sábado, 15 de outubro de 2011

Um Só

 “Se quiserem cabelos compridos, lavem-nos”.


A primeira coisa a dizer é que Sidney Poitier era (ou é, porque tá vivinho) um gato.  Dos homens mais bonitos que eu já vi, seu rosto sério e simétrico sempre me incita uma vontade de provocá-lo, cutucá-lo, descobrir o que ele parece conter. Digno, elegante, inteligente, querido, atuante na luta pela defesa dos direitos civis. Enfim. Lindo. Fez vários filmes fortes, cativantes, consistentes como Acorrentados e Adivinhe Quem Vem Para o Jantar?, mas o filme que realmente me envolveu foi Ao Mestre Com Carinho.

Neste filme vemos Poitier como um engenheiro desempregado que acaba como professor em um bairro operário de Londres. Turma barra pesada (bom, pra época, né). E um final que quem costuma ver filmes já antecipa, mas e daí? O bom de um filme não está necessariamente na imprevisibilidade, mas na inteligência com que se apresentam as situações, na riqueza dos diálogos, na sensibilidade na direção e em tantos outros detalhes de luz e som que fazem a magia permanecer sem data. Ao Mestre Com Carinho é um filme pra sempre em mim. Basta ver um trecho, uma cena, um pedacinho da canção tema e o choro logo se achega.



Ao Mestre Com Carinho tornou-se, também, uma espécie de protótipo de tantos outros (bons) filmes sobre a relação professor-aluno e/ou sobre o suposto conflito de gerações. Uma pequena lista, pra ficar no tema do dia:

Gosto muito de Mr. Holland - Adorável Professor, Richard Dreyfuss é um músico que precisando pagar as contas torna-se professor e, bom, continua professor mesmo pensando sempre em seguir carreira como compositor. Este filme me toca especialmente porque muitas vezes vejo as pessoas fazendo planos sem perceber que a vida é o que nos acontece já, nesse momento.

Sociedade dos Poetas Mortos. Como não amar quando um professor diz que o homem faz poesia para...paquerar mulheres? Robin Willliams é meio canastrão, mas talvez essa seja sua principal virtude. Em grande parte dos seus filmes nos tornamos cúmplices de seus personagens (como no ótimo Bom Dia, Vietnã!). Uma das coisas que percebi é que sempre que assisto esse filme eu vou simpatizando mais com algum aluno. Na primeira vez foi o tímido, depois o martirizado que ansiava pelos palcos, a seguir o rebelde Nwanda. Hoje, penso que gosto mesmo é do discreto moço que só queria...paquerar sua moça!

Clube do Imperador, ótimo filme, um tanto mais barra pesada, a perspectiva de redenção é mais dúbia, as verdades são acinzentadas. Gosto muito dos altos e baixos de esperança, dos anseios de retidão, sem falar da intensa paixão que o professor interpretado por Kevin Kline empresta á sua prática diária. Um filme adulto, cheio de provocações e aberto a reflexões.


O Grande Desafio e Duelo de Titãs. Denzel Washington (outro por quem arrasto uma asa) na sua melhor forma. Em Duelo de Titãs ele é treinador de futebol americano e não professor no sentido estrito, mas a construção de valores, o respeito aos jovens, o princípio ético norteador, tudo que é tão caro aos filmes de “mestres” se fazem presentes. O Grande Desafio é ainda mais especial. Para além da relação professor-alunos, o filme é um belo libelo (mas não panfletário nem didático) contra o racismo. Um clube de debates, quer coisa mais interessante? E que existiu de verdade, personagens verdadeiros, debates verdadeiros, dificuldades e alegrias verdadeiras.

Nenhum a Menos. Esse fez arabescos no meu coração. Uma menina de 13 anos que fica no lugar do professor por um mês. E seu salário depende de “não perder” nenhum aluno. Quase um documentário sobre o interior da China

Gênio Indomável. Esse é mais tete-a-tete. Um professor, um aluno que tem que aprender algo além de conteúdos (porque ele já sabe pra caramba). Dois dos meus queridos, Robin Williams – again – e o Matt Damon.

Sou professora. Devo confessar que não acho que nenhum destes filmes me levou a isso – não que eu saiba. Mas são filmes como estes que, de vez em quando, colocam caraminholas na minha cabeça. O que devo fazer? Inspirar? Disciplinar? Incentivar? Como fazer isso em 4hs noturnas por semana? Como colocar aquele brilho no olho? 


Teoricamente eu até sei, li um bocado de Paulo Freire e de Vigostski o que me prepara pra escrever excelentes ensaios sobre o tema e apresentar empolgantes palestras, cursos e treinamentos. Mas o difícil mesmo é dar um exemplo e ninguém entender. É mencionar um clássico – filme, livro, personagem - e ninguém ter a mais vaga lembrança. É falar de um momento histórico, de uma curiosidade da mitologia, de uma canção – puxa! – de menos de vinte anos e sentir-se só, implacavelmente só. 


Pra mim, hoje, ensinar, é isso: sentir-me sozinha. As palavras que uso, os exemplos que tenho, as referências, as expectativas, tudo me parece antigo, ultrapassado, é isso, eu sei: eu mesma sou completamente obsoleta. Insisto, pesquiso, procuro uma comunicação melhor, um tipo qualquer de encontro, claro, mas até o que espero de mim é anacrônico. A cada semestre falo no vazio.

E, no entanto. De vez em quando digo: “Se quiserem cabelos compridos, lavem-nos*” (metaforicamente, claro, mas quem não lembra dessa frase?) e alguém vai lá e providencia o shampoo. E eu continuo, ainda só, eu sei, mas com uma vaga esperança do antigo ter algum charme. 


* frase do Poitier no filme Ao Mestre Com carinho


PS. Em dias menos solitários, escrevi: Presentes ou Para Testar Sua Paciência

8 comentários:

Clara Gurgel disse...

Lú, primeiro, parabéns pelo seu dia!
Mais do que tudo, acredito que a arte de ensinar seja mesmo um dom. Por isso a perseverança de quem abraçou essa profissão, apesar de todas as adversidades. Esse filme, "Ao Mestre Com Carinho" me emociona desde sempre...
Queria saber se vc já viu "O Sorriso de Monalisa" com Júlia Roberts. Não é nenhum clássico(o que é isso?rs) mas gosto bastante. Bj!

Danielle Martins disse...

Parabéns linda mestra!

Rita disse...

Parabéns, Professora Lu. Lindo post, delicioso passeio. Beijocas
Rita

Palavras Vagabundas disse...

Lu, já nos primeiros acordes da música começo a chorar. Hoje penso que um dos grandes impactos desse filme está em o professor ser negro na perifeira (ainda branca) de Londres. Enfim... vou chorar até os fim dos meus dias com essa música e a idade denuncia vi o filme no cinema duas vezes, rs
Um dos últimos que assisti nessa temática é Vem Dançar, com Antonio Banderas, lindo (o filme...bem ele também) baseado em uma história real, conhece?
bjs e bom domingo
Jussara
PS: Todo dia é dia do Professor, não só para os que exercem a profissão, eu tenho todo dia alguém me ensina algo.

Maggie May disse...

ao mestre com carinho é lindo, mas mr. holland me arranca lagrimas sempre…

Menina no Sotão disse...

Eu jamais seria professora, não mesmo. Não tenho paciência. Falta-me talento para dizer ao outro um caminho. Eu demorei a entender que pessoas podem ler Paulo Coelho contanto que leia e ainda acho que a escola é um grande nada. Um desperdício. Algo vago. Acho que aulas em casa seriam o melhor para todos. Foi durante algum tempo minha solução porque o ritmo dos outros era mais lento e quando eu vi sociedade dos poetas mortos pensei que eu tinha salvação. kkkkkkkkkkkkk

Adoro os filmes citados e acho que em tempos de Piaget e Montesquieu a escola se transformou nisso aí que temos e a maior parte dos professores são senhores cansados que culpam os alunos por aquilo que não conseguem fazer. Por sorte, tive excelentes professores, dos quais me lembro. Mas em nenhum momento me imaginei como tal porque eles tinham talento para dividir com os demais aquilo que sabiam. Lembro das minhas aulas de história e do discurso de meu professor. Nossa. Eu não seria capaz.

bacio

Lucas disse...

Parabéns, com atraso, pelo dia do professor. Eu sugiro, até como atualização, o recente filme francês Entre os Muros da Escola. É muito interessante, e eu mesmo cheguei a trabalhar com meus alunos quando eu dava aulas.

caso.me.esqueçam disse...

hmmm. tu acredita mesmo nesses dois ultimos paragrafos? :/

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