sábado, 29 de outubro de 2011

Sobre Relacionamentos Que Não Vão dar Certo

Mais autonomia às tuas esperanças.
Impossível marcar lugar e hora para as surpresas.
Nunca dá certo.
Receberás aquilo com que já não contas 
na festa que não esperas.
(Aníbal Machado)


Ele: casa dos 30, intelectual, charmoso, gente boa. Ela: simpática, trinta, espirituosa, gente boa. Um bar, amigos comuns, uma noite de conversa. Uma balada. Contatos: FB, celular, tudo. Então: mensagens, conversas, cinema, jantar. Um encontro, outro, sexo. Mais conversa, mais comida. Tudo por melhorar, do sexo à comida, mas, ainda assim, tudo gostoso. E aí um: vamos almoçar? querendo soar despretensioso mas já soando decisivo. Ele vai, meio ansioso, a cabeça rodando com: puxa, logo agora que resolvi investir, ela é tão especial, fez eu me mexer em relação ao meu passado. Sim, o moço tem um sofrer na história. E é isso mesmo, ele acertou, ela diz: não é você, sou eu. Pensei e acho que não vai dar certo entre nós. Ela está assim, em um momento mais dela, sabe? Quer uma televisão nova, um sofá novo, ficar mais só. Ele concorda (o que mais pode fazer) e seguem, um pra cada lado que não seja ao lado do outro. Fim, né? Ele me conta. Se lamenta um pouco. Queria que tivesse dado certo.



E aí eu digo as duas coisas sobre as quais quero escrever aqui e que me definem em relacionamentos: 1) não existem pessoas especiais; 2) relacionamentos não vão dar certo. Aí acrescento que acho tão fofinho que ele é romântico e penso que vou perder um querido, mas ele fica e eu explico um pouquinho do meu pensar.

Não existem pessoas especiais, eu disse, mas poderia dizer que todos somos especiais. Cada pessoa tem, sei lá: um sotaque, um meneio, um sinalzinho, um timbre, um jeitinho que a faz especial. Que a faz amável. Que a faz única. Então, ninguém especial. O que é especial é o nosso olhar. Nosso olhar elege, diferencia, nosso olhar confere, ao que é único naquela pessoa, a qualidade de interessante, desejável (claro que a escolha não é, de todo, consciente).

Relacionamentos não vão dar certo. A idéia de que relacionamentos devem dar certo é uma forma contemporânea de dizer: finais felizes. Os finais não são felizes, alguém parte, alguém trai ou, ainda que se viva em risos por sessenta anos, alguém morre. Um final pode trazer alívio, ser triste, angustiante, libertador, indiferente, aterrorizante, mas não feliz. Pra mim, um relacionamento não pode ser pautado no futuro, pelo que ele pode vir a ser. Um relacionamento é o que ele é, o que ele está sendo. Um relacionamento não vai dar certo, ele está dando certo, agora, neste instante, ou não.

A idéia de pessoas especiais, certinhas pra gente, que fazem com que nos movamos, superemos histórias passadas e finalmente tentemos de novo eu acho bem romântica. Meu amigo é um romântico – embora se ache descolado, cínico e sei mais lá o quê que pensam os moços bonitos de fala mansa. Essa idéia, penso, além de romântica, é, também, uma perda de tempo. Ele diz: ela fez eu me mover, eu superar. Eu digo: você perdeu um monte de bonde, amigo. A nossa felicidade não está no outro e sim com um outro. Pra mim essa é uma diferença essencial. O que importa não sou eu, não é ele, é o processo, o que construímos, é nossa capacidade de manter o tal olhar na ativa.

A idéia de que um relacionamento deva ter uma perspectiva ideal de futuro, é – penso - romântica, achei a moça da história também bem romântica, embora se ache descolada, cínica e sei lá mais o quê que pensam as moças bonitas de fala segura. Ela, como ele, tem a idéia de que deve estar “pronta” para quando O relacionamento chegar. Que há um momento certo para o querer bem que não é um momento qualquer, tipo quando se precisa fazer as unhas ou se quer comprar um sofá. E a vida sendo, pondero, justamente, o miúdo.


(pausa pra sabedoria do Rosa: "felicidade se acha é em horinhas de descuido")

Ah, tem mais uma coisa. Meu amigo disse, quando se lamentava: que pena que não deu certo. E eu: ué, a cerveja e a balada foram boas? Foram. O cinema? Foi bom. Os jantares? Ótimos. Sexo? Beleza. A conversa? Intensa e divertida. Então, digo eu, o que é que não deu certo? O certo é o mesmo que contínuo num relacionamento ou o certo é o mesmo que bom? Achar que tudo de bom que se viveu é “não dar certo” é também trabalhar com a idéia do que um relacionamento deveria ser e perder o que ele está sendo.

Apesar do tom pedante, quero dizer que isso tudo não é só o que penso, é o que vivo. Eu considero que todos os meus relacionamentos deram certo. Porque em todos houve aquele momento em que brilha o olho e a respiração falha. E, como, pergunto, eu poderia dizer que tal beleza foi um erro? Eu não acredito em uma hora certa, em uma pessoa certa, em um local certo pra se querer bem. O meu sentir e, ainda mais, minhas relações são sem expectativas de que sejam outras coisas (não sem esperas, destaco, de encontros, de jantares, de filmes, de cervejas, de cama...). Elas apenas são o que vão sendo, o que vamos fazendo. Uma semana ou dez anos.


Então, o resumo da minha vida: vivo relacionamentos que não vão dar certo com pessoas que não são especiais, né? Ou, então, podem me chamar de Mafalda:



Um Epílogo


"Que coisa era o amor para que eu o amasse assim? O amor é escrever-me, transcrever-me, traduzir-me, colocar-me. É pegar em mim, e pôr-me ao mesmo tempo dentro e fora de mim; e reconhecer outra pessoa, trazê-la, reescrevendo-a, e pô-la dentro e fora de si, e tudo se encontrar. E o tempo? O tempo no tempo. E o lugar? O lugar no lugar.

Mas isso mata — pensei eu.

Sim, isso mata — respondi — Isso queima as mãos, e mata verdadeiramente.

Experimentei esta nova liberdade, e vi que era a loucura que eu esperara como quando se está sem casa e se faz a gente arquitecto, para construir uma casa e dizer: Eis a minha casa. Edificar a casa era queimar as mãos, coisa realmente mortal. E, depois de haver casa, podia-se entrar nela com a nossa morte."

fragmento de “Exercício Corporal III”, (1961–68)  orginalmente publicado em “Retrato em Movimento” (1967); in Herberto Helder, “Poesia Toda 1953–1980″, Lisboa, 1981

Encontrei este fragmento  aqui .

17 comentários:

Maggie May disse...

eu acho que tem pessoas que aparecem na hora certa, e por isso se tornam especiais...

Belos e Malvados disse...

Adoro esse quadrinho específico da Mafalda. Vivo sempre pensando nas escolhas que a gente faz e nas oportunidades que a gente perde.

Palavras Vagabundas disse...

"A nossa felicidade não está no outro e sim com um outro." Para mim essa foi e é a receita da felicidade.Minhas melhores reordações de felicidade plena estão nas coisas miúdas só por que estavamos um com o outro naquele momento.
bjs
Jussara

Leonardo Xavier disse...

Talvez aceitar que as coisas os relacionamentos tem um começo e um fim seja algo mais verdadeiro do que cultuar uma falsa felicidade para sempre.

Juliana disse...

uma dia, vou aprender a comentar posts como esse. Li 20 vezes e tá martelando aqui ainda.

Mak Rolon disse...

Tu, sempre, tu!

É estranho ler a si mesmo, e também doloroso quando isso se dá através de ti.

É que sou romântico sim, Lu, mas sou cínico e alheio também, tudo isso de maneira diacrônica. (ri).

Mak Rolon disse...

Ah! O epílogo é maravilhoso!

Dona Lô disse...

Lu, encaixou direitinho, hein??

Lílian disse...

Passei, gostei, parei...

Mas continuo a pagar os preços de acreditar que tem, sim, alguém com quem eu me mova diferente e bem melhor do que me movo quando estou só. Se meu olhar elege um e não outro deve ter um único que para mim, é mais único que todos os outros e aí já era, voltei a cair no clichê. Especial. BJO, LU!

Priscilla disse...

Oi, Lu.

Que bom ler o seu texto quando os sentimentos estão em transformação e isso ajudar a pensar sobre o que está acontecendo :)

Fernando Amaral disse...

Concordo. E, nas minhas caraminholas sobre o tema, creio que todos temos uns bons romances idealizados na caxola. E que isso, de certa forma, faz bem: a tal ansiedade do convite para jantar, para a cama, para o cinema, para o parque, para a polenta com feijão amassado. Mas todo romance, como os livros - as vezes tão sinônimos - tem começo, meio e fim. Ainda que o fim seja mesmo... o fim.

Vinicius disse...

Mas, caso dê tudo errado, caso haja um clique catastrófico no término, como "aproveitar" os supostos bons momentos sem resignificá-los? Ou melhor, sem reinterpretar de uma maneira mais crua e menos fantasiosa (mesmo que a maneira mais crua seja a fantasiosa)?

DoutorFofinho disse...

Poxa, que legal seu texto. Parabéns!!!

Anônimo disse...

Impressionante a capacidade que vc de. tem de falar de relacionamentos exatamente o que penso, só que muito melhor do que eu diria. Acho que todos meus relacionamentos deram certo enquanto era pra dar e o pra sempre, sempre acaba, por um motivo ou outro, simples asssim. Bj

Anônimo disse...

Ops o anonimo era eu bete davis deslogada bj

Diógenes Ferreira disse...

Oi... Li o que escreveu e lhe digo que concordo em partes com você. Como assim em partes?

primeiro você tem razão, pois relacionamentos vem e vão e devemos lembrar das coisas boas, pois de alguma forma elas acrescentaram algo de bom em nossas vidas...

Devemos saber que foram bons e lembrar disso com carinho...

A outra parte que eu disse não consordar é porque para mim... Existe um amor diferenciado... talves não "especial", mais diferenciado... daqueles que entram em nossas vidas e verdadeiramente nunca iremos esquecer e é isso que aconteceu comigo.

SIM, confesso, eu sou romântico e SIM, eu acredito em amores possiveis, não é Chico Buarque??? Amores serão sempre Amaveis, diria ele...

Muitas pessoas passam em nossas vidas e deixam sementes que sempre nos lembramos dela... Mas existe uma pessoa que passa em nossa VIDA e nos marca para sempre e eu entendo que isso é algo raro... Por isso, quando acontece, nos marca de verdade.

Tenho 34 anos e posso te dizer que já tive muitas mulheres em minha vida... Muitas mesmo... Apesar de não me achar muito bonito, quando mais jovem tive um algo diferenciado que faziam com que elas gostassem de mim... Ai, ai, essas mulheres...

O que eu quero dizer é que tive relacionamentos diversos e experiência suficiente para conseguir entender as diferenças do amor para uma paixão ou para um tesão...

Com o tempo e minha história de vida (te conto um dia quando vier al Rio se quiser ouvir) aprendi a diferenciar o amor e a entender os momentos pelos cais passamos... Sem contar a carência que nos faz acreditar sempre que estamos amanando...

Aprendi a me amar e com isso entender esse sentimento alucinante.

Resumindo, quando a ruiva surgiu em minha vida, tudo mudou e um amor incondicional tocou a minha alma, sei lá... Tudo conspirava, inclusiva para que nos encontrassemos e aconteceu... A Ruiva tocou muito minha alma e no fim de nosso relacionamento no inicio de 2008, quando a deixei, algo de mim ficou e nenhuma outra mulher conseguiu tocar minha alma ou mesmo deixar com vontade de RECOMEÇAR...

Nesse 4 anos, tive apenas uma namorada no inicio de 2010, que durou alguns menses e diversas mulheres casadas e algumas ficantes... Mas nada que mexesse comigo...

Não... Não estou procurando nada e nem fico chorando pelos cantos... Vivo minha vida e faço o que eu gosto... mas o Amor... ah, o amor... esse nunca mais andou por aqui...

SIM, BORBOLETA... Acredito no imponderável e portanto, acredito que de alguma forma sempre existe algo de mágico e único RESERVADO PARA NOSSA ALMA...

Para finalizar, com o tempo consegui entender que MESMO QUE "ELA" SEJA A SUA ALMA GÊMEA, isso não quer dizer que iram ser felizes para sempre, pois o amor é apenas um ponto na relação, que é recheada de um monte de frivolidades, como o dia-a-dias, contas para pagar, o ronco ao dormir, entre outras coisas...

Achar a alma gêmea, no meio de 7 bilhões de pessoas é algo quase inimaginável e vamos seguindo a vida...

laricg disse...

Maravilhoso!

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