sábado, 11 de fevereiro de 2012

Camarão no Leite de Coco

E eu bendigo as coisas simples, 
como camarão no leite de coco. 
E banho de chuva.
E segurar tua mão.
E ver o mar se fazer vermelho
 acolhendo o sol entre as pernas


Sem Chão

Há muitos outros atores. Muitas outras formas de dizer. Mas hoje eu estou pensando em Anthony Quinn. Naquela dor que Zampano sabe sentir, em La Strada. Na liberdade cheirando à alegria, que ele faz almejar, em Zorba. Eu não lembro a primeira vez que vi Zorba. Mas tenho, como cicatriz, a certeza: o riso. Antes mesmo que eu soubesse como, aprendia a dizer sim e não e que feliz, mesmo, não se podia ser sempre – e nem era isso o que se devia almejar – mas livre, ah, livre no corpo, no espírito, nos desejos e nas coragens. Livre. Zorba, o Grego, mas podia ser: Zorba, o Livre.  Foi, primeiro, o filme – só depois soube o livro e ele me soube tão bem. Que bom que foi. Quinn, aquela imensidão de talento feito força e riso.

Há dias difíceis, disse-me ele. Aqueles – explicou – que amanhecem nublados, mesmo que o sol não saiba e se bamboleie iluminando as coisas por aí. Disse: é que a alma amanhece cinza e o coração dormente. Nessas horas, penso eu, não devia ter geografia. Devia ser assim: bem penso nele, bem dou-lhe um abraço. Eu sei estes dias. Eles ardem como se a gente tivesse um corte aberto no pé e entrasse no mar. Não são o dia da dor, mas o seguinte. O primeiro dia do resto da vida.

Para atravessar esses dias, respiro lentamente e, se possível, vejo filmes. Vejo Zorba. Vejo Quinn sendo Zorba.


Ou vejo Quinn sendo Quinn e aproveito pra lembrar que a vida é o que nos acontece enquanto fazemos planos. Aproveito pra sentir fome. E deixar o riso armar a rede, de novo, no peito. 


Nessas horas penso no encanto. Na impressão que certas produções humanas causam. No bem-estar só de ouvir, na inquietação só de olhar, na emoção só de ler. A arte, não me importa - mesmo, mesmo - que minha avaliação seja datada e cheia de preconceito de classe, como tentam me ensinar. Eu hierarquizo as produções, confesso. Porque o que sinto ao ver uma reprodução de Caravaggio (ou, alegria, alegria, quando vi de verdade, verdadeira) não cabe no que a linguagem pode transmitir. O impacto que senti ao contemplar as obras de Aleijadinho, o pungente de Bizet, o arrebatamento com Picasso.  Um aboio bem cantado, Geralo Amâncio no repente, um drible de Garrincha. Ouvir, vezes e vezes, Assum Preto, e deixar que as lágrimas escavem o rosto em uma dor sem nome. A mágica de um sussurro de Greta Garbo. As veredas por onde Austen me leva. A perfeita combinação de ritmo e palavra em Pedro Pedreiro. A mania que as letras de Clarice tem de fazer beleza no meu sentir.

Mas nada, nada, é o mesmo que ter teu abraço no meu. E é por saber assim, em lembranças, que a dor do meu amigo é, também, minha.

3 comentários:

Beto Mafra disse...

Você entrou na minha alma, folheou papéis antigos, remexeu.
Ouviu cantos antigos e recentes, me ajudando a admirar a energia que tenho, o brilho de que sou capaz.
Ontem achava que não era mais.
Obrigado, amiga.

Fernando Amaral disse...

Tó cá uns abraço, nos dois. E descalços.

Renata Lins disse...

Lulu, adoro Zorba. Zorba. A Grécia. A praia. A liberdade. Zorba. Dançando sirtaki na cara do bom gosto. Viva Zorba. Um pouco de Zorba a cada dia. Como terapia. Como esperança. Uma dose de Zorba.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...