sábado, 7 de janeiro de 2012

Um, Dois...

É tua hora de sair, eu sei. Deixo meus olhos fechados e lembro de respirar suavemente: um, dois, expira, um, dois, expira – esse contar silencioso é uma espécie de âncora. Ainda durmo? Durmo. Não me acorde. Eu sei todas as lágrimas de amanhã. Sei teu lado da cama já frio, sei do armário vazio, sei do silêncio. Mas, agora, durmo. Ou pareço. Pise devagar. Suave. Lembra a primeira vez que entrou na minha casa? Pé ante pé. Meio de lado, diria Leminski. Um amor cheio de cautela. Eu ri. Mas agora já não rimos. Há sombras em nossos rostos. Nas esquinas do nosso afeto. A vida feito um noir... a sequência de péssimas metáforas se impõe. Um, dois, expira – eu dizia pra mim mesma, o desejo me pedindo logo, pressa, tudo: você em mim. Aquele dia, tantos dias, muitos dias de vontades cegas, de mãos ansiosas, de roupas e idéias em desalinho – mais uma imagem requentada. Será o amor necessariamente o reino das palavras fáceis? Ou, penso, olhos bem fechados, essa acidez é uma forma de defesa por sentir tanto, mesmo sabendo que há um alívio guardado esperando pra virar suspiro logo que vires o quarteirão? Por um tempo, sentimos o tempo e era bom. Você, aprendendo a ficar. Os anos, virando linhas: no rosto, destino na palma, pontos de costura, tecendo alegrias, dores e aquela forma morna que as mãos têm de se encontrarem e cuidarem uma da outra. Eu não me arrependo, diria se estivesse acordada, mas não estou. Durmo. Não me acorde. Meu sono abre a porta pra você. Porque durmo, tua mala vai mais leve. Um, dois, expira. Um-dois, feijão com arroz. Um-dois, deve-se mastigar vinte vezes antes de engolir, lembrança remota de dicas de saúde. Mastigo tua partida. Um-dois, mas a sensação que tenho é que não sei contar tão longe. Engulo logo, antes de engasgar. Antes que um de nós dois descubra que há alguma coisa em mim que permanece acordada. O amor te espreita. De olhos fechados, eu permaneço, mas ele, zeloso, acompanha a sequência inexata que usas num arremedo de despedida. Os olhos meio vazios que não se acostumaram à penumbra, a mão na maçaneta, o respirar profundo. Um-dois, é preciso que alguma coisa durma em teu íntimo para que consigas sair. Ainda sabemos a espelhos. E a encaixes. Se eu estivesse acordada estenderia a mão e ficarias mais uma hora, um dia, uma vida, quiçá. É preciso que eu durma e eu durmo: um-dois, nenhum sonho a mais. Um-dois, um-dois, marcha soldado. Um-Um, faremos somas em outros corpos. É tua hora de sair. Feche a porta. 

6 comentários:

Beto Mafra disse...

Na esquina do amor, a encruzilhada.
Encruzilhada exige escolhas por caminhos, mudança de direção.

Muito pior.
Deixamos para trás a origem do percurso, onde estivemos satisfeitos, em busca de novos endereços.

Aceitação de fim, aceitação do novo - a encruzilhada dolorida.

Cah disse...

dor, dor, dor enfim.
O que consegui ver, ler... imaginar tua sonolência causada, a coragem de não implorar pra ficar, ou a covardia, não sei.

Lindo.

Beijos

Rita disse...

"Não me acorde. Meu sono abre a porta pra você. Porque durmo, tua mala vai mais leve."

Ah, Luciana...

*lindo*

beijo
Rita

silvioafonso disse...

.


Não, quando eu sair, se eu
sair, não fecho atrás de mim
nada que possa embargar a
minha volta. Fico por aqui,
mas se eu sair será para os
teus braços. Para o teu quarto
para no teu sono poder te
namorar...

silvioafonso






.

Allan Robert P. J. disse...

Bom ritmo. Espero que ao sair e fechar a porta se lembre de voltar. Um dia.

Glória Maria Vieira disse...

"Mastigo tua partida. Um-dois, mas a sensação que tenho é que não sei contar tão longe."

Ai, Luuuuuuuuuuuuuuuuh... É da sua poesia que eu preciso, minha amiga. COISA LINDAAAAAAAA!

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