sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #22 - So you think you can dance (Melhor Musical)

Quem gosta de musicais? Eu. Tenho ternura por inspiradoras lembranças de pernas, cores e grafismos, formas geométricas perfeitas feitas de som e gente. Os musicais me arremessam em um mundo de encanto e possibilidades. Um mundo de extrema civilidade. Como me apontando o que não, não terei, acabou-se, findo, perdeu-se. Os musicais são bons pra minha alma.

Grande Liza! Cabaret (1972)

Tá, eu sei, eu sei, aquelas pessoas sem noção que, de repente, passam a saltitar e cantar. Eu sei, eu sei, o escapismo. A incongruência da situação, a galera de repente rodopiando, interrompendo jantar e tudo, o espantoso laralá. Tem quem não gosta de musicais, eu entendo (mentira, entendo nada). O cinismo contemporâneo, a demanda por velocidade, o apuro estético dando lugar ao tecnicamente mirabolante, tudo isso parece relegar os musicais às estantes afastadas, às memórias com cheirinho de naftalina e nunca mais. E, entretanto. Pois é, entretanto. Eu amo os musicais.

Amor, Sublime Amor (1979)

O musical é a tentativa última de comunicação: quando não se pode dizer na fala, diz-se com o corpo. O musical é a fé na mais absoluta inocência. O musical é a possibilidade de uma Pasárgada pessoal e intransferível. O musical é reverência à possibilidade de beleza, de graciosidade, é o último vestígio do charme e elegância. Depois, ladeira abaixo pra nossa civilização. Dizem por aí que os musicais são ingênuos. Eu os acho ternos. Benevolentes. Delicados com nossa humanidade. Eles são um afago. São uma linguagem diferenciada. E que técnica se precisa ter para filmar adequadamente um bom musical! Das câmeras voadoras que, elas mesmas, pareciam bailarinas, à imóvel câmera apaixonada por um determinado Astaire: "ou dança ela (a câmera) ou danço eu". Cinema, pra mim, é (além de luz, como queria Fellinni) fantasia. E o que pode haver de mais arrebatador do que dançar no teto ou com um cabide e fazer isso parecer mágico, sensual, alegre e, ainda assim, usual? Encantamento, essa é a palavra que me assalta quando penso nos musicais. Quem não lembra da última cena de A Rosa Púrpura do Cairo

Alegre Divorciada (1934)

Um bom musical tem bons diretores e dois dos maiores foram Bob Fosse (minha cobrinha amada) e Minnelli (aquele: primeiro a beleza, depois a arte). Um bom musical tem mulheres envolventes: Judy Garland, que foi de menina a mulher sem perder a magia. A sereia Esther Williams. A solista Ann Miller. A graça de Rita Haywoorth. A inocência sexy de Marilyn. As vigorosas pernas de Eleanor Powell. A parceira perfeita de Fred: Ginger. E ela, as mais belas pernas do cinema: Cyd Charisse. Mas, vamos concordar, quando se pensa em musical há pouco espaço para ir além de Gene Kelly e Fred Astaire.

Sete Noivas Para Sete Irmãos

Fred Astaire, pra mim, era o cara. Há quem discorde e prefira Gene Kelly. Kelly era um acrobata, cheio de energia, admirável. Mas Astaire era um poeta. Um artífice.  Lembrou bem o Verissimo: “como disseram certa vez do Buster Keaton em relação ao Charlie Chaplin, Fred Astaire era o Gene Kelly para adultos”. Assim, meu musical preferido tem Astaire.

Cantando na Chuva

Eu não sei dizer com precisão o que The Band Wagon (A Roda da Fortuna) tem, em relação aos outros musicais, que faz com que eu o escolha com tanta facilidade, logo eu, a louca dos musicais e a indecisa dos memes (mas o Ânderson sabe, ele acertou sem pestanejar). Só sei que é um dos filmes que mais me impressionaram, um dos filmes que mais me comove, que não envelhece, que não perde a luz. Só sei que meu coração esquenta de lembrar Astaire dançando solitário em torno do engraxate. O filme já começa bem, com o leilão frustrado da cartola. Me parte o coração, viu. Daí pra frente é uma elegante e sofisticada construção de imagens e sons arrebatadores e, ao mesmo tempo, de uma limpeza e simplicidade cativante. As cores são primorosas. Os diálogos também. E os bailarinos são os melhores, no seu melhor.

Eles: Cyd Charise e Fred Astaire

Há magia em The Band Wagon e suspeito, grande parte dela vem da leveza com que se o filme se torna uma declaração de amor ao cinema. Duvidam? Pois vejam e me digam se não é poesia o que Minnelli faz com as cores e o que Cyd e Fred fazem com o corpo. Vejam e me digam se há rima melhor para encanto...


5 comentários:

Deise Luz disse...

Que texto lindo!

"Tem quem não gosta de musicais, eu entendo (mentira, entendo nada)."

Comigo é assim também. Não entendo não.

Tina Lopes disse...

"Os caras tão conversando e começam a dançar, véi". Meu, e você que gosta de mutantes adolescentes? Ah, também não entendo. Que fotos mais maravilhosas você escolheu, que texto delicioso, que post inspirador, Borbs!

João Linno disse...

Eu amo musicais e "Cantando na Chuva" é um dos meus preferidos. Belo texto, fiquei com vontade de ver todos esses filmes.

Maycon disse...

lindo texto. apaixonado e apaixonante. já compartilhei. beijos.

Caminhante disse...

Eu diria, numa dessas generalizações injustas, que Fred era melhor bailarino e Gene coreógrafo. Claro que os dois são estupendos.

Adorei o post.

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