quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Banzo II

Aí ela torce o tornozelo. E fica de repouso. E melhora. Mas não tanto. Aí o filho fica doente. E ela torce o tornozelo de novo. Mas não pode imobilizar porque o filho está doente. Né?

Quase três anos e eu ainda sinto falta de tanta coisa. E nem falo das pessoas que fui perdendo, a saudade doendo e eu esquecendo de lembrar pra ver se não machuca tanto. Falo daquilo que a gente nem nota no dia a dia. Sinto falta das minhas esquinas. Das minhas certezas: padaria, emergência, bar. Dos meus problemas: trânsito, varrer pó de asfalto, lado do sol. Dos meus intervalos: dragão, barraca da tia, jonas. Quero os atalhos: onde cobrir um botão, onde comprar papel laminado, onde consertar uma bolsa. Quero o beco da poeira. Quero cerveja entregue em domicílio. E colos à vontade. Sinto falta do cheiro do café que eu ainda ia fazer. 

Quero me sentir na minha. Quero deitar encolhida e saber que a minha dor tem canto certo. Quero gargalhar na janela e ouvir o eco. Quero os percursos conhecidos. Quero as ruas desconhecidas, mas já tão minhas antes mesmo de chegar lá. Quero me saber em detalhes e desconhecer em partes iguais. Quero me chatear. Não quero ser estranha na minha cidade, não quero pegar uma rua e descobrir que está em obras já faz tempo. E eu não sabia. Eu quero saber. Quero minhas livrarias, aquelas em que eu já sei onde deixei cada livro que quero comprar. Quero os sebos, poeira enchendo meus olhos de espanto e descobertas. Quero sentir que sou estrangeira em meu lugar, mas de uma forma íntima e cúmplice. Quero me sentir na palma da mão.

Eu sei que eu sou a própria mão. Eu sei que eu sou minha própria casa. Eu sei que o cheiro conhecido é o meu. Eu sei que só eu sou meu fim da estrada. Eu sei que sou meus pontos de referência, minhas placas, minhas esquinas íntimas. Eu sei. Mas e daí? Não se faz uma canja com um saber. Não se gela uma cerveja com um saber. Não se sente um abraço com um saber. Um saber não é uma língua outra na minha boca. Um saber não é o barulho de carros lá em baixo e nem o riso de gente conhecida cá na sala. Um saber não é.

9 comentários:

Juliana disse...

gente, até chorei! ai, querida, banzo não tem cura.=/

Juliana disse...

gente, até chorei! ai, querida, banzo não tem cura.=/

Luma Rosa disse...

Quando a gente se quebra, fica fácil juntar os cacos, se comparado quando a gente se dissolve e cai de boca numa condição.
Gosto de tudo que borbulha, por que será?
Beijus,

Dona Lô disse...

Nessas horas o saber não acrescenta muito não...

Eu sei que minha rua está em obras. Faz tempo. Mas nada foi consertado ainda.

Maggie May disse...

já me senti assim dentro de mim...( entendes?)

Palavras Vagabundas disse...

Um saber não é... mas um conhecimento é...
Banzo não tem cura (2)
bjs
Jussara

Menina no Sotão disse...

Ai minha cara, um saber não é, mas as vezes nos basta. Porque quando se está sozinha num cômodo de luzes opaca, com taça de vinho, copo de água, xícara de chá e um punhado de livros, o saber basta. E conforta, agrada, embala.
Enfim, estou voltando viu? Já mudei e tenho cenários novos...

bacio

Glória Maria Vieira disse...

Me sinto assim quando as luzes se apagam dia após dia, Borboleta de meus olhos.

Allan Robert P. J. disse...

Sabe que tinha um bar em Ilhabela chamado Banzo? Lá pelos anos 80. E adivinha quem era um dos proprietários?

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