quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #15 - Melhor Horizonte (fotografia inesquecível)

Fotografia é aquilo que eu não presto atenção nos filmes, mas que prende meu olhar. É ela que dispõe cada coisa em seu lugar, determina os enquadramentos, luz, sombra, cores, tudo que vai ajudar a dar corpo à narrativa que se desenrola n a trama. Onde a câmera está, como ela está, tudo isso qualifica as cenas. Por exemplo, câmera de baixo pra cima e já temos a sensação – quase sempre – de que o personagem cresce, é poderoso. Câmera de cima pra baixo e já tem o efeito contrário, né? Truques? Pode ser. Mas eficientes. Fazer a câmera se mover também é recurso dos mais proveitosos. Pra frente, pra trás, zoom, distanciamento e por aí vai a brincadeira. Um dos melhores filmes que vi é Festim Diabólico, Hitchcock leva a câmera pra passear em um apartamento, seguindo os personagens pelos aposentos. Genial. Mais genial se pensarmos que ele fez isso em uma única sequência, sem cortes (quer dizer, sem cortes de edição, apenas os decorrentes do tamanho do rolo do filme, aí ele focava no terno escuro de um personagem e mudava o rolo, brilhante, né?). Outra sequência de câmera em movimento arrepiante é a da morte de Malone em Os Intocáveis. Aliás, toda a fotografia do filme é deliciosa, o plano geral na fronteira do Canadá e a cena-homenagem na escada com carrinho de bebê são antológicas. Câmera estática também tem seu valor. Disse Fred Astaire: ou dança a câmera ou danço eu. E o mundo pôde ver mágica nos seus pés em filmes como Bonita Como Nunca e Núpcias Reais. Outra fotografia fantástica é de Spartacus, aquele campo de batalha nunca me deixou, escravos X as legiões romanas, absurdamente comovente.  

Mas as melhores fotografias, ah, são as dos faroetes. Não há horizontes como os que John Ford filmava. Não há. E embora eu não seja chegada a uma natureza (gosto mesmo é de gente e prédios), nunca deixo de me encantar com a perfeita metáfora que se coloca entre o espaço a ser conquistado e os homens bravios que lá chegavam. Acho bonito.



E entre as melhores, tendo que escolher, depois de uma menção honrosa a No Tempo das Diligências, de Ford, escolho a fotografia de Matar ou Morrer, dirigido por Fred Zinnemann. Primeiro: o filme é todo em tempo real e a aproximação do clímax é refletida na fotografia e em sua edição em muitos e acentuados cortes. E, no fim, o incomparável, daquelas cenas que cortam nossa respiração, que fazem a gente lembrar porque ama tanto o cinema...primeiro várias tomadas dos personagens envolvidos, o xerife, a esposa, a ex-namorada, os bandidos, a galera na igreja, um monte de closes rápidos, a gente quase fica tonto. Depois, o mais bonito: um close de Gry Cooper, aí o corpo todo dele e aí a câmera vai se distanciando, subindo, subindo, e vamos vendo o xerife cada vez menor, caminhando, nosso campo de visão cada vez maior, a rua, os grandes espaços, o horizonte, ele menor, andando, carregando toda aquela solidão e desesperança. Um homem faz o que um homem tem que fazer, é o que a cena nos diz, aquele homem tão pequeno, enorme em sua coragem.


Também estão apresentando seus horizontes inesquecíveis, no Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui:

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga

2 comentários:

Tina Lopes disse...

ARRÁ! Eu sabia que você escolheria John Ford! Devia ter apostado, nhé.;)

Peterson Quadros disse...

Querida Luciana,
Confesso que não sou um ser de filmes. Pouco assisto, pouco presto atenção, mas gostei de ler as últimas postagens. Adorei o seu comentário sobre Matrix, casou com meu pensamento. Sobre a fotografia, foi interessante me deparar com um texto “quase” técnico. Quem sabe um dia eu venha a assistir o tal Festim Diabólico só para prestar atenção no movimento da câmera...
Agora, o pequeno “Madrugada”... Hmmm... Que texto para se deliciar... ficar um pouco triste e aprender a dizer coisas do tipo “senti tanto a sua falta.”
Obrigado pelos textos e pela visita ao Vinhetas!
Abraços

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