sábado, 5 de novembro de 2011

Meme dos Filmes #04 - Melhor Diretor

Dia 04 do nosso Meme dos Filmes, apresentado neste post aqui. Vamos juntas: Tina, Verônica, Rita (convidada aqui no Borboletas), já chegou a Renata do Muitos e Duplos, e – dizem – até meu blog favoritíssimo (cachaça, futebol e política, quem quer mais que isso?) Futepoca, vai entrar na jogada. Como isso pode ficar mais divertido? Ah, tá, com comentários dos que passeiam por aqui.

Um aviso: meus posts podem ter spoilers. Ou não. Nunca sei direito o que se configuraria como spoiler na rememoração de um sentir. Na verdade, eu não me importo muito com os “o quê” e sim com os “como”. Pretendo não contar nada decisivo dos filmes, mas quem se melindra em saber sobre uma cena ou outra não deve ler.

Melhor Diretor

Qual a régua usar pra decidir a grandeza de um diretor? Qual a medida para nomear: melhor, e não ser perseguida pelos “e ses” que surgem logo a seguir? As bilheterias? O talento? A capacidade de inovar? Revelar estrelas? A quantidade de prêmios? Versatilidade? Definir um gênero cinematográfico? Ser referência para outros – grandes – diretores? Ser capaz de alternar poesia, ação e crônica de costumes? Conseguir sair-se bem em todos os critérios acima?


 Em qualquer medida que se use John Ford sai-se bem, muito bem. O maior cineasta americano, dizem uns. O maior diretor de todos, dizem outros – e eu com eles. Orson Welles (um dos que podia reivindicar o título) dizia ter visto No Tempo das Diligências mais de 40 vezes antes de filmar seu Cidadão Kane. Também é dele a resposta mítica: ao ser perguntado quais os três maiores diretores de cinema, respondeu: “fácil. John Ford, John Ford e...John Ford!”.  

Ford teve em pouco mais de 50 anos de carreira, pelo menos 130 filmes. E daqueles vistos por muita, muita gente mesmo. Bilheteria nunca foi ponto fraco. Seus filmes estão entre os mais assistidos (e citados) da história. Além disso, prêmios. Muitos, só Oscar de Melhor Diretor foram 04 (ainda hoje inalcançados) por O Delator (1935) As Vinhas da Ira (1940), Como Era Verde o Meu Vale (1941) e Depois do Vendaval (1952). Mas o que me comove é pensar que, todos estes prêmios, ganhou de concorrentes como Hawks, Hitchcock e Billy Wilder.

Se a medida for talento, inovação, criatividade, Ford – apesar da imagem cultivada de rude e truculento – é novamente um protagonista. Artesão de imagens sofisticadas e delicadas, foi o primeiro a dirigir um filme inteiramente falado na Fox, um dos primeiros a testar novos formatos de tela e a usar as novas possibilidades de utilização da cor, como o Technicolor. Sabia fazer pinturas em movimento e só quem não viu Depois do Vendaval pode duvidar de mim. Também sabia construir um mundo inocente e inaugural, para logo depois o fazer devastado e, quem sabe, o redimir a seguir. E as panorâmicas? Nunca uma geografia definiu tão bem personagens, narrativas, desenlaces como o bravio Oeste de Ford.

Se a medida fosse revelar estrelas, não sou eu, mas o próprio Wayne quem disse: “John Ford dirigiu minha vida”. E por menos que você aprecie os faroeste e John Wayne, há de se reconhecer que são, um e outro, um dos grandes gêneros cinematográficos e um dos maiores ícones do cinema.

Se você pensa: “ah, um grande diretor define um gênero!” ou discorda: “o importante é ser versátil!” não há problema, Ford é grande nos dois. Dirigiu boas comédias, aventuras, filmes de inspiração expressionista, biografia (Lincoln), road-movie (se assim pudermos descrever As Vinhas da Ira). E foi grande, enorme, gigantesco definindo o Faroeste. Gênero e diretor de se confundem, não há grandiosidade ou importância de um sem o outro. Desbravador como seus protagonistas, corajoso, John Ford fazia bem o que sabia: produzir encanto.

Por fim, a relevância. Ford é reverenciado por Kurosawa, Eisenstein e David Lean, Tarantino não cansa de citá-lo, Scorsese apresenta uma cena de Rastros de Ódio em Caminhos Perigosos e Sangue Negro (um dos grande filmes recentes) é Ford puro nas tomadas panorâmicas do grande Texas. Spilberg, então, nem se fala, além do famoso beijo replicado em “E.T” conta-se que foi ele atrás de algo aprender com Ford. Estava Ford em um almoço, avisou a secretária, Spielberg esperou pacientemente. Ford entra, repentino, a secretária anuncia o jovem diretor. Spilberg ganhou dois minutos e uma pergunta: “O que vês ali?” perguntou Ford apontando pra um quadro. Claro que Spielberg quis impressionar e desandou a fazer considerações que julgava profundas. Ford cortou-o: “Isso não interessa para nada. Nesta foto o que interessa é a linha de horizonte. Onde é que está?” “Em cima”, disse Spielberg. “E nesta?” “Em baixo” Spilberg again. “Isso mesmo. No quadro, o que interessa é a linha de horizonte. Em cima ou em baixo. Nunca ao meio. Nunca se esqueça. Agora pode ir embora e ser diretor” ( a história toda e bem contada você encontra aqui: A Linha de Horizonte).

Mas, disse eu e dizem muitos: o cinema são os filmes. Não há como não saber a grandeza de Ford sem ver-lhe as obras. O delicioso Mogambo, o empolgante No tempo das Diligências, o poético Vendaval de Paixões, o inquietante O Homem que Matou o facínora (com a inesquecível frase: publique-se a lenda!), o provocador O Céu Mandou Alguém, o exigente O Sol nasce para todos, As Vinhas da ira, (gente, é muito filme bom) e a obra-prima das obras-primas, que já citei, o filme com a mais bela rima em imagens já feito, o grande Rastros de Ódio, um Odisseu assim, com andar torto e ainda mais triste, um homem com uma missão e nenhum lugar de descanso.

Peço desculpas reverentes a estes que fazem minha alegria e prazer: Capra, Truffaut, Antonioni, Billy Wilder, Godard, Hitchcock, Etore Scola, Woody Allen, Visconti, mas, mas, mas: John Ford. Ainda bem que vocês concordam.


PS. Eu pesquisei para fazer este post, claro. Os dados foram obtidos na wikipédia, Imdb e aqui. As opiniões, elogios rasgados, considerações e outras bobices são todas minahs mesmo. 

PS2. Eu adorei este post aqui: John Fucking Ford.

5 comentários:

Verônica disse...

não assisti a tantos filmes dele, mas ele é realmente muito reverenciado.
vou procurar conhecer mais, valeu por lembrar dele.

Fred Caju disse...

Apesar de ser uma pessoa bem gabaritada pra comentar o post. Vou só dizer que vir aqui nunca é viagem perdida.

Hugo Avelar disse...

Acho que nunca vi nenhum filme do John. Consertarei.

Tina Lopes disse...

Nossa, só você poderia fazer essa linda declaração de amor à altura do mestre. Também não vi o suficiente e vou tentar consertar essa falha em breve.

Nicolau disse...

Fiquei meio decepcionado comigo mesmo de não lembrar do Ford quando parei para pensar num nome para melhor diretor. O Homem que Matou o Fascinora entra na minha lista de melhores de todos os tempos fácil, bem como Rastro de Ódio. Mas acho que gosto mais do primeiro, questionando o próprio gênero que Ford construiu e a lógica do cinema, ao falar do olhar. Genial.

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