu quero. Chegue. Não tenho cercas, as janelas abertas, o café quente no fogão, o jazz baixinho e a cadeira de balanço na varanda. Deixarei minha mão na tua, o olho no teu, a língua na tua. E você saberá que eu gosto de picolé de fruta e ainda mais quando escorre no canto da boca. Eu vou saber que você jogou bola e suspirava pela Claudia Cardinale. Vai saber que eu piso primeiro o calcanhar. Que eu rio alto. Que tomo banho de chuva e rodo até ficar tonta. Que minha mão é quente, que meu sangue é quente. Eu vou saber do seu amor de infância, da sua prateleira de filmes, da pequena cicatriz na perna. Você saberá que falo muito e cantando e que desafino sempre, na voz e na vida. Vai saber que eu cresci na cidade e o sertão cresceu em mim. Eu saberei teus silêncios, tua mochila de projetos, aquele cartão de aniversário que ainda te faz chorar. Você vai saber que tenho apegos. Que releio: livros, cartas, bilhetes, bulas. Eu vou saber que você desbrava: caminhos, corações, carinhos. Vai saber que sinto o cheiro do mar e me comovo. Que não sei contar piada. Que tenho pressa e me atraso. Que tenho ímãs na geladeira e faço pose de pin-up só pra brincar de ser eu. Eu vou saber tuas olheiras de insone, teu caderno de recados, teu jeito de olhar por cima do óculos e dizer sempre a coisa certa para fazer sorrisos. Eu vou saber tua poesia, você vai saber minha pele. E nós vamos reconhecer: saber não é sabor. E provar.



5 comentários:

Rafa disse...

E eu que nã tô nem azul, nem vermelho, mas bege: sem saber de ti. Abandonaste-me?

Danielle Martins disse...

a mesma procura? saudades!

Karine Tavares disse...

Teu blog é ótimo, parabéns!

Vem conhecer o meu:
leiakarine.blogspot.com

Anne disse...

Eu sempre fui azul, amor azul. Busco o vermelho, preciso do vermelho.
Este teu texto me deu a ideia de pintar uma parede da minha sala de vermelho e comprar roupas vermelhas também, não apenas o batom.
Tão lindo esse teu texto que está me fazendo pensar e sentir. Talvez mais sentir que pensar.
Beijinhos e obrigada.

Fred Caju disse...

Só não vá para o azul na política, por favor.

Aproveitando, deixo aqui um vídeo para xs leitorxs do espaço: http://vimeo.com/40411264

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