As tempestades amainaram.
Não houve quem ouvisse, por mais alto que fosse o gritar.
Talvez se ouça melhor o silêncio.
É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Porque ela tem seus olhos. Tem as letras a redesenhá-la: adorável. Mas sou eu, não ela, não ainda, que repete as palavras como se pudessem ser estradas. Uma conversa que não se sabe terminar. É que já não é mais só o silêncio. É o seu silêncio. O vazio que se impõe à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar. Antecipo: não haverá abismos em mim que não ocupes. Minha geografia se reinventa pelo desejo de sentir seu desejo. Vestida de mim mesma, reúno letras como se fossem memórias e reinvento a história. As horas que ainda chegarão. Uma angústia: não saber. É também o que não sei que faz o coração bater, uma vez sim, uma vez não. Descompasso. Nunca estamos onde o olhar do outro nos encontra. O coração sabe brincar de esconde-esconde. Está. Não está. O vai e vem do sentir confunde os pontos: exclamação, interrogação, nenhum final. Ponto de vista. Meus caminhos são sinuosos, levanto placas com indicações que não sabes decifrar. Língua estrangeira. E mesmo que arda, carne e letra, ainda seremos desencontros. Eu me inquieto, não deveria o espaço se desfazer em tempo? Eu chego antes e não me espero. Cantarolo Belchior, essa pressa de viver. Mas, em amanhãs feito agoras, eu quero querer lhe esperar. Brinco de acreditar que é possível isso de gostar. Como se fosse razoável querer tanto, em pulsos latejantes e frases que se esquecem de ser completas. Depois dos serenos vazios, um espanto: aqui, vive-se. Como se viver fosse um flash back. Revelações: você está aí e eu o sinto tão em mim. Espero que esse você que se entranha em minha pele, esse você que adivinho sabor e cheiro, esse você tão meu ainda vai chegar. Como se fosse o tempo errado, como se devêssemos estar em outro lugar. Essa saudade do que ainda será bom. Planejo as coisas simples. Minúcias. O toque, o riso, a palavra. Desejo na lupa. O primeiro. O momento da criação: inventamos um nós. Soletro o desconhecido: encontro. Abro todas as janelas, o peito, os lábios. . Me encontra. Me conta, devagar, de trás pra frente até a hora que dissemos adeus. Ou olá.

4 comentários:
Olá!
Andei lendo o seu blog, achei os textos muito interessante a forma com que você brinca com as palavras, tornando brincadeiras de criança (como o esconde-esconde) em uma associação com os sentimentos.
Parabéns!
que coisa mais linda...
Ai ai...você já deve estar cansada da minha babação de ovo. Mas amei o texto e vou ficar te citando pra sempre por aí!! Beijos.
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