terça-feira, 22 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #19 - Melhor Faroeste


É um post longo, esse. E apaixonado.
E muito, muito verdadeiro.
Sempre gosto de escrever sobre filmes, já que gosto tanto deles.
Sempre gosto de escrever sobre homens,
já que gosto tanto deles.
Assim, é sobre homens e sobre filmes.
E sobre mim, que gosto de gostar deles.


Sabem, eu cresci aprendendo a amar coisas que meu pai amava, como futebol e faroestes. Ah, ele queria ter um menino? alguns me perguntam. Não, eu sempre senti uma completa aceitação de eu ser eu: menina, antes; mulher agora. Eu gostava de ficar ali, pequena, vendo com os olhos imensamente bons e adultos do meu pai. Sabia que se eu aprendesse alguma coisa do que ele via, eu veria o mundo em sorrisos e generosidade. Porque ele é assim: bom. Enfim, no princípio era o Oeste e o Oeste era deus. Nem lembro quantos filmes desses eu vi: o cavaleiro solitário, os duelos, o saloon, as mulheres muito decotadas, as cartas, o cavaleiro novamente solitário.

Os faroestes possuem uma série de características que me comovem: honra e rude bondade. Um certo desconforto e o fato de nunca, nunca ser o bastante. O vasto horizonte e o risco sempre perto, sempre próximo. A aridez da vida e a felicidade temporária e transitória. Heróis vulneráveis e duros. A solidão. A violência sempre presente e sempre perturbadora. As desilusões, os grandes gestos, os inesquecíveis duelos. Era uma vez no Oeste, é sempre a mesma vez nos meus desejos. Penso que o faroeste é cinematográfico por essência, vocação e história - do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelos épicos, os demais gêneros têm nobres antecedentes no teatro e na literatura, mas o faroeste, fora tênues subprodutos, é vocacionado para as telas, talvez porque o cenário seja tão relevante para o gênero, só aquelas imagens daquele tempo e lugar poderiam suportar as dimensões dos faroestes.

Sabem, eu imitava os pistoleiros e adorava fingir que bebia uísque ou sabia jogar pôquer. E, claro, dançava can-can. Eu era quem partia no cavalo, eu era quem ficava à janela. E eu era o próprio indomado espaço. Ver faroestes me libertava. E, claro, ainda tinha aquelas trilhas sonoras hipnóticas, viciantes. Aquele assovio que escuto até hoje.

O faroeste tem heróis. Mas heróis que não voam, não têm superpoderes, não são invulneráveis e, a bem da verdade, só se envolvem nestas coisas de bem comum por um incidente qualquer. São solitários os homens do Oeste. E me dói e me comove que assim o sejam. E não os queria outros.

Os faroestes têm estereótipos que eu prefiro chamar de legendas: os vastos espaços que demandam valentes; os saloons barulhentos; revólveres; ruas únicas varridas pelo vento; duelos. Sempre me encantou a certeza inabalável de que nunca, nunca, nunca, o herói não seria honrado na disputa com as armas. O herói não é necessariamente digno, decente ou escrupuloso, mas, tenha certeza, ele não atira pelas costas (bom, tem o caso do homem que matou o facínora, mas vocês me entenderam).

É impossível pra mim escolher um, mas eu faço isso mesmo assim: o melhor faroeste é John Wayne. Até aqui, astaireano. (Tina, pelamôr, não deixa de clicar no link)


 Segundo Tempo

 Mas, pra não dizer que não falo nada, faço aqui outro post, hohoho, fora do meme, só sobre faroestes. Só lê quem quiser...

Os faroestes, não os coloco em ordem de preferência, como escolher um único Wayne? O melhor Sergio Leone? O mais emblemático pistoleiro? O melhor duelo? Como dizer Ford ou Hawks?

Tem Big Jack. Repleto de ação, tem humor e tiroteiros hipnóticos, faz contraponto entre a pífia atuação oficial em frágeis automóveis dos agentes da lei e a arrogante e máscula campanha do herói que a 18 anos não via sua mulher. É um filme que me diverte e empolga sempre, e o que mais se pode querer do cinema?

Sete Homens e um destino: eu chorei. E ri. E chorei de novo. E me zanguei. E, um tantinho, me apaixonei pelo careca. Sabe, sempre me doía pensar que aqueles sete magníficos eram mais baratos do que comprar armas. Há cenas maravilhosas e diálogos impecáveis (os faroestes sempre têm poucas falas, mas os bons faroestes fazem disso um trunfo colocando sempre frases lendárias entre uma bala e outra). Tem uma trilha sonora envolvente. Há a preparação para a perda e a certeza da cruel continuidade da vida. Há uma pergunta que sempre se coloca como impossível pra mim: mais vale o que fica ou o que segue?

Duelo ao Sol – bom, tem o Gregory Peck. E é meio sexy, né? E, mais além, é trágico, com aquela beleza que só o impossível consegue emprestar a tudo o mais. É, pra mim, um filme sobre escolhas. E com tão ricas cores e possibilidades que sempre que o revejo me espanta que se fizesse filmes assim e que não se faça mais.

Três homens em conflito, mas eu prefiro dizer: O Bom, O Mau e o Feio. Só esse título já vale pra entrar na minha lista de favoritos. Mas o filme tem mais, muito mais que isso. Tem seqüência de abertura em que se apresenta, com requinte, cada um dos protagonistas (ou antagonistas, pra ser mais precisa). Nesse filme só falta diligências. E, claro, o Wayne. Mas tem tiroteio, pistoleiro, prostituta, cinismo, mocinhos barbados, cavalos, paisagens áridas...e uma história maravilhosa, rica, convincente, densa. Há longas sequências sem cortes que criam clima e aumentam a tensão até quase me fazer gritar. Há o contraste brilhante entre tomadas panorâmicas e closes de rostos fortes, duros, sujos, cínicos, impressionantes. O filme tem personagens, personagens complexos e muito bem interpretados. Gosto quase igualmente do resto da trilogia (por um punhado de dólares e por uns dólares a mais).

No Tempo das Diligências/ Rio Vermelho – ambos têm o John Wayne.E lançam as bases dos arquétipos que amo: o homem livre, forte, que deve impor-se pela força ao ambiente, seja natural ou social. As ambientações são impressionantes e o que o herói deve fazer se coloca inexorável. Rio Vermelho ganha por uma cabeça: a do Montgomery Clift.

Onde começa o inferno/Matar ou Morrer – o homem é um só. A solidão das decisões. A covardia. A coragem. A escolha. Wayne. Gary Cooper. No Matar ou Morrer temos um protagonista a mais: o tempo, onipresente nos relógios que se sucedem nas cenas hipnóticas. Onde começa o inferno é uma pergunta feito imagem sobre honra, ética e apatia. Um e outro confrontam-me comigo mesma. Gosto do silêncio constante no Matar ou Morrer e que acirram o abandono a que é sujeito Cooper. Gosto do tom redentor que acompanha Wayne e dos diálogos inteligentes com a direção precisa e minimalista de Hawks.

Há ainda a violência dolorida e explícita (embora hoje quase terna ante o que andam fazendo por aí) de Meu ódio será sua herança; o irrevogável tom trágico em O Último pôr-do-sol; o esquemático mas arrebatador Shane (que quase hereticamente insisto em chamar de os brutos também amam, menos porque me parece verdade e mais pelo tanto que eu gostaria que fosse); o amoroso, reverente e ainda assim crítico Era uma vez no Oeste (e que mulher, meu deus, foi Cláudia Cardinale!); o humor desesperado e a terna nostalgia de Butch Cassidy e Sundance Kid; o Wyatt Earp de Fonda/Ford em Paixão dos Fortes; a amargura e a complexidade de Jogos & Trapaças - Quando os Homens são Homens retratando a pressa da civilização e a perda da ingenuidade; a maior parte dos Djangos especialmente aquele – acho que é o bastardo – em que ele diz algo como – tenho a frase anotada na agenda, que brega mas tão útil! – vou fazer você morrer mil mortes; o épico Da terra nascem os homens – e, outra vez, a sedução madura de Gregory Peck; o embate entre Fonda e Wayne em Sangue de Heróis; as intensas mulheres de Johny Guitar e O Diabo feito mulher; o talento de James Stewart em O Preço de um Homem; e todos os Wayne: O Ùltimo Pistoleiro, Bravura Indômita, El Dorado, Caminhos Ásperos, O céu mandou alguém, Os cowboys...uma lista quase infindável porque basta vê-lo em cena pra tudo mais no filme ficar menor que sua presença.

E, claro, vocês notaram, eu não coloquei os três grandes, os maiores, os mais, mais, como dizer, perfeitos? Rastros de ÓdioO Homem que matou o Facínora e O Tesouro de Sierra Madre . São tão grandes. Tão plenos. Tão belos. Obras-primas. Tão meus filmes que nem sei dizer algo que não seja: o coração é um bravio território. Inexplorado. 

3 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
gosto de faroestes mas não sou louca por eles, sua lista é o que há de melhor! Já assistiu Os Sete Samurais, de Kurosawa? Sete homens e um destino é uma releitura desse filme, vale a pena ver.
Engraçado que já fui louca por cinema e tenho uma biblioteca respeitável sobre o assunto, hoje já não sou tão fã assim. Acho que o saber fazer me deixa meio crítica, tem cenas, em alguns filmes, que eu só consigo pensar: "Aí, que bom eu NÃO estava nesse set!", rs
bjs
Jussara

Tina Lopes disse...

Óbvio que você faria um post definitivo sobre o gênero, né guria. Covardia com os colegas de meme... e amanhã vai ser o Noir, outra lavada, hahahaah, ainda bem que não é competição. Bem, eu adoro faroeste e sim, também os assistia com ele, muito depois das novelas e em preto-e-branco porque a tv ainda era assim. Meu problema com os faroestes é que confundo muito um com o outro. Sei que vi este e aquele clássico - e realmente vi muitos. E com John Wayne, então? Afe. Eu que considero ter memória relativamente privilegiada acabo pondo todos os xerifes e vilões no mesmo saco. É uma falta grave, eu sei. Por isso admiro ainda mais tua paixão. Bjk.

Sheyla Xavier - DMulheres disse...

Luciana
Aprendi a gostar de faroeste com meu avô, antes dos filmes, ele lia um livrinho de bolso com histórias de faroeste!! Eu achava o máximo! Olha, além de amar todos os atores que faziam western, amo de paixão mesmo Trinity, aqueles olhos e aquela personalidade meio de cafajeste, me encantam!!
Lindo post!
Cheiro grande!!

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