domingo, 6 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #05 - Um Pecado, Várias Virtudes

Eu já disse das dificuldades das escolhas, não é? Escolher é difícil. Significa abdicar não só do que imediatamente se abandona, mas abrir mão de todas as consequências de se ter feito esta opção. O que escolhemos diz de quem somos, mas diz mais, diz quem poderemos ser. As escolhas nos definem, ao serem feitas e em suas consequências. Eu não acho fácil me dizer, quanto mais me fazer. Um meme é feito exatamente dessas pequenas decisões que nos indica um lugar. Há gente mais corajosa que eu, a Tina, por exemplo, nunca reluta em marcar claramente posição. Muito amor por quem se revela em coragens. Há outros corajosos que vão curtindo e participando do meme dos filmes (apresentado neste post aqui). Além das queridas co-inventoras Verônica e Rita (convidada aqui no Borboletas), também participam a Renata, Hugo Avelar,  AndreV e a Deise Luz.

Então, hoje, eu devia escolher melhor Atriz e Melhor Ator. Sem chance. Nenhuma. Ao contrário da escolha de melhor diretor eu sequer consigo definir os critérios. Então, vou tratar de uma atriz e um ator que sempre que vejo em ação aprofundam o amor que sinto pelo cinema.

Um pecado


Bette Davis. Pois é, que olhos e não à toa a canção (vamos juntos, todo mundo cantando). Mas se fossem só os olhos...intensidade é o que nunca faltou a essa atriz. Ela me lembra excessos. É isso aí, juntos, cinema e pecado. Isto porque se você não viu a ira de Bette Davis, você não viu nada. Entendendo que ira significa 1 Cólera, raiva contra alguém. 2 Indignação. 3 Desejo de vingança, não é surpreendente que entre suas 11 indicações ao Oscar, tenha recebido suas estatuetas por Perigosa (1935) e Jezebel (1938). Aliás, Bette Davis foi indicada ao Oscar cinco anos consecutivos, feito nunca superado. Ira é, com certeza, o pecado mais próximo de Davis. Ira que ela provocou ao não se indicada ao Oscar em 1934, por Escravos do Desejo. Essa omissão deixou tão enfurecidos os amantes do cinema que, pela única vez na história, a Academia autorizou que os votantes escrevessem o nome da atriz que eles preferiam, mesmo que não tivesse sido indicada. Ira arrebatadora de seus personagens, especialmente Margot de All about Eve, assistido por mim como A Malvada. Inesquecível quando Bette, querendo briga, anuncia: "apertem seus cintos, esta será uma noite turbulenta". Iras reais, confrontações com o estúdio, com diretores e com os atores com quem contracenava, Bette não era uma mulher fácil. Era uma mulher apaixonada, apaixonada pelo que fazia, pelos homens com quem se casou e por seus princípios de liberdade. Não por acaso foi uma das mais atuantes artistas na época da 2a Guerra Mundial, doando cachês, fazendo filmes anti-nazismo, fundando clubes e várias outras atividades que lhe renderam inclusive uma medalha do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

A ira é um pecado cinematográfico mesmo. Ela promove destruição, gritos, depredação, ânsia de aniquilar o que a promove. Não pode ser confundida com uma raivazinha besta. A ira é erupção que pode se transformar em gelo que planeja vinganças e busca de reparações. Mas, de início, a ira é sempre grandiosa e barulhenta. A ira transtorna, arrebata, exila a racionalidade. Ela exige, como canta Lupicínio: "Mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada/ Só vingança! Vingança! Vingança! aos santos clamar/ Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada / sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar." Minhas raivas, por falta de vocação, não chegam à ira e nem se transmudam em vingança. Vão-se e ficam como memória de alguém que não sou. Mas Bette é, e eu me realizo nela. Arrebatada, confusa, enfática, mas livre, confiante, indomável. Tão à frente do seu tempo (e do nosso)! "(...) sua personalidade sempre foi sinônimo de uma mulher forte, sabedora de seu valor, que apostava no seu taco e que não admitia ser tratada como objeto pelos chefes de estúdio. Em outras palavras, valores que as mulheres nascidas três gerações mais tarde, ainda lutam para conquistar. Vista suas atitudes com o olhar atual, em que se preza a igualdade entre os sexos, Bette Davis conseguiu algo praticamente impensável: ser o símbolo do mais puro feminismo numa época em que essa expressão deveria parecer grego até mesmo para os gregos" (www.cineplayers.com).

Quem nunca viu Bette Davis deveria correr e alugar (ou comprar, quem tá podendo), além de A Malvada, A Floresta Petrificada (sobre uma atriz fracassada que tenta matar seu marido), Mulher Marcada (sobre o gangster Lucky Luciano), Jezebel - um E o vento levou mais curto, Vitória Amarga (uma herdeira à beira da morte), Meu reino por um amor (primeiro filme colorido dela, que interpreta a Rainha Elizabete), A carta (personagem adúltera e assassina), e claro, O que terá acontecido a Baby Jane? (brilhante, brilhante e razão do AndreV tê-la escolhido como melhor atriz). Bette teve uma carreira constante, até morrer, entre teatro, cinema e Tv, emprestou seu brilho e genialidade a tudo que fez. Em seu túmulo tem escrito: She did it the hard way, mas, pra mim, ela faz a vida mais fácil.

Várias Virtudes

Eu não sei bem quando vi James Stewart pela primeira vez, mas sei exatamente quando ele se tornou inesquecível pra mim.: como Palhaço, em "O maior espetáculo da terra", me fez rir e chorar, comoveu e encantou. Torci por ele e pela manutenção do seu segredo que deixava seu olhar tão melancólico. Não dá pra dizer se ele foi o maior ator de Hollywood (como já disse tem Brando e Bogart ali na cola). Mas eu o considero o mais versátil de todos: ele dançou, fez rir, interpretou grandes papéis dramáticos, convenceu em faroeste, em suspenses, ao lado de gângsters consagrados...e foi o mais brilhante herói simples. James Stewart me faz suspirar e reconhecer que atuar é uma arte. Sutil e preciso, discreto, nunca foi uma estrela - a não ser quando aprisiona nosso olhar ao atuar.

Ele atuou em muitos dos meus filmes preferidos, sempre de maneira irretocável. Sei que estou usando muitos adjetivos hiperbólicos mas todos os créditos ainda parecem pouco a quem deu tanto ao cinema e foi tão pouco reverenciado em seu auge. Filmes inesquecíveis: Do mundo nada se leva (direção de Capra), Nascido para casar (comédia romântica precursora de várias na atualidade), A Mulher faz o Homem (libelo do homem simples contra o poder instituído), A loja da esquina (mote com certeza para o romântico Mensagem para você), Núpcias de Escândalo (delicioso com Kate Hepburn e Cary Grant charmosíssimo), A felicidade não se compra (talvez o mais inspirador filme de todos os tempos, uma atuação primorosa e uma mensagem atemporal), Sublime devoção (outro percursor, agora de filmes com repórteres investigativos e/ou redenção de pessoas presas injustamente), Festim diabólico (um dos meus hitchcook preferidos), Flechas de fogo (primeiro filme em que os índios não são algozes e sim vítimas), O homem que matou o facínora (“publique-se a lenda”), Harvey (brilhante, ele contracena com um coelho gigante imaginário), Janela Indiscreta (clássico, clássico), Um corpo que cai (outro Hitchcook perfeito e eletrizante).

James Stewart teve uma vida muito menos cinematográfica que grande parte das estrelas hollywwodianas, mas seu amor e fidelidade à Glória Stewart são de contos de fadas disney. Além de tudo, um idealista convicto. Pode-se discordar dos valores que ele representa, mas não da consistência e segurança com que sempre os vivenciou. Eu o admiro. Como admiro o palhaço que, pra mim, fez do cinema o maior espetáculo da terra.

Um pecado, várias virtudes, talvez sejam os atores de quem mais vi filmes. Se não são, deviam ser. 


3 comentários:

Maggie May disse...

não sei se confere, se é verdade, mas ouvi um dia que Jezebel foi feito porque a Bette Davis queria ser a Scarlet...

Tina Lopes disse...

Esse teu post é arte, amiga.

Rita disse...

Sentei, li, aprendi e fiz uma lista.

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