sábado, 25 de fevereiro de 2012

Das Esperas

As tempestades amainaram. 
Não houve quem ouvisse, por mais alto que fosse o gritar. 
Talvez se ouça melhor o silêncio. 



É que tenho pressa de sentir. Desaprendi a deixar o querer chegar manso ir ocupando o pensar. Voraz. Sinto saudades do que desconheço. Tenho fome de ser essa outra que vislumbro ao falar com você. Porque ela tem seus olhos. Tem as letras a redesenhá-la: adorável. Mas sou eu, não ela, não ainda, que repete as palavras como se pudessem ser estradas. Uma conversa que não se sabe terminar. É que já não é mais só o silêncio. É o seu silêncio. O vazio que se impõe à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar. Antecipo: não haverá abismos em mim que não ocupes. Minha geografia se reinventa pelo desejo de sentir seu desejo. Vestida de mim mesma, reúno letras como se fossem memórias e reinvento a história. As horas que ainda chegarão. Uma angústia: não saber. É também o que não sei que faz o coração bater, uma vez sim, uma vez não. Descompasso. Nunca estamos onde o olhar do outro nos encontra. O coração sabe brincar de esconde-esconde. Está. Não está. O vai e vem do sentir confunde os pontos: exclamação, interrogação, nenhum final. Ponto de vista. Meus caminhos são sinuosos, levanto placas com indicações que não sabes decifrar. Língua estrangeira. E mesmo que arda, carne e letra, ainda seremos desencontros. Eu me inquieto, não deveria o espaço se desfazer em tempo? Eu chego antes e não me espero. Cantarolo Belchior, essa pressa de viver. Mas, em amanhãs feito agoras, eu quero querer lhe esperar. Brinco de acreditar que é possível isso de gostar. Como se fosse razoável querer tanto, em pulsos latejantes e frases que se esquecem de ser completas. Depois dos serenos vazios, um espanto: aqui, vive-se. Como se viver fosse um flash back. Revelações: você está aí e eu o sinto tão em mim. Espero que esse você que se entranha em minha pele, esse você que adivinho sabor e cheiro, esse você tão meu ainda vai chegar. Como se fosse o tempo errado, como se devêssemos estar em outro lugar. Essa saudade do que ainda será bom. Planejo as coisas simples. Minúcias. O toque, o riso, a palavra. Desejo na lupa. O primeiro. O momento da criação: inventamos um nós. Soletro o desconhecido: encontro. Abro todas as janelas, o peito, os lábios. . Me encontra. Me conta, devagar, de trás pra frente até a hora que dissemos adeus. Ou olá.



4 comentários:

Bruno Simomura disse...

Olá!

Andei lendo o seu blog, achei os textos muito interessante a forma com que você brinca com as palavras, tornando brincadeiras de criança (como o esconde-esconde) em uma associação com os sentimentos.

Parabéns!

Karin disse...

que coisa mais linda...

letyleal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
letyleal disse...

Ai ai...você já deve estar cansada da minha babação de ovo. Mas amei o texto e vou ficar te citando pra sempre por aí!! Beijos.

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