sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Chupando Drops de Anis #Marco Zero



Porque a gente ama? É sempre difícil falar de amor. Diz Lacan que é impossível, mas é do cerne do humano tratar do que não se pode dizer. É impossível falar de amor, talvez, porque dizer do amor é dizer da falta que o estrutura e da entrega que o mantém: "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer". Não quer porque o que lhe falta não é o mesmo que nos faz incompletos e que supomos que ele anseie. Assim, oferecemos o que sobra ao Outro pensando suturar uma ausência. O amor remete ao vazio e é pelo vazio diariamente convocado.

O amor vem falar do que nos diferencia, do que nos faz únicos: o meu amor sou eu, irrepetível. A falta que se faz amor é constitutiva do ser humano. O amor é pra trás, está lá, na memória, o amor é mais bonito quando acaba, depois que foi. Chegamos atrasados ao nosso amar, é isso. Procuramos nos alcançar e ao que sentimos, mas quando damos nome, quando batizamos o sentir, é aí que o perdemos, porque o que podemos falar não consegue dizer de tudo que é.

Se não podemos dizer o quê o amor é, tratemos do como, parece ser o que decidimos ao fazer cinema. Ao fazer o cinema, eu diria, se não tivesse já aprendido que o cinema são os filmes. O cinema também é um como.

Não lembro qual o primeiro filme que vi. Sei que os que mais gosto são os que me vejo, mas como em casa de espelhos, tão outra que encanta. Aprisiona o olhar. Arte, diversão, indústria...cinema é mágica. É Astaire e seu cabide. Foi o cinema que me ensinou a amar (senão o sentir, os modos) e é amor o que me liga aos filmes.

Amar é solitário. Por sermos únicos, a forma do sentir também o é. E isso faz com que os momentos que chamamos encontros pareçam ainda mais belos. É beleza o que encontro nos textos do Manuel S. Fonseca e do Sérgio Vaz, não apenas nas construções, temas e elegantes análises, mas porque, quando os leio, a solidão de ser eu se torna um tanto mais suportável.

Sextas são os dias em que escolhi ser feliz. Não que não o seja em tantos outros, mas às sextas eu deliberadamente rio. Danço na varanda. Espio o céu. Vejo filmes, leio meus autores preferidos, bebo vinho. Sextas, também, a partir de agora, recebo Manuel e Sérgio no Borboletas. Para recebê-los, o Borboletas terá uma coluna: Chupando Drops de Anis – porque sim, eu sempre rio quando escuto a Rita Lee cantando e tanto quanto a Debora Kerr eu anseio que o Gregory Peck.

Os textos do Manuel serão os que ele publica aos sábados no Expresso, em Portugal, e que gentilmente permitiu que eu os re-publicassse neste blog. Os textos do Sérgio chegam do 50 anos de filmes, site que não me canso de ler e que sempre me acrescenta tanto. Montesquieu disse que “é uma infelicidade que existam tão poucos intervalos entre o tempo em que somos demasiado novos e o tempo em que somos demasiado velhos”, que neste tempo se possa conhecer pessoas como o Sérgio e o Manuel e palavras como as que eles sabem dizer é uma dádiva que, alegro-me, sei reconhecer.

E, claro, já começamos. Adianto que as imagens ilustrativas foram escolhidas e legendadas por mim. Tudo o mais é talento do Manuel.

De Niro não é um animal, por Manuel S. Fonseca*

O europeu Passos Coelho queixou-se há tempos de um murro no estômago. Com um murro em cheio na cara começa a história de Jake la Motta, em “Raging Bull”. O filme é desse nervoso genial e miudinho chamado Scorsese. O actor é o Robert De Niro dos tempos do Olimpo: escorre-lhe sangue da sobrancelha esquerda e os punhos do adversário esmagam-lhe o nariz, os maxilares. Dói-lhe a ele e dói aos espectadores. La Motta é um pugilista imbatível apesar das mãozinhas de menina. Mas os gloriosos dias de vitória parecem chegados ao fim.

Aqui no Brasil: Touro Indomável


Campeão, sexo ansioso com a linda Vickie que lhe enche de beijinhos os dói-dóis após os combates, De Niro nem precisa que ninguém o vença. Derrota-se a si mesmo. O peso – o que ele engorda! – é o seu deficit. A desgraça vem numa enxurrada e leva-lhe casa, mulher, a vã glória e a dignidade.

No fim, dois polícias mal-cheirosos atiram com De Niro para uma solitária infecta. Solta um urro visceral, bate com a cabeça nas paredes, soca o cimento com um directo da esquerda, um masoquista gancho da direita. Porquê, porquê, porquê, urra ele, concluindo com a mais desmaiada denegação: “Não sou um animal”. Se De Niro não é um animal, porque havemos nós de ser um pig?

A Europa é uma velha senhora lívida. Viveu a cores. Desde que vive a preto e branco, admiradores e amantes desertaram-na. Restamos nós, os pigs, reféns do excruciante amor dela.  Aconteceu o mesmo a William Holden, jovem amante de “Sunset Boulevard”. Gloria Swanson, velha e rica actriz do passado, paga-lhe tudo, camisas, botões de punho, sobretudo de pêlo de camelo, cigarreira de ouro maciço, fraque para a meia-noite de cada fim de ano. Camisas! Seis dúzias de camisas!

“Sunset” começa e já Holden está morto: flutua de bruços na piscina com que sonhou. Teve-a. A um preço que nunca poderia pagar, como confessa, morto, com voz de morto, na mansão de tectos trabalhados que, pasme-se, foram mandados vir de Portugal.

No Brasil, Sunset Boulevard é conhecido como Crepúsculo dos Deuses

 De bons estucadores e marceneiros a pigs, já não fugimos do quarto das traseiras em que nos meteu a Europa. Às vezes, a velha senhora passeia-nos de limusina. E agora reparo que Durão Barroso tem uns ares do Rod Steiger de “On the Waterfront”. No banco de trás, Steiger, pistola na mão, oferece ao irmão emprego sinistro, com advertência sinistra: “Não fazes nada, não dizes nada; aceita e não faças perguntas.” E Barroso, quem é que ele, no banco de trás, não ouviu já – ontem Sócrates, hoje Passos Coelho, enfim Portugal – clamar, com a voz deloser de Marlon Brando: “Não estás a compreender. Eu podia ter tido classe, ser um vencedor. Podia ter sido alguém e não um vadio!”

Estes são os que perdem, os losers. Há um dia, ou noite, em que se falha e é o bilhete para o inferno. Não perco a fé: mesmo no inferno hão-de projectar um, pelo menos um, filme redentor.


 *Texto de Manuel S. Fonseca, publicado no Expresso em 15/10/2011


5 comentários:

Turmalina disse...

Claro que gostei...adorei!!!!!!!!!!!!

Rita disse...

Uia, que chique.

Palavras Vagabundas disse...

Uia, que chique [2]
Que eles sejam bem vindos, cinema é sempre bom, mesmo quando é ruim.
bjs
Jussara

Manuel S. Fonseca disse...

Primeiro as primeiras coisas e a primeira coisa é agradecer à Luciana ter arrastado crónicas minhas para esta sua casa.
Depois, dizer aos leitores desta Borboletas nos Olhos que as minhas esforçadas prosas são escritas para um jornal português, estando algumas vezes recheadas de referências a pessoas e situações muito particulares e específicas. Obrigado pela paciência que vão ter de consumir...
Feito este preâmbulo, que bom que é ter um pé do outro lado do Atlântico e logo do lado do Equador mais caloroso, mais genuíno e mais liberto que esta nossa humanidade criou.

caso.me.esqueçam disse...

aff, passei muito tempo sem vir aqui. vergonha. e saudade ;*

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