sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chupando Drops de Anis #02

Sexta-feira é dia de convidados ilustres tratando de cinema no Borboletas (você lembra? começamos neste post aqui). Os queridos, vocês sabem: o Manuel e suas crônicas (a culpa das imagens e legendas é minha, a beleza do texto é dele) e logo a seguir, as inteligentes resenhas do Sérgio

Temo que Robert Redford não se aguente*, 
por Manuel Fonseca

Confesso: enganei-me. Há três anos, em conversa musculada e gritada com um amigo meu que é economista, jurei que a crise larvar de 2008 era o sonho húmido de um pessimista. Profético, berrei: “Vai passar! Vêm aí tempos de leite e mel.” O meu amigo, teimoso como burro, insistiu. E eu atirei um prato ao chão só para não lhe dar com ele na cabeça.

Queriam saber de quem é a culpa? É minha! Aquela conversa mudou o destino das finanças pátrias: o meu exaltado optimismo inchou o deficit; a dívida soberana tropeçou na minha descabelada ingenuidade. O meu amigo assustou-se e foi viver num resort, em Moçambique: pés descalços e preguiçosos, lânguido calção de banho, por vezes uma camisa havaiana, come lagostas com as mãos. Nem em Itapoã Vinicius sonhou gozar tardes destas, quanto mais dias: o Índico ali, estúpida e mansamente verde.

Portugal passa pelo que passa e a culpa é do irresponsável que redige esta crónica. Faça-se justiça, mereço a prisão. Em tirocínio, fui ver filmes. Fugi de obras-primas como diabo da cruz e escolhi um, honesto e competente, do bom ano de 1980.

Entrei em Wakefield, a prisão de “Brubaker”. Cheguei de autocarro, com mais condenados e Robert Redford. Também ele vem cumprir pena. Ele é Brubaker e esconde na farda de presidiário a identidade de novo director dos calabouços. É uma solução para futuros primeiros-ministros: começarem clandestinos pela cadeia.

Redford / Brubaker 


Ainda presidiário, o cabelo loiro de Redford vai pôr-se em pé com o que vê: um hediondo caldeirão de violência, corrupção. A administração é complacente e ociosa, os guardas regalam-se com a extorsão dos presos, comida que não se põe no prato de um cão, maus tratos a deixarem roxos os saudáveis olhos azuis de Redford.

É então que a identidade de Redford se revela. Para salvar Morgan Freeman, já a adivinhar a personagem de “Shawshank Redemption”. Todos ficam a saber que Redford, ou seja, Brubaker, é o novo director.

Chega, alvoroçada, a reforma. Brubaker traz mesmo ao colo a reforma: um punho para esmagar a corrupção intestina, uma faca lúcida para cortar as gorduras da prisão. Mas a prisão é mais do que a prisão. Volto aos cabelos louros de Redford, aos seus olhos azuis: o que os espanta agora não é a prisão, é a rua ou, como é que se diz, os interesses. Todos se cevam naquele porco: as seguradoras que seguram sem segurar, as construtoras que constroem para que caia, o comércio que fornece com desvios, mesmo os teóricos da reforma que “no sítio certo, dizem as coisas certas” com a condição de que não se estrague a teoria com prosaica execução.

Insisto, os idealistas olhos azuis de Redford, o seu cabelo dourado, não podiam imaginar que a prisão fosse tão vasta, uma cidade inteira, afinal. Receio que Redford não se aguente. Prisão por prisão, que se lixe “Brubaker”, ala para Portugal.

 * *Texto de Manuel S. Fonseca, publicado no Expresso em 29/10/2011

Passeando no 50 Anos de Filmes

Lendo a deliciosa crônica do Maneul, pensei em a) Robert Redford e b) filmes sobre as prisões e o que há de melhor nelas: fugir-lhes. Vi que o Sérgio não se exime de nenhum dos itens. Vamos pois a:

Todos os Homens do Presidente / All the President’s Men. É um filme admirável, impressionante. Ao revê-lo agora, três décadas e meia depois da primeira vez, fiquei muito impressionado – o termo é este mesmo – como o filme consegue prender a atenção, envolver, mesmo que o espectador já saiba de tudo da história, já conheça de cor e salteado seu final. É de fato fantástico, fascinante, como o diretor Alan J. Pakula e o roteirista William Goldman conseguiram contar uma história que todo mundo conhece bem, uma história que envolve política e jornalismo, duas coisas que muitas vezes são entendiantes, como se fosse um thriller, um bom filme policial. É um filme mais longo do que a imensa maioria – são 138 minutos, contra os habituais 90 ou 100 –, e passa rápido, como passam rápidos os grandes filmes. (leia o post todo aqui)

Um Sonho de Liberdade / The Shawshank Redemption. Extraordinário, magnífico, soberbo, fascinante desde a primeira tomada – um jovem banqueiro da Nova Inglaterra, Andy Dusfrene (Tim Robbins), sendo interrogado no júri, acusado de ter assassinado a mulher e o amante dela, intercalando com cenas dele em um carro se embebedando com um revólver na mão. O filme é impressionante por tudo. A história é riquíssima, cheia de sutilezas misturadas às obviedades das histórias sobre condenados vivendo em penitenciária; e que surpreende sempre com reviravoltas. Os diálogos são excepcionais, brilhantes, trabalhadíssimos, cheios de grandes verdades. A narrativa é clara, direta, mas se permite alguns brilhos. A câmara, cheia de planos longos com gruas que sobem e descem, zooms, uma beleza de se ver. Os atores, todos ótimos, mas sobretudo a dupla central, dois gigantes. (o post inteiro você lê aqui)

Um comentário:

Rita disse...

Devo ter visto Um Sonho de Liberdade umas 5 vezes. Em todas me emocionei, chorei, torci, apertei as mãos. Em todas amei Tim Robins para sempre. Em todas.

Abçs
Rita

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