segunda-feira, 19 de março de 2012

Eu, Canoa


Tem lugares que a gente não conhece, reconhece-se neles. Quando ouvi o nome Canoa Quebrada, a primeira vez, o eco de uma felicidade pulou no oco do peito. A vida seguiu, mas a vontade do indefinível me acompanhava. Um dia, lá desembarquei. Eu ia dizer que foi como voltar pra casa, mas não, seria impreciso. Não havia nada lá que eu já soubesse, mas também nada havia que eu desconhecesse. Foi como voltar pra mim. Canoa é, provavelmente, o lugar em que sou mais inteira. Praias são todas muito parecidas – alguns dirão iguais, até. Pode ser. Canoa não é praia. Canoa é estado de espírito. Um lugar que tem sua rua principal denominada Broadway, desde que era uma aldeia de pescadores, tem senso de humor. Eu amo tudo em Canoa. Suas areias vermelhas nos morros, a branca areia que o mar salga em idas e vindas, a miscelânea de pessoas, a absoluta diversidade de estilos e propósitos, a sensualidade fácil, o ritmo, a segurança na rua. A lua. Amo a lua em Canoa. Amo Canoa por quem eu sou lá. O riso ainda mais fácil, a pele temperada, o olho gentil. Canoa mudou. O Bar do Meio, aquele cantinho em que o coração batia no quadril, os encontros eram bons e a cerveja gelada, não existe mais. A Broadway já não é de barro. As pousadas cresceram e eu acho bem difícil ainda conseguir um quarto simples de pousada pra passar o fim de semana todo por 15 reais. Mas. Mas ainda é Canoa, ainda é aquele lugar onde todo o mundo e todo mundo se sente em casa. Ainda é o reggae no fim da madrugada, à beira d'água. Ainda é o forró simples com o pescador cheirando a mar. Ainda é rock, pop, mangue, fado, tarantela, ópera, sinuca e jogo de dardos. Ainda é a comida farta. A beleza explícita. Ainda é muito mais sim do que não. Quando estou em Canoa, isso que se convencionou chamar alma, canta. E afinado, viu. Canoa é uma face de mim que gosto de ver, que gosto de ser. Quando levo alguém querido em Canoa, o que estou dizendo é: veja, sou amável, me queira bem. Canoa tem meu umbigo. O mar, quando quebra na praia, é bonito. Quando quebra em Canoa, sou eu me fazendo espuma. 


4 comentários:

Leonardo Xavier disse...

Sempre tem um lugar que parece que tem um pedaço da alma da gente. Eu mesmo gosto muito do Recife Antigo, eu sempre me sinto feliz andando pelas pontes olhando o sol sendo refletido no rio e o rio despejando suas águas no mar.

Rafa disse...

Eu preciso ir com vc. A mim você já viu: Lapa/Santa teresa. Diz de uma beleza antiga que se faz história, de ecos de alegrias que ainda ressoam nas paredes. E as nossas gargalhadas novas encontrando tudo isto. Faz-se festa. Amo vc. Notícias suas eu quero, viu? Rio, quando?

Menina no Sotão disse...

Saudade de ler-te como agora na madrugada. De buscar uma xícara de chá e ficar sentindo o sabor entre os lábios. Demorar-me no imaginar teus traços e pensar no suspiro que vai ficar depois de ler a última palavra quanto então voltarei para mim e lembrarei de mim mesma, dos meus sentimentos ao descobrir a cidade, dias depois de aqui chegar. Descobrir uma Paulicéia só minha, que fui incapaz de perceber no primeiro olhar e saber que por de trás de cada uma dessas janelas há uma cidade e todas são diferentes...

Saudades

bacio

Allan Robert P. J. disse...

Há anos não vou a Canoa Quebrada, talvez nem reconheça. Em Arraial d'Ajuda também tem uma "Brodway". Coisas do Nordeste.
:)