quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Permaneço



Trago uma mala permanente no pensamento, cigana e bandoleira que sou. Mas quando paro, retorno ao aqui que é tão meu. Tão eu. O lugar que me recebe, sempre, tem cheiro de sal. Fico porque é perto do mar e dele preciso pras partes áridas do viver. Porque o ritmo na fala me encanta, porque há abraços fáceis, redes na varanda e cafuné. Fico porque há nas palavras únicas, uma magia que só quem cresceu no chão rachado pelo sol, entende: lundu, chamego, cangote, remexer, rebolar. Fico porque os dias são longos e as noites são claras. Porque o vento assanha os cabelos e os desejos. Fico porque as comidas têm gosto de saudade e as saudades têm promessas de encontro. Fico porque há olhos que me viram tanto que agora me vejo neles. Porque há quem me entende inteira e o que não entende, ama. Fico porque o café é forte, as mangas são doces e o feijão é verde. Porque quando chove a terra tem cheiro de alegria, as pessoas rodopiam sob a água e há mais riso e mais verde. Fico porque há dança e o forró é ajeitar um corpo no outro como se viver fosse em encontros. Fico porque se fala alto e se ama fácil. Porque o céu se avermelha em adeus todas as tardes. Porque se canta muito e sempre. E nem todo mundo é Bethania, mas ela há. Porque por aqui já foram Rosa, João Cabral e Patativa. Porque há um Gonzaga em cada lua. Fico porque há varandas, cadeira de balanço e vizinhança pra prosear. Fico porque, aqui, as minhas certezas: padaria, farmácia, emergência, bar. Porque os problemas já são íntimos: trânsito, varrer pó de asfalto, lado do sol. Porque sei os atalhos: onde cobrir um botão, onde comprar papel laminado, onde consertar uma bolsa. Porque conheço os intervalos. Há sempre um céu e um mar a me refletir. Porque aqui há cerveja entregue em domicílio e colos à vontade. Fico porque posso deitar encolhida e saber que a minha dor tem canto certo. Porque posso gargalhar na janela e ouvir o eco. Porque, aqui, mesmo as ruas desconhecidas já são tão minhas antes mesmo de chegar lá. Fico porque a família é grande. Porque a dor é pequena. E tanto escrevo quando em imagem seria mais simples, há um filme que em seu nome já resume: Viajo porque preciso, volto porque te amo.

3 comentários:

Fred Caju disse...

E eu que nem gosto muito de filmes, acho o do Marcelo Gomes um dos melhores.

Rita disse...

Gostei tanto deste texto. Gostei tanto do Nordeste nele. Demais.

bj
Rita

O Divã Dellas disse...

Que saudade eu estava desse lugar, dessas ideias, dessa energia.
Feliz Ano Novo!
Feliz Vida!
Cinthya - O Divã Dellas
http://odivaadellas.blogspot.com

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