sábado, 19 de novembro de 2011

Mais Simples

Parece que eu sempre soube quem eu era e o que eu queria. Queria viver. Simples, sou uma pessoa simples. Gosto de rir, ler, cerveja gelada, café quente, gosto do mar. De alma antiga, procuro saber coisas que já não parecem importantes como qual o cheiro da naftalina ou como se dança foxtrot. Pensamento voraz, agrada-me perguntar. Quando, onde, como, nunca deixam a ponta da minha língua. Sou dos encontros, das luas brincando de encher, dos violões, dos cheiros de chuva no chão e panela no fogo. Estou sempre ali, perto, disposta, querente. Ainda sei brincar de caiu no poço e viuvinha da mata d’além. Em amplos corredores, meus fantasmas se fantasiam de história. Satisfeita ou ainda mais: feliz.

E, um dia, você. Você que tirou esse mundo do lugar e nem me contou pra onde o enviou. Você que me trouxe perguntas. E uma certeza: você iria partir meu coração. Nem marcamos encontro, nem decidimos hora, era o que podia ser: eu, você e a dor que viria. Nenhum lugar é nosso, você dizia e eu afiava a faca que você usaria pra me sangrar. Desde a primeira vez ficou acertado: nada. Nada não é nunca, eu brincava de roleta-russa e lhe pedia corpo e desejo. Eu só queria: tanto. O desejo correndo morno na pele, tudo se ruborizando e umedecendo. Como dizer um querer feito sim e mais e agora? Em lento preparo pra dor, eu deixo o querer se fazer presença. Me ocupe, é um soluço, um gemido, você todo em mim, eu sei, eu espero, eu convido, eu aceito. Não acreditamos em finais felizes, não acreditamos um no outro, não acreditamos em futuros, não acreditamos em nenhum deus que não soubesse dançar e nem nos deuses astronautas, não acreditamos em redenção, não acreditamos em nada e nos agarramos, náufragos, na vontade do corpo do outro, impossível âncora.

Coleciono relógios esperando a hora certa de ser outra. Uma que só é no seu olho, na sua mão, uma que é em ti. Descubro coisas engraçadas sobre mim: que não sei esperar, que tenho febres de manhã que trago os olhos embaçados de amanhãs. Outras: minha voz desafina, rir é contagiante e que fico vermelha de repente. Pequenos tijolos amarelos da estrada que só existe no caminhá-la. Então, vôo. Eu sou em coragens, repito baixinho enquanto reinvento as canções de ninar para os tempos da solidão. E choro. Pelo que não chorei dos amores findos, dos abandonos meus, da angústia de saber-me errada. Choro pelos amores alheios, pelas perdas futuras, pela suspeita de ser uma só. Choro em angústias, mas também em deleite por ainda sentir alguma coisa. Choro por sobreviver tão fácil, por passar tão rápido. Choro porque minhas dores são tão rasas que coleciono as alheias pra lembrar que sinto. Choro porque nunca saberei dizer e há tanto a ser dito. Quem imagina os começos deve saber escrever os fins. 


Então, prossigo. Para que eu volte a ser aquela que sempre soube quem era e o que queria. Viva. Simples. De vez em quando: feliz.

2 comentários:

Dona Lô disse...

Ô Lu, você é minha gêmea perdida?? Rsrsrsrsrs!!! Como sempre, o texto está demais, amiga.
Ei, você anda sumida do PD!

Menina no Sotão disse...

Eu te disse que tinha gostado, lembra-se? Então, mas eu deixei o texto aqui a esperar pelo depois. Outro olhar, vários outros olhares. Eu gosto de ler e reler. Você sabe.
Então fiquei pensando nessa figura que me chega através dessas palavras. Fiquei sorrindo e pensando "colecionar relógios apenas para aguardar a hora certa para ser outra" adorei a metáfora por trás dessa frase. Amei o tom que me alcançou. A nota perfeita.
Me desvencilhei de quase todo o resto, embora você tenha dito que era das luas brincando de encher e criaturas que apreciam a lua se desfazem das horas. Mas não é certo, afinal, criaturas das luas não se importam com o que é certo.
E agora cá estou eu olhando a paisagem da minha varanda e pensando nas janelas que chegam até você (risos).

bacio

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