sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meme dos Filmes #27 - Porrada (Melhor Cena de Violência)


Quando penso em violência e cinema, lembro de Sam Peckimpah. Bom, não só eu, claro (não à toa é conhecido como “poeta da violência”). Eu sempre fui fã de faroeste, daquela coisa um a um, olho no olho e aí, de repente, aquelas metralhadoras todas, a morte como acaso, o sangue tão mais perto, os olhos tão mais vidrados, uma estética nova pra mim. Meu ódio será tua herança, é um dos poucos filmes que eu me lembro onde e com quem estava quando assisti. recordo meus olhos arregalados, a respiração suspensa, eu não acreditava, os assaltantes se misturando a crianças e velhos e os caçadores de recompensa atirando, a câmara lenta registrando todo o (meu) horror...o duelo de antigamente em uma vestimenta outra onde o bem e o mal não tinham participação nenhuma no desenlace. Doloroso. Impecável. Hipnótico.

Depois, claro, aperriava meu pai pelos filmes dele, eu não conseguia desviar o olho, putz, os filmes de Peckimpah são bonitos. Pistoleiros do Entardecer é comovente, sério. Há tanta nostalgia, que lembro do filme como um nó na minha garganta. Toda situação é de escolha, a escolha é liberdade e opressão, a desesperança ali na esquina, esperando, esperando e, claro, chegando, numa das mortes mais bonitas que me recordo.

Mas o tema é violência e nada como Sob o Domínio do Medo. Nada, mesmo. O filme não tem tempo pra gente respirar. Não faz concessões, não ameniza, não apresenta réstia de esperança. Está tudo sempre lá: a violência tão humana, crua, degradante, objetiva e simples. Olha, Dustin Hoffman dizendo com aqueles “oclinhos” que não vai permitir violência contra a cada dele (desconhecendo o que já tinha ocorrido), a mulher insistindo que se entregue o “idiota”, os xenófobos ali na porta, tudo isso é um caldeirão de sentir. É um filme ousado, inteligente, bem dirigido e cruel. Daqueles que a gente não sabe se tem coragem de rever mas não consegue esquecer. Daqueles que nos lembra a nossa humanidade e como ela nos deixa tão vulneráveis e, ao mesmo tempo, tão insensíveis. Sabe, às vezes fico pensando que é um filme tão forte porque amoral (não os personagens, como em muitos filmes onde se valoriza a ambiguidade e a complexidade humana, mas a forma como a narrativa é dirigida).

O que eu gosto dos filmes do Peckimpah é a intencionalidade da beleza, a estética da violência como um apuro do olhar narrativo, a reflexão sobre o humano, sobre a sociedade e a interação entre estes dois elementos que se precisam e se opõem. A violência nestes filmes pode ser gratuita e até banal, mas nunca é banalizada ou superficial (o mesmo não posso dizer de tantos filmes atuais que me cansam no seu repetir de situações extremas).

Porém. Pois é, porém. Mesmo com todas as – incríveis – cenas de Peckimpah, a minha cena escolhida como Porrada (Melhor Cena de Violência), aquela que permanece em mim como enigma e, ao mesmo tempo, como óbvia resposta, é de um outro – grande – diretor. Kubrick e sua Laranja Mecânica


Tudo é perturbador neste filme. Dos closes do protagonista à escolha de leite como bebida do grupo de Alex. As cores da primeira parte do filme, as cenas de “recuperação” de Alex no novo experimento, a volta dele pra casa, as consequências da repugnância à violência que o impede de defender-se, a linguagem partilhada por Alex e sua gangue, linguagem tão estranha e, contraditoriamente, tão familiar, como se estivéssemos prontos praquela nova língua – tudo isso é de um impacto visual e compreensivo impossíveis de descrever. É dos filmes mais atemporais que eu já vi. É obsedante. A cena que escolhi é a do estupro. Tudo é bem feito: a marcação dos gestos, a teatralidade das expressões dos personagens, o contraste de cores (aliás, a ironia até, o branco dos violadores, o vermelho da vítima) e, a mais absoluta expressão de genialidade: Alex assoviando Singin´in the Rain enquanto comete a ultraviolência (como definido na linguagem do filme). A leveza da canção e as recordações que ela irremediavelmente provoca no espectador contrastam com o mal-estar provocado pela cena e fazem desta, uma das mais impressionantes sequências que já vi (aperte aqui e veja, a incorporação foi desativada, sorry).

Também participando do Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui):

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Sandro - Vinil Digital
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga

6 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Só o nome do filme "Sob o domínio do medo" já me arrepia!
bjs
Jussara

S. disse...

ei, só pra avisar: viva e novamente operante. te amo!

Deise Luz disse...

Sabe que nunca terminei de ver Laranja Mecânica por causa da cena do estupro?! não aguentei não, mal estar demais...

Luciana, tem mais um amigo meu no meme: http://www.cinemosaico.com

Beijos!

sandro caldas disse...

Você escolheu filmes fortes, mas acho que tem um que supera todos eles juntos! Você verá!
Beijos, Lu!

Allan Robert P. J. disse...

Gosto muito daquele filme... Como se chama? Aquele com aquele diretor, bom pacas!, que não lembro o nome. ...Aquele ator com aquela atriz talentosa... Tem uma cena... Como era mesmo?
:)

S. disse...

Sobre nós? Amor e saudades!
http://mudandoossentimentos.blogspot.com/2011/12/continuamos-lindos.html

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