segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Lindo, lindo, lindo! É?

Post baseado em opiniões completamente 
pessoais e distorcidas,
sem nenhum fundamento científico, 
religioso, filosófico ou ideológico.

O que é o belo? Foi isso que passei esses dias pensando. Não o belo que a estética tanto debate, nem os padrões de beleza que a mídia insiste em enfiar na minha goela abaixo. Não, o que é o belo, pra mim, eis pra onde meu pensar me levava. E eu matutei e matutei. De maneira direta, o belo é o que me excita. O belo me dá vontade de tocar, cheirar, ficar perto. Tenho vontade de me encostar nas pinturas de Caravaggio, de deixar a mão correr pela Vitória de Samotrácia, de – como se fosse  possível – abraçar uma canção do Chico Buarque (e abraçá-lo também, claro, porque quem nunca?). Quando leio uma frase mais elegante nos livros de Dostoievski, bom, eu abraço o livro. E quando vejo Fred Astaire dançando, ah, todo o meu corpo reage, segue, pede, sei lá pelo quê, mas pede. Não há nada tão apropriado como o título que esse filme recebeu no Brasil: Bonita Como Nunca. Nos braços de Fred Astaire: o belo.



O belo me provoca fisicamente. O belo fica coçando a garganta, fica marejando os olhos, fica esquentando as esquinas e becos sem saída do corpo. Sinto falta da amiga com quem eu repartia as belezas. Quando o viver era mais fácil e as 24hs do dia eram tudo isso mesmo, quando havia o belo, nós nos telefonávamos e dizíamos: ouve isso, lê isso, olha isso, cheira isso...e o belo doía um pouco menos. Porque o belo dói. O belo arde, Oprime. Ele quase completa e o todo é a nossa morte. O belo é o véu que encobre o sublime e o horror: o nada, que vem da ausência de desejo.

            Mas de onde os atributos do belo? Do meu próprio olhar? Da minha história? Das convenções sociais? Do equilíbrio? Da harmonia? Mas como justificar que meus olhos não abandonem um rosto em que o nariz é completamente desproporcional e tal nariz me arranque suspiros de “ai, quem dera?”. É sempre um mistério, esse Outro que é belo. Há coisinhas que desconheço de mim, anseios que me fizeram querer uns e a outros não, minúcias de um jeito de sorrir, de gesticular, de falar com o corpo que eu não sei identificar, só sei querer e quando quero, quero muito. É certo que nem sempre o desejo se alicia ao belo. Há desejos que não vêem. O amor é cego, não é o ditado?

Mas eu falava do belo. Para além – ou aquém, não tenho certeza – das minhas idiossincrasias e do belo unanimamente (existe isso?) aceito, há elementos que dão aquela mão. Poder, inteligência e palco. É isso, podem começar o apedrejamento. Homem no palco fica um tanto mais bonito. Se estiver tocando, ai. Se estiver tocando e cantando, ai, ai. Poder é afrodisíaco pra mim. Gosto, especialmente, do poder sutilmente revelado, não ostensivo. Do poder de rabo de olho, de canto de boca. Do poder sobre si, mais do que do poder sobre os outros. E, mais do que tudo, inteligência. Jeito com as palavras aliada a conteúdo, oh, yes, minha roupa sai fácil. Um homem discursando, palestrando, moderando debates...pois é. Claro que poder sobre si e capacidade de argumentação tendem a aumentar com a idade. Por isso fico meio ranzinza quando vejo alguém duvidando da atração possível entre uma mulher jovem e dentro dos padrões de beleza e um homem mais velho e distante do que se convencionou bonito (barriga tanquinho e cara de paisagem). Porque eu já tive 18 anos e a lei da gravidade me ajudava e, neste tempo, eu já curtia meu coroa de 50 anos e estrada de jazz.

E foi pensando no belo, no desejo, no que me move que cheguei ao: eu gosto de dançar. Dizer gosto não quer dizer, claro, que sei. Ou ainda: não significa que danço conforme os padrões estéticos atuais e prevalentes classificariam como bem. Mas continuo gostando e continuo dançando. No meu ritmo, que nem sempre concorda com o ritmo da música, mas é meu. Isso: dançar no meu ritmo (e é claro que é uma metáfora que serve pra tanta coisa: viver, escrever, amar...e por aí vai), foi um dos mais importantes aprendizados que tive. Um aprendizado de sociabilidade, inclusive. Porque se quero dançar no meu ritmo devo permitir que cada um dance no seu. E mais: se não tem ninguém dançando, não é motivo pra eu não dançar. É assim o belo pra mim, um exercício de respeito ao outro, ao seu desejo, ao seu olhar, ao seu ritmo. É assim o belo pra mim, um exercício de respeito ao outro, ao meu desejo, ao meu olhar, ao meu ritmo.

Se isso não for motivo ainda pra você repensar qualquer coisa a meu respeito, eu confesso: choro em todo episódio de Brothers& Sisters. É isso. Eu também gostava tanto de você...

5 comentários:

Bárbara Lopes disse...

eu sou assim: quando começo a achar algo (ou alguém) belo demais, isso me causa uma certa repulsa. Então, só posso de duas maneiras: de lado, de viés, como quem olha pra um eclipse ou pro barraco dos vizinhos; ou quebrando, ridicularizando, desenhando um bigode na Monalisa. Adoro descobrir defeitos nos outros, nas coisas. Me dá um alívio tremendo. É um pêndulo, "é lindo", "é ridículo" (quando é ridículo, é liberado para ser lindo de novo). E assim vou indo.

‎(esse post já um dos meus textos preferidos, daqui a pouco pego raiva dele).

Rita disse...

Belo é o que me comove. Mais que isso não sei dizer, porquê tá naquele reino das coisas que a linguagem só roça. fico só olhando...

Palavras Vagabundas disse...

O que é belo? Não sei responder e se soubesse provavelmente esceveria umas duzentas laudas. Você respondeu perfeitamente bem... quero até roubar suas palavras!
Também assisto Brothers&Sisters...
bjs
Jussara

Menina no Sotão disse...

Há tempos que a beleza pra mim é movimento. Ver calçadas e perceber diferentes espetáculos que passam despercebidos por aí. O sol na calçada, por entre as folhas, os sorrisos dos mais velhos que já não tem mais a pressa de antes e caminho despreocupados. As crianças brincando sempre do lado de dentro e eu me lembro que eu sempre brinquei do lado de fora. O silêncio de um bairro velho que não tem crianças a correr de um lado para o outro. As praças e sua falta de banco. Os espaços por lá estão sempre vazios e parecem implorar por presenças. Nossa. Posso ficar aqui um dia inteiro. Enfim, a beleza pra mim está na mesa também, depois que todos se sentam e falam de si enquanto degustam coisas que foram feitas a quatro, seis, oito mãos.

bacio

Ps. Avisando que estou levando o link. E adoro dançar, mesmo que o faça apenas com os ombros como agora enquanto ouço Cole Porter.

Danielle Martins disse...

Tudo bem, tudo bem... obrigada pela dica! rsrs
Estava precisando!
Bjos!

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