domingo, 26 de fevereiro de 2012

Pequena

Hoje não tem poesia, não tem beleza, 
nenhuma metaforazinha pra dar sabor.
Só a pequena e cotidiana vida.


E aí eu comecei a chorar. Gente, eu chorava tanto que parecia coisa de filme, encostei na parede e fui deslizando até sentar no chão. Nunca, nunquinha que eu pensei que ia fazer assim, ainda bem que assisti muito dramalhão e aprendi certinho. Mas, é isso, chorei. Claro, tem um antes. Tipo flash back.

Sabe aquele dia que você acorda bem? O corpo alerta, o riso fácil? Hoje. Daí pensei: porque não? Porque sim: banheira. Bolha é divertido. Eu acho. Vestidinho, café na porta da cozinha, mercantil: azeite de dendê, melão, cheiro verde, cebolinha, leite, leite de coco, tomate, pimentão, iogurte de mel (eu gosto), stellas. Cheguei em casa e, na tv, Johnny Guitar. Pois é, esse mesmo. Filme que me habita. Podia ver diariamente aquele diálogo cinicamente romântico (ou romanticamente cínico?) e a incrível maldade de Emma. Papo bom no twitter. Telefonema da irmã, mamys, filho. De Johnny Guitar a Imitação da Vida, continua tudo lindo no país das maravilhas. Mais conversa boa, um post que vocês devem ler (e fui eu que cutuquei), telefonema longo de amiga. E o clima? Tudo azul, pouco calor, vento gostoso brincando na saia. Botar água pra ferver, picar cebola, tomate, pimentão, alho. Desfia arraia. Chega email daqueles de pôr riso no olho. Maria Bethania cantando alto. Fazer muqueca é um prazer, cheiro bom de dendê, tudo se fazendo sabor. E foi isso, na horinha de desligar o fogo, eu chorei. Por tantos e variados motivos. De banzo. De não poder telefonar pra Rozane e dizer: traz a cerveja. Pela maldita geografia. Por saber que posso fazer isso tudo sozinha, mas não quero. Porque não posso ver o mar. Por não ter os sonhos dos 27 anos – e eu nem queria que eles tivessem se realizado, só queria ter algum, sabe, com a beleza dos que eu tinha. Chorei porque a muqueca está tão saborosa. Porque o tempo está bom, tem coisa boa na tv e a Maria Bethania canta tão lindo. Chorei porque o email era tão doce. Chorei porque não havia palavra, nem minha nem sua, sendo dita. Chorei porque a alma fez um silêncio tão pleno que eu não me sabia mais em mim. Chorei pra sair de mim, daqui, do tempo. Chorei sentindo o cheiro do riso, do sabor, das cores variadas ali, tão perto, além do espelho que me separa dessa eu que sei melhor que aquela ali, de olhos molhados.

Depois, parei. Lavei a louça, dividi a muqueca, o afeto veio daí e me pegou pela mão. Violão bom. Notícias de chuva. Eu sei que, em mim, é o riso - e esse saber já o faz mais perto, mesmo que a garganta ainda coce e um soluço ocasional insista em pontuar as frases.



4 comentários:

Juliana disse...

já li esse post umas 15 vezes, apaguei dois comentários, daí resolvi só dizer PUTZ!

Rafa disse...

Eu estava aqui, com um aperto no coração sem saber o porquê. Li o seu texto e o nó se desfez. Imagino que você escreva para desfazer os seus próprios nós, mas obrigada por ter dividido o seu momento comigo. Por um instante, me senti menos sozinha.

letyleal disse...

Mais uma vez embasbacada!
Seus textos também me fazem me sentir menos só... e realmente amo ser surpreendida sempre por suas palavras, que parecem sempre ter sido escritas pra mim.

Silvia Varela disse...

Que lindo, Lu!!!! Que lindo como você se diz em palavras!!!

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