sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Uma História. Nossa História - Blogagem Coletiva


"No dia 12 de fevereiro de 2012,  na cidade de Queimadas, interior da Paraíba, aconteceu um crime impensável. Um estupro coletivo oferecido como presente de aniversário de um irmão para o outro. Os dois irmãos que organizaram o evento teriam simulado um assalto, com a ajuda de outros homens, para violentar as mulheres convidadas, usando capuzes e máscaras de carnaval. Seis mulheres foram agredidas e estupradas. Duas delas, Michele Domingues da Silva (29 anos) e Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27 anos), identificaram seus algozes e por isso foram assassinadas".(leia o texto inteiro aqui)



De vez em quando, especialmente quando acontecem casos de violência e crueldade quase indescritíveis contra a mulher, ressurge a frase: “toda mulher tem uma história de horror pra contar”. Acontece que eu não tenho. Embora sofra o efeito da mesma discriminação cultural e econômica, da violência estrutural contra a mulher, que faz com que nossos salários sejam menores, nossa competência contestada, nossas habilidades minimizadas, pessoalmente eu não tenho nenhuma história de horror e/ou violência. Meu pai sempre me tratou com amor e respeito, meu irmão é apoio, diversão e carinho na minha vida, meus tios e primos são queridos companheiros de riso, meus namorados, ficantes, flertes e casos em geral sempre me deram prazer e recordo os relacionamentos com alegria, meus colegas de Universidade e trabalho interagem com gentileza e respeito mútuo. Nunca fui bolinada ou assediada com agressividade e se já me cantaram na rua eu não registrei.

Isso quer dizer o quê? Que sou especial? Ou que as outras mulheres inventam e se vitimizam? Não. Não. Não. Isso quer dizer que é possível. Que não são “os homens” que estupram “as mulheres”, que não há uma lei natural que determine que “isso sempre aconteceu e sempre vai acontecer”. Isso quer dizer que não é um fenômeno imutável sobre o qual devemos lamentar em voz baixa e rezar para que não aconteça com ninguém que a gente conhece. Não. Não. Não. Eu conto que não tenho uma história de horror pra dizer que são alguns homens que estupram, não porque são monstros desumanos, mas por que formados e forjados em uma sociedade que nos forma a todos que calamos diante dos abusos, que consentimos, que perguntamos “ah, mas com essa roupa e quer ser respeitada?”, “ah, mas ela tava sozinha na festa?”, “ah, vai ver ela estava gostando, nem gritou, né”. São homens formados e forjados em uma sociedade que justifica ou ameniza esta violência cruel que é o estupro com a desculpa que “é o instinto”, que foi “um impulso irresistível”, “que ele não aguentou a provocação da sensualidade e beleza dela”.

Atenção: Estupro Não é Sexo! Não foi por impulso que esses homens na Paraíba estupraram e mataram as mulheres. Não foi por instinto. Não foi porque eles não resistiram ao charme delas. Foi um crime planejado de forma fria, foi o uso intencional e premeditado de força e humilhação, foi a sensação de impunidade, foi a noção disseminada que a mulher não tem o direito de dizer não, que seu corpo é público e direito do homem que a quiser. Que mulher não tem direito.

As mulheres tem histórias de horror pra contar porque alguns homens criaram e interpretaram esta história e outros homens e nós, mulheres, nos calamos e tacitamente mantemos a possibilidade de outros homens se sentirem no direito de reproduzir a mesma violência.


É preciso romper o silêncio: a violência contra a mulher, os estupros e o femicídio não são uma questão privada e não é culpa da vítima. A impunidade é elemento mantenedor da situação e é contra ela que se deve lutar. É preciso reconstruir o discurso sobre o feminino. É preciso avançar na eliminação das desigualdades sociais presentes nas relações de gênero. É preciso ressignificar a sexualidade, a liberdade, a autonomia feminina. 

É preciso não calar, não deixar que o caso seja esquecido, não deixar que simplesmente engrosse a lista dos casos impunes. O machismo mata. Isso não é uma abstração, uma frase de efeito, uma invenção das mulheres. O machismo estuprou e matou Michele Domingues da Silva (29 anos) e Isabela Pajussara Frazão Monteiro (27 anos). Não adianta você sacudir a cabeça, fechar os olhos e fazer de conta que não é com você. A história de horror de Michele e Isabela agora é minha. É nossa.


4 comentários:

Luana disse...

Eu fiquei sabendo de um caso assim no Ira. Foi uma colega de trabalho, iraniana que contou. Entraram numa festa de casamento, trancaram os homens num comodo e estupraram repetidamente as mulheres. Justificativa? Que elas estavam usando roupas provocantes...

Eles foram presos, mas as penas atenuadas porque segundo as leis islâmicas as mulheres "mereceram" por terem provocado.

Dai a gente culpa a cultura, acha um absurdo um pais desse e tals e ve que cosias semelhantes acontecem no nosso quintal!

Sabina disse...

Ola,
Criei um blog recentemente e visitando o mundo da blogosfera encontrei teu blog. Adorei teus textos, por isso sigo-te. Gostaria de convidar vc a visitar meu blog, nele postarei textos de minha autoria, espero que goste!

Abç

Dona Lô disse...

Fiquei chocada demais com o caso. Concordo com o texto, brilhante, por sinal, e adiro a toda campanha que se lançar. Sobre historias de horror, tenho cá meus relatos, alguns até mesmo citados em blog, mas nenhuma que se comparasse ao que vimos nessa historia da Paraíba. Ainda assim, toda forma de agressão, mesmo verbal, precisa ser combatida.
Tô dentro!

Francy´s disse...

Sabe muitas vezes me perco, com tudo que acontece a minha volta e até mesmo "longe" que acaba ficando tão perto da minha pessoa, fico olhando e analisando o comportamento das pessoas e realmente não consigo entender mais nada. O motivo de tanta violencia e tanto racismo de tanta aversão uns com os outros realmente não sei onde tudo isto vai parar. A unica coisa que sei que é muito lamentavel.
Um abraço.

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