sábado, 10 de dezembro de 2011

Meme dos Filmes #30 - Nunca Mais (Filme Mais Traumático)

Disse Nelson Rodrigues: "deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia". Eu, gaiata, uso pra filmes também. Gosto de rever, perder-me nos cantinhos desconhecidos do que já percorri tantas vezes. Os filmes que mais me doem, incomodam, os filmes que mais me dizem, que mais me tocam, aqueles que arrancam risadas soltas ou soluços descompassados, são esses os filmes que se tornam íntimos, que demandam novos encontros.

Isso posto, já se imagina a dificuldade de responder qual o Filme Mais Traumático, aquele que não se pretender rever. Nunca. Nunquinha. Não que eu não tenho os meus nunca mais. Por exemplo: nunca mais Dançando no Escuro. Mas é que achei tão ruim que não vale o esforço. Esse tipo de filme não atende o quesito desse item do meme que é ser um filme bom, “gostável”, que admiramos mas não pretendemos reencontrar. Eu já ia pedir arrego e dizer que não sei, mas, aí, lembrei. 

Eu nunca decidi que não iria rever Lua de Fel. Mas eu sei que não vou. Lembro quando o vi, nitidamente. Estava na casa de uma amiga. Ainda era video cassete. imaginem. Quando terminou, simplesmente saí andando. Nem me despedi dela, só saí andando. Depois de alguns quarteirões sentei no meio fio e tentei chorar. Mas estava ressecada por dentro. Eu era território inóspito. Lembro de dezenas de perguntas, em mim, e nenhum encontro. Lembro que listei defeitos, zombei, diminuí. Quero que seja pouco, gritava por dentro. Porque eu tinha ficado tão miúda. Passou o tempo e o filme permanece em mim. Quem me conhece sabe que minha memória é item de colecionador, coisa rara, mas em relação a esse filme sou plena de lembranças. Várias cenas, trilha, tudo me ocorre facilmente.


Resuminho: Hugh Grant e aquela elegantérrima atriz inglesa de 4 casamentos e um funeral estão em um cruzeiro para uma segunda lua de mel. Mas, logo se nota, muito sem graça. E o Hugh, que não é moleza, começa a paquerar desajeitadamente, a esposa do Peter Coyote - que está em uma cadeira de rodas (Peter, não a esposa). A esposa é a gostosona francesa Emanuele seiquêlá (aquela de Ciúme - o inferno do amor possessivo, filme bem bom também). Aí o Peter (*suspiros*) diz ao Hugh que beleza ele - Hugh - ficar com a esposa Emanuele, se ouvir a história dos dois. E aí começa uma narrativa hipnótica sobre vínculos eróticos, dedicação, crueldade, submissão, degradação, desejo, todo tipo de laço entre dois sujeitos. Hugh lá, envolvido na história, sem prestar atenção em mais nada, muito menos na esposa aparentemente meio mosca morta (Kristin ou Kirstin?), of course. Aí quando Peter chega ao fim da narrativa tem uma festança no navio. O Hugh chega todo se achando, se joga e a Emanuele toda sexy vai dançar com quem, com quem? Com a esposa-mosca-morta-agora-toda-sensual-kristin, rá. Dancinha com paquera, pegação e beijo. Seguida de fuga. Depois Peter e Hugh encontram as moças, nuinhas, no beliche. E o desfecho daqueles de fazer os pelinhos do braço se arrepiarem. Como se pode observar, não preciso rever pra saber o filme todo em mim. 




É um filme bom, muito bom, mas me veio quando eu estava muito exposta, vulnerável e sua agudeza me tocou em vazios que eu trabalhara tanto pra esquecer. Não é um filme de sutilezas, não é um filme de enigma. Mas se tornou uma questão. Um filme que me cutuca com vara curta, que pede posicionamentos e, ao mesmo tempo, priva-me do conforto da certeza. Nada do que é humano me é estranho, essa frase ganha sentido na lente de Polanski. 



Até hoje me inquieto de não querer rever um filme com Peter Coyote. me explica?




Também participando do Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui):

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga


2 comentários:

sandro caldas disse...

Eu vi algumas vezes 'Lua de Fel'. Foi um filme que me causou forte impressão! Eu tive vontade de rever logo após ter assistido pela primeira vez, isso há muitos anos!
Beijos!

Renata Lins disse...

Você sabe que essa Emmanuelle é (ou era) mulher do Polanski, não? Eu gostei muito desse filme quando vi. Gosto desses eros/tanatos. Desses "no limite". Mas quando vi de novo, achei que não tinha sustentado a passagem do tempo. Achei meio chato. Talvez fosse o dia, sei lá.

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