sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cinza



Uma criança foi queimada. Queimada. Queimada. Preciso repetir isso muitas e muitas vezes porque meu corpo, meu juízo, eu toda me recuso a compreender, a aceitar, a dar sentido a uma atrocidade dessas. Queimada. Uma criança. Assassinada. Carbonizada. Porque? Porque era índia. Ou apenas porque era. Porque a existência do outro, diverso, diferente, hoje, é sempre uma ameaça. E eu e você fazemos parte disso, chorando, sentindo, calando, escrevendo, protestando, doendo, sendo. Fazemos parte. Somos nós, os humanos. Somos nós, são nossos valores, nossa sociedade, nossos comportamentos. Nossas palavras. Nossas trancas, nossas amarras. Somos nós e essa criança que já não é: cinza. Meu dia, meu mundo: cinzas. Eu sigo, daí a pouco é aniversário da amiga, é sobrinha no colo, é lua no céu. Eu sigo, você segue. É tão absurdo, cada um ainda na sua vida, depois do susto, e ela, a criança, permanece. Queimada. De quantas formas e quantas vezes precisarei escrever isso? Porque não é o meu doer que importa, não é a sua indignação, não é esta tentativa de dar sentido pra melhor lidar que importa...só importa isso: uma criança de 8 anos foi assassinada e queimada. 

4 comentários:

Ânderson Luiz disse...

Eu estou no trabalho e tudo o que eu preciso agora é de alguém pra me abraçar e me dizer que eu não pertenço a essa espécie. Mas não tem ninguém aqui. Cara, como dói.

Rita disse...

Tal como você, alimentei até onde deu a esperança de que tudo não passasse de informações desencontradas.

Nó.

rita

Júlio César Vanelis disse...

O ser humano é capaz de coisas horríveis... Coisas que jamais passariam pela nossa cabeça... Só o ato já é medonho, quando colocamos as motivações em jogo, realmente, dá nojo...

Um abraço, madrinha... Estava com muiiiita saudade!

Até o próximo

caso.me.esqueçam disse...

e o que pode vir depois? :(

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