domingo, 13 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #12 - O Melhor Ano da História do Cinema

Estou arrasada. Puxa, achei que esse tópico ia bombar. Mas, ném, ninguém se anima a escolher seu ano perfeito, o Melhor Ano da História do cinema. A Tina escolheu uma década, o que me parece bem bom, até porque escolheu aquela que mais se parece com um suspiro. Depois de 70, claro, há filmes bons, mas a sensação que tenho é que cada vez menos, cada vez menos são – mesmo os bons – os que gosto. Eu sei, sou das chatas nostálgicas. E do pior tipo, da que idealiza porque nem viveu.

Bom, eu escolhi meu Melhor Ano do Cinema. E faz tempo. É 1939. Esse não foi um ano tranquilo fora das telonas. A Alemanha invadiu Thecoslováquia e Polônia, veio a Segundo Guerra Mundial e Franco assumiu o poder na Espanha. Mas, pro cinema, 1939 foi uma festa (embora o I Festival de Cannes não tenha ocorrido por causa da Guerra).

Lá está Bette Davis em Vitória Amarga com direito à terceira indicação ao Oscar e uma interpretação forte de um drama um tanto fora dos padrões (e que frase: "Nada pode nos machucar agora. O que temos não pode ser destruído. Essa é nossa vitória. Nossa vitória sobre a escuridão. É uma vitória porque não temos medo"). Mas se seu negócio não é choro e sim riso, 1939 tem Carole Lombard e James Stewart em Nascidos para Casar e o incrível As Mulheres, filme em que todo o elenco é feminino, inclusive os animais que aparecem em cena são fêmeas. É de 1939 o grande A Mulher Faz o Homem, de Capra, filme atual sobre integridade e quem melhor que James Stewart pra estrelá-lo? O filme teve seus méritos demonstrados pelos repúdios, foi banido da Alemanha Nazista e dublado de forma deturpada na Itália facista e na Espanha franquista. Também de 1939 e que comove é Adeus, Mr. Chips, que deu o Oscar de melhor ator a Robert Donat. 

Ah, gente, foi em 1939 que Garbo riu. O mundo ficou um tantinho mais leve com Ninotchka. Um roteiro esbanjando diálogos inteligentes. A câmara é móvel e leve, a direção é precisa e inteligente. E tem Garbo. Ah, e ela ri, eu já disse? Um ano perfeito precisa ter um filme de John Ford. E tem. O diretor entre os diretores fez de Wayne um ícone em No Tempo das Diligências.

E não é só em Hollywood que 1939 impressiona. Da França, temos Jean Renoir dirigindo As Regras do Jogo um filme de bom gosto, sofisticado, que discute as regras dos relacionamentos humanos. Um filme contundente na crítica social sem esquecer que cinema é encantamento. Foi em 1939 o primeiro filme de Vitorio de Sica (rosas escarlates – que não vi ainda, mas o resto da obra desse diretor fala por si). E se tinha a guerra na Europa, também havia em filme: Gunga Din. Há vários méritos nesse filme - que vi num Corujão de programação, no início dos anos 90, tão diferente da atual - e um dos maiores é a leitura da poesia sobre Gunga Din (achei uma tradução aproximada aqui). 

O Morro dos Ventos Uivantes? de 1939. Clássico da Literatura, clássico do cinema. Com Laurence Olivier e tudo. Intermezzo?  Ingrid Bergman falando inglês pela primeira vez? 1939, claro. O primeiro Corcunda de Notre Dame?  1939 e com direito a interpretação convincente de Charles Laughton. Beau Geste? 1939 e Gary Cooper no seu auge de beleza e talento. Atire a Primeira Pedra ? 1939, o primeiro western de James Stewart e Marlene Dietrich arrasando no salloon. Paraíso Infernal? 1939 e uma estonteante Rita Hayworth. Ciladas? Chevalier, incrível? 1939.

E para além do feito,  a promessa: foi em 1939 que Alfred Hitchcook chegou aos EUA onde filmaria Rebecca, A Sombra de uma dúvida, Notorius...

Mas 1939 não seria o mais perfeito ano se não fosse o ano de E o Vento Levou e O Mágico de Oz. Dois filmes grandes, imensos, daqueles que me arrebatam a imaginação, preenchem minhas horas, redimensionam meus sentimentos. O Mágico de Oz é sublime. Amo tudo: Judie Garland; "Over The Rainbow"; as frases de efeito: Depois de tudo, somos apenas homens comuns; a bruxa Má do Oeste, intensa e caricatural; os vínculos construídos na jornada e, claro, o uso da cor.  Tenho pra mim que  maior mérito de O Mágico de Oz é a cor, não apenas a presença – que já é mérito na época – mas o uso consciente e intencional da cor para qualificar a narrativa. Não é à toa que os sapatos vermelhos de Dorothy e a estrada de tijolos amarelos não saem do imaginário.

E, bom, 1939 deu-me o maior e melhor filme de todos já feitos: E o vento levou. Os números impressionam: 10 Oscars, estimado como o filme mais visto no mundo quando se une dvd, cinema, tv e demais mídias; além de ser, com os reajustes, o filme que mais faturou em bilheteria.



Mas não são os números que fazem a atemporalidade desse filme, mas sua protagonista – penso eu. Anti-heroína, charmosa, petulante, independente, teimosa, egoísta. Valente. Gosto tudo em Scarlett. Gosto da cena em que ela decide dançar, mesmo de luto. Gosto quando resolve fazer, da cortina, um vestido. Gosto do jeito determinado que toca a vida e gosto como se fragiliza nos braços de Reth.

O filme é mais que Scarlett, mas nem precisava ser. Tem a melhor frase de todas que o cinema já nos deu: "Frankly, my dear, I don't give a damn".  E tem os diálogos bem escritos, cenas de muito recurso técnico como quando Scarlett procura o médico para fazer o parto de Melanie, trilha sonora memorável, várias virtudes que constituem o filme que mais me toca.

Esse ano é responsável por muito de mim. 1939 me fez um pouco mais eu, mais borboleta, mais graúna, mais luciana. Eu sou mais eu por identificar, nas indomáveis planícies de No tempo das diligências, o meu sertão. Sou uma eu que aprecia a fala inteligente e bem colocada por me divertir tanto com Garbo e sua espiã, que pensou sobre a finitude com Bette Davis, que se mobiliza com situações injustas e sonha em mudar o mundo um pouco pelo James Stewart e seus muitos idealistas como Mr. Smith, que aprendeu a arder em paixão com Cathy e Heathcliff. Sou essa que escreve, assim e de nenhum outro jeito, porque um dia (muitos dias) nomeei meus sapatinhos vermelhos e planejei o que estava além do arco-íris. 1939 e Renoir me deram um ideal de elegância e o desmascararam e, além, ensinaram-me o ir e vir entre os dois lados. 

1939 me deu imagens, falas, trilha, idéias. 1939 me deu sonhos e estradas. 1939 me deu, um tantinho, sensibilidade e gosto. 1939 me deu parâmetros pra pensar além do óbvio, do dado, do imediato. Os filmes de 1939 e todo o cinema das décadas de 30 a 50, por mais escapista que eventualmente tenham sido, eram filmes para adultos, com temas adultos, mas, principalmente, com recursos técnicos e narrativos para adultos. 

1939 é, por isso e assim, o melhor Ano do Cinema pra mim.

Participam do Meme dos Filmes (saiba mais neste post aqui) :

Tina – Pergunte ao Pixel 
Verônica - Will you do the fandango?
AndreV. – Lágrimas de Crocodilo
 Renata  Muitos e Duplos
Deise Luz – Sete Faces
Ludelfuego - Presbita e Emétrope
Peter – Câmera Antiga

3 comentários:

Rita disse...

Que delícia de texto, Lu. Que hora feliz aquela em que decidimos acatar a sugestão da Ve e fazer esse meme. Estou me deleitando com seus posts! Jamais sentirei dúvidas novamente (lenço em punho) na locadora, hohoho.

bj
Rita

Deise Luz disse...

"Eu sei, sou das chatas nostálgicas. E do pior tipo, da que idealiza porque nem viveu" ==> EU também!

Ai, se 1939 é o ano de O Mágico de Oz, então é muito lindo mesmo.

Tina Lopes disse...

Perfeito, Lu. Um ano para se lembrar e se inspirar (já que o cinema atual só vive de refilmagens, fica a dica).

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