quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Cartas Na Mesa


Uma carta. Gosto de cartas, de receber, claro, ainda mais de escrevê-las. Uma carta desdenha o calendário, ignora manchetes, prescinde de motivo, sua única urgência é existir. Parafraseando Goethe: por que me vejo compelida a escrever? Não é preciso, querido, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel. Assim é, não se escreve para dar notícias, para informar, embora isso possa se passar. Escreve-se – eu escrevo – para ficar próxima. Como uma forma de burlar a geografia, uma carta é a tentativa de um abraço. Um papel que liga duas solidões, parece-me que li em algum lugar que perdi nas esquinas da memória. Eu diria: que liga dois anseios. É assim que escrevo. É assim que te escrevo.

Pensando em você eu me peguei pensando em Ana e Pedro. Você não deve conhecer, é um livro infanto-juvenil escrito por Vivina de Assis e Ronald Claver. Um livrinho só de cartas entre dois adolescentes que nunca se viram, mas que ah, em algum momento, passam a querer muito que isso aconteça. Pedro é mineiro, sabe. Quando eu li o livro eu já não era menina e, ainda assim, por vezes Pedro me fazia sorrir. Com a mão no queixo. Com seu passeio a Peçanha. Com seu gosto por caquis. Falei que eles começaram inspirados em Nunca te vi, sempre te amei, de que gosto muito?

Suspendo a caneta um minuto. Há sempre tanto pra dizer e, no entanto, nossas ligações são feitas de silêncio e esperas. Como te dizer que suspeito ser feita de letras? Elas se aninham em formas, curvas e conformam um corpo que sente. Tenho em mim muitas histórias, minhas e de tantas mulheres, tantas marias e teresas, joanas francesas e brasileiras. Mulheres de muitas palavras e algumas beatrizes silenciosas e luízas fugidias. Tenho em mim espelhos, rodeios, espaços, entremeios. Rimas simples. Tenho, e sou, mulheres demais. Vivi romances, dramas e tragédias sem sair da cama. Fui comédia. Fui julieta e ofélia em um morro carioca. Fui Marquesa – de santos, de merteuil, de deusdará – em plena Sapucaí. Viajei de metrô, avião, balão – mágico ou não – sem deixar minha rede preguiçosa na varanda dos olhos alheios. Fui, vim e, algumas vezes, venci.

Tenho em mim várias mulheres, senhoras de longos vestidos e sussurrados segredos. Meninas levadas com dores de ouvido. Moçoilas inseguras ansiando pelo parceiro de baile. Garotas estudiosas de óculos na ponta do nariz. Bêbadas. Abnegadas. Solteironas. Devassas. Tenho em mim mundos de mulheres e suas impossíveis narrativas. Vivem em ruidosa festividade e se revelam nos imprevisíveis rompantes de caprichosa dama. Ah, lucíolas e divas e, até, uma iracema saliente, brincam entusiasmadas de amarelinha enquanto uma sereia pequena se fantasia em camélias. Pode espiar: helena, cassandra, medeia, aos pedaços se montam em quebra-cabeças de mim. 

São tantas, são muitas, são mulheres. Sou. Sou mulher: um impossível de dizer cercada de carne desejante por todos os lados. Vim de histórias, livros, cantos, mitos. De mim. De esquinas. Vim dum ventre escuro de mulher. Vim da tua mente onde ela é escura e fértil. Vim de caminhos outros, que esqueci ao pisar. Vim das tuas outras mulheres, sou cada uma delas no momento em que sou eu mesma pra ti. Vim do som de uma voz, assim, vitoriosa. Vim de mim mesma, como barro em minhas próprias mãos moldo um destino e renego as costelas alheias. Vim em um percurso único, obscuro, campo minado.

Mas você não pode saber, claro. Nenhum de nós sabe. Tateamos. Nos meus percursos, não encontro sinais. Nenhum letreiro, nenhuma placa, nenhuma sinalização: ele esteve aqui. Não há indícios de ti. E, ainda assim, sei do sal dos dias de despedida, embora nem tenhas chegado ainda. Talvez nunca chegue, meus caminhos são sinuosos. E mesmo que arda carne e letra, nada disso me leva até onde te imagino.

Paro a caneta, claro que nada disso irá para o envelope que espera o carinho que vou te enviar. Um postal, apenas. Pra você, com carinho. E ficar esperando que faças o que tem feito: adivinhado. É o que me resta. Resta a vontade de. De que você seja real. Carne, sangue e desejo. Que tenha pressa. Porque o mundo está acabando. Qual mundo? O meu. Esse mundo meu que te convida. Que te planeja. Tenho data de validade. Não sei qual. Cem dias, talvez. Porque cada se podia ser um quando. E, então, não haveria mais coração inquieto. Eu sei disso enquanto fecho o envelope, as janelas, todas, e sigo pra rua. Porque a espera é em movimento, vou pra rua, fazer o tempo em passos. Esquinas há, por certo.

3 comentários:

Renata Lins disse...

Tempos de cartas "de verdade" são outros tempos...(diz aquela que escreveu carta de verdade e nunca botou no correio).

Fernando Amaral disse...

Faltou uma: Cacilda. Cacilda, que texto bonito, sô!

Clara Gurgel disse...

Simplesmente lindo...

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