quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Labirinto

Ela sabia o como e o quando, sabia o desejo dele, seco e pontual, a palavra direta, a mão precisa. Sabia que ia ficar sem chão, sem fala, sem escolha. Sabia que ele decifraria seu corpo e que seria território de ninguém até depois do prazer. Sabia as pernas em sim e qualquer depois em não. Sabia o silêncio construído conscienciosamente sobre pensamentos avulsos de outra vez. Sabia a necessária disciplina de uma entrega sem remorso. Sabia tudo e tanto, só não sabia a reserva, o medo, não sabia a imponderável recusa. E aí, soube-se abismo. Ou mais: labirinto. Ela sabia o labirinto. Já estava antes desse. E continuaria, ela sabia, depois dele. Depois de todos. Por causa deles. Ela sabia o labirinto porque o fez com as mãos nuas. Com a alma nua. Com o corpo nu. Com os sentimentos expostos. Fez em vermelho, o labirinto: é sangue. Construiu os corredores com as pedras do que nunca houve: aquela viagem planejada e nunca realizada, a noite de sexo sem amanhã que não chegou a ser um ontem, o relacionamento que era pra sempre e durou dois dias. Há mais do que não foi: a última conversa, o sexo de reencontro, um hotel perto do aeroporto. E ainda: as perguntas que não fez, os medos que não apresentou, os desejos que não sabia dizer. Tudo que doía em vazios, ela fez concreto, pedra, argamassa, muro. Passa as mãos nas paredes ásperas, são as memórias de uma saudade inexistente. Pensava encontrar seu lugar, perdia-se em si mesma. 

3 Comments:

Seredop said...

Um texto maravilhoso!

Renata said...

Que texto...tão real, verdadeiro!!!
Sem palavras...BELO!!!

Andreia Sun said...

Eu escrevi este texto?
Se não me falha a memória este texto é meu. Em TODO. Em PARTE.
Viajamos juntas pra lua e nem nos demos conta. Viajamos dentro de nós mesmas. A mesma viagem. O mesmo ritmo. Na mesma intensidade.

Seu escrito é de uma preciosidade imensa e me fez um encontro de mim comigo mesma.

Sou eu nas suas palavras.

Linda e intensa, como sempre, és!