terça-feira, 15 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #14 - Batendo Papo - Melhor Diálogo

Cinema é luz, disse Fellini e, se ele disse, quem sou eu pra discordar? Mas um ou outro bom diálogo faz maravilhas a um filme, né? Hoje o Meme dos Filmes (divertidíssimo, aliás) vem de “Batendo Papo – Melhor Diálogo”. Se fosse frase, só, eu ficaria ali entre “Totó, tenho a sensação que não estamos mais no Texas” e “eu vou fazer uma proposta que ele não pode recusar”. Claro, com dor no coração lembrando de todas as tiradas perfeitas de Mae West (como quando um adivinho lhe diz: “vejo um homem no seu futuro” e ela logo replica, reclamando: ‘só um?’). Mas pensar no melhor diálogo é ir além de uma boa frase. Para um bom diálogo é preciso ritmo, feeling, química. Isso não falta a Hepburn e Bogart em Aventura na África ou à mesma Katherine com Spencer Tracy em A Costela de Adão – delicioso. Andou perto de ter meu voto a tensão quase palpável Bogart/Bacall em “To Have and Have Not” ou Uma Aventura na Martinica:


Mas o melhor Diálogo, pra mim, é no surreal e exótico Johnny Guitar:


Vienna – É uma história triste.
Johnny – Sou bom ouvinte de histórias tristes.
Vienna – Há cinco anos amei um homem. Não era bom nem mau, mas amava-o. Queria casar com ele, trabalhar com ele, construir algo para o futuro.
Johnny – Deviam ter vivido felizes para sempre.
Vienna – Mas não viveram. Acabaram tudo. Ele não se via preso a uma família.
Johnny – Parece que a rapariga foi esperta em livrar-se dele.
Vienna – Lá isso foi. Aprendeu a nunca mais amar ninguém.
Johnny – Cinco anos é muito tempo. Deve ter havido bastantes homens...
Vienna – Os suficientes.
Johhny – Que aconteceria se ele homem voltasse?
Vienna – Quando um fogo se extingue só restam cinzas.
(...)
Johnny – Quantos homens já esqueceste?
Vienna – Tantos quantas as mulheres de que te lembras.
Johnny – Não te vás embora.
Vienna – Nâo me mexi.
Johnny – Diz-me uma coisa bonita.
Vienna – Que queres ouvir?
Johnny – Mente-me. Diz-me que esperaste todos estes anos.
Vienna – Esperei todos estes anos.
Johnny – Que morrerias se eu não voltasse.
Vienna – Morreria se tu não voltasses.
Johnny – Diz-me que ainda me amas como eu te amo.
Vienna – Ainda te amo como tu me amas.

Cerre-se as cortinas, venham os aplausos.

Talvez, assim, escrito a seco, não pareça grande coisa. Banal, quiçá. Mas experimenta ver/ouvir o ritmo, o movimento dos atores, a trilha sonora, a movimentação da câmera, as cores, ah, as cores (perto desse filme Almodóvar se torna completamente conservador no uso da paleta). É o melhor diálogo que já vi/ouvi, dá uma tristeza de tudo que não se vive, dá uma esperança morna de que um possível sempre há e, mais que tudo, uma dorzinha fina por todas as respostas tão cínicas serem, ao mesmo tempo, tão verdadeiras.


Menção Honrosa

Menção honrosa ao grande Bob Fosse e seu All That Jazz. Como esquecer Gideon olhando pra câmera postada acima de seu rosto como quem olha pra deus e perguntando: “e então, você não gosta de musicais?” Ou o diálogo entre ele e o anjo:
- “Nada do que eu faço é suficientemente bom. Não suficientemente belo, não suficientemente engraçado, não suficientemente profundo – não é suficientemente coisa alguma. Agora, quando eu vejo uma rosa, ela é perfeita. Perfeita. Dá vontade de virar para Deus e dizer: ‘Como raios você fez isso? E por que raios eu não consigo?
– Nossa, essa é provavelmente uma de suas melhores falas safadas.
– É mesmo. Mas isso não significa que eu não esteja falando a verdade.”
 Ou ainda, quando ele é pego no flagra pela namorada, na cama com outra:
 “Kate, eu tento dar a você tudo o que eu puder dar.
– Ah, você dá, mesmo – presentes, roupas. Eu só gostaria que fosse não fosse tão generoso com o seu pau.
– Isso é bom. Eu poderia usar isso…”
 Ou, entrando em cirurgia...
Para a ex-mulher:  “Se eu morrer, me perdoe por todo o mal que fiz a você”.
 Para a namorada:  “Se eu sobreviver, me perdoe por todo o mal que ainda farei a você”.


Também estão apresentando seus melhores diálogos, no Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui:

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga

Um comentário:

Renata Lins disse...

não sei diálogo nenhum de filme de cor. Mas o final de Casablanca ocupa um lugar especial no meu panteão. O quase-monólogo de Paris, Texas (esse eu sei quase inteiro de cor) por trás do espelho também. Ou seja: adoro histórias de amor que terminam mal... o que será que isso diz sobre mim?

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