quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Falhos

“O que Deus quer é ver a gente aprendendo 
a ser capaz de ficar alegre a mais, 
no meio da alegria
 e inda mais alegre no meio da tristeza! 
Só assim de repente, 
na horinha em que se quer,
 de propósito – por coragem."
("Grande Sertão: Veredas"- João Guimarães Rosa)

Se houvesse deus. E se fosse vermelho como bem disse o Manuel*. Mesmo sem deus eu tento o exercício da coragem. E, ainda mais, o da alegria. Mas há dias em que tudo se torna difícil. Ontem, 28/09, é um bom exemplo de dia difícil de manter-me corajosa por vontade. E de ser alegre, ah, ainda mais difícil. Dia 28/09 é o dia da Lei do Ventre Livre (mas não é sobre isso). Dia 28/09 é, também, o Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto na América Latina e Caribe. Um dia de luta. Um dia de mobilização. E um dia de choque, tristeza, desilusão pra mim.

Mas, o começo. Foi convocada uma Blogagem Coletiva. Eu, pra variar, não fiz a tempo (como neste caso aqui da Comissão da Verdade). Mas várias pessoas se mobilizaram e escreveram excelentes reflexões como a Iara no Foi Feito Pra Isso, a Niara do Pimenta com Limão e a Srta Bia no Groselha News (todos os posts você encontra em resumos e links aqui no Blogueiras Feministas). E além da blogagem coletiva teve uma mobilização no twitter com as hastags #legalizaroaborto e #abortolegal.

E aí entra este post. Este post não é sobre a legalização do aborto. Só pra deixar claro e passar ao assunto: sou a favor da legalização do aborto. E não, ser a favor da legalização do aborto não quer dizer ser a favor do aborto nem significa obrigar nenhuma mulher a abortar. Ser a favor da legalização do aborto é lutar pela descriminalização da mulher e exigir assistência do Estado que deve proporcionar condições para que a interrupção voluntária da gravidez ocorra por meio de procedimento médico a ser realizado na rede pública de saúde, sem que a mulher seja julgada, perseguida ou discriminada. 

Isto posto, este post é pra dizer que foi um dia difícil. Um dia de muito choro e choque pra mim. Porque, puxa, como alguém que se chama pró-vida (e que na verdade deveria assumir sua posição política que é contra a legalização do aborto, porque a favor da vida sou também, especialmente da vida das mulheres pobres e negras que são as que mais morrem com abortos clandestinos) e ser tão cruel? Como alguém pode dizer que se preocupa com a vida humana e argumentar (argumentar?) baseando-se em ofensas, ameaças e desejos de mortes, tortura e sofrimento?

Num primeiro momento eu sempre quero acreditar que argumentos como “É fácil ser a favor depois que você já nasceu” são uma piada. Que ninguém que utilize razoavelmente a lógica escreveria uma coisa dessas. Mas isso nem é o pior, descobrir que essas pessoas pensam isso. O pior é ler coisas como podia legalizar um soco na cara de quem faz filho e não quer assumir também, né ? e "sou a favor do aborto desde que a mãe se mate junto"   agressivas e ofensivas situações que ignoram a situação pessoal de quem está do outro lado do diálogo (usei diálogo por força do hábito, mas me parece que não há nenhuma tentativa dos contra-a-legalização-do-aborto de ouvirem os números e argumentos dos que trabalham pela legalização do aborto).

Foi um dia de choque ao perceber que grande parte da nossa população (ou da população que frequenta o twitter) ainda se agarra a posicionamentos obscurantistas. Um dia de tristeza ao perceber como essas mesmas pessoas que falam em vida, amor e valores afins são capazes de demonstração irracionais de ódio, desejando, por exemplo, a morte de pessoas desconhecidas apenas porque elas têm posicionamento político diferente a respeito de uma questão de saúde pública. Um dia de desilusão porque vivo em minha bolha onde mesmo as divergências são discutidas com respeito, civilidade, vontade de aprender... essa bolha me faz muitas vezes esquecer que existem pessoas que baseiam seus posicionamentos na intransigência e na completa indiferença ao outro.

Hoje foi um dia de questionamento. Porque tanta gente se sente apta a dizer aos outros (ou melhor, às outras) o que é melhor pra el@s? Porque os argumentos dos contra-a-legalização são sempre baseados em vagos preceitos religiosos e morais ignorando que nem todos partilham nem precisam partilhar dos seus valores e da sua religião? E porque, ah, porque, as ofensas são sempre a respeito da sexualidade da MULHER? é ela que anda “dando por aí”, ela que “deve assumir seus atos”, ela que é uma “puta” e por isso é predisposta a ser uma “homicida” ( "Aborto é contraceptivo de vagabunda”).

Não deixa de ser interessante (se você tiver estômago forte) passear pela hastag #legalizaroaborto e verificar que as manifestações mais veementes, virulentas e agressivas são de homens. Justamente. Homens, aqueles que não engravidam (e que, aliás, muitas vezes sequer ficam ao lado das mulheres que engravidam deles e com eles). Homens que se sentem no direito de opinar, não – de mandar! – no corpo, na vontade e no futuro de mulheres que eles sequer conhecem.

Não se pede e nem se obrigará, com a legalização, que nenhuma mulher faça um aborto. Isso é uma decisão. Uma decisão que não é fácil. Uma decisão que tem riscos físicos e psíquicos. Uma decisão e riscos que não precisam e não devem ser agravados pela condenação social, pela criminalização feita pelo Estado e nem pelas circunstâncias de adoecimento e morte provenientes da clandestinidade.

Hoje não foi um dia fácil. Foi um dia em que fui lembrada, recorrentemente, que o ser humano é falho. E, mais falho ainda, quando acha que não é.

* ”Parece que os espertos do marketing dizem que quando não se consegue fazer uma coisa boa, faça-se pelo menos grande. E se não se consegue grande, faça-se vermelha. Graças a Deus. (Que, se existir, é de certeza bom, grande e vermelho, acrescento.)

9 comentários:

Rita disse...

Perfeito, Lu.

Bj.

Bárbara Lopes disse...

Ainda bem que eu tirei a cabeça da toca só um pouquinho e já voltei a me enterrar. Porque se você que é tão otimista ficou assim, sei lá como eu ficaria.
beijo

Bárbara Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Niara de Oliveira disse...

Obrigada, Lu.
Passei o dia todo, fui até umas 23h tuitando na hashtag como operária (Renata viu que eu mais ri do que me irritei ou ofendi). Em nenhum momento perdi a calma, a vontade de argumentar (embora tenha ignorado a maior parte desses "argumentos") e não mandei ninguém TNC ou xinguei. Juro!
Mas ofensas nos atingem de várias formas e várias vezes e muitas se instalam na alma. Durante o "debate" levei tudo na boa, até a ameaça de surra de rosário (sim, esse povo parece estar meio "pirado em cristo") me fez rir muito. Mas quem é mulher, tem filho, já fez aborto (como eu) ou simplesmente se sente alijada de direito à vida, à justiça, à atendimento médico e solidariedade só por ser mulher sabe que isso tudo dói demais. Nem precisa passar que passamos e nem ler o que lemos pra saber. Sentimos. Sentimos juntas.
Como bem disse a Renata lá no FB, teu texto é um bálsamo nas feridas que ficaram de ontem e só posso te agradecer por isso.
Meu dia sempre fica melhor e mais leve (nem que seja pelos litros de lágrima que despejo aqui) quando passo pelo Borboletas.
Beijo!

Edivaldo Jr disse...

Bom dia, Luciana.
Fiquei triste ao ler parte do seu artigo, principalmente quando vejo que há generilazações do tipo "Porque os argumentos dos contra-a-legalização são sempre baseados em vagos preceitos religiosos e morais ignorando que nem todos partilham nem precisam partilhar dos seus valores e da sua religião?"
Sem falar que nem todos "pró-vida" são agressivos.
Porém, fico mais triste ainda em ver pessoas comparando o ser humano em estado embrionário a um ovo de galinha, um grão de feijão ou coisa parecida.
Um ovo pode virar um pintinho ou uma omelete. Grãos de feijão podem virar uma plantação ou uma feijoada.
Mas, um embrião humano dentro de uma útero não pode e não vai ser tornar em outra coisa, senão no que, de fato, já é: um ser humano.
Ele não pode ser considerado como um chiclete mastigado que colou por descuido na sola de um sapato.
É vida e precisar ser protegida, da mesma forma que a mulher gestante. Porém, não pode haver preterição da vida do embrião em favor da mulher.
Até porque, aquele embrião também pode ser uma mulher.
Sou grato por não ter sido abortado e por minha vó não ter abortado de minha mãe, do contrário, não estaria aqui.
Um forte abraço. @Edy_adv

Luciana Nepomuceno disse...

Caro Edivaldo,

primeiro, só pra esclarecer, as comparações com ovos e feijões foram feitos por aqueles que são contra a legalização do aborto (pró-vida eu sou, como disse, vida das mulheres negras e pobres, principalemente, maiores vítimas dos abortos clandestinos).

segundo: são preceitos morais e religiosos. a ciência não determinou quando começa a vida humana. se pegarmos por analogia a morte cerebral, pelo menos ante do surgimento do cérebro não podemos dizer humanos. Não podemos pautar uma política pública por valores religiosos, nem eu nem ninguém somos obrigados a compartilhar destes valores. Vivemos num Estado Laico.

Terceiro: os abortos acontecem. Todo dia. As mulheres (e os fetos) morrem. Todo dia. Trabalhar contra legalização do aborto não é só obscurantista, é cruel. É insensível.

Ninguém será obrigada a abortar com a legalização. O importante é a escolha.

Palavras Vagabundas disse...

Não tenho estomago para ler a quantidade de bobagem que vejo e vi sobre o assunto, parabéns para você que teve! Vivemos num estado laico, ignorantes religiosos não podem pautar a sociedade civil. Sou a favor do aborto, por que sou a favor da vida.
bjs
Jussara

Juliana disse...

Olha, eu sou meio descrente no que diz respeito a diálogos decentes quando o assunto. Não existe maturidade pra isso, porque os que são contra a descriminalização, geralmente,levantam argumentos religiosos. Não tem pior argumento do que " é a vontade de Deus".Não sou exatamente inteirada dessas discussões, então pergunto se vc conhece uma pessoa que contra-argumenta decentemente, alguém com conhecimentos médicos, científicos, sem argumento religioso. Eu queria ler um artigo de alguém com essa postura.

Sempre fui religiosa e acredito que existe vida desde o primeiro momento da gravidez. Mas aí é que tá, né, eu ACREDITO. Fé é uma coisa; Estado é outra totalmente diferente. Isso devia ser bem claro sempre, até pra que a gente tenha consciência que ter a religião que se tem é um direito assegurado pela lei.

Uma vez, fui numa palestra na instituição religiosa que minha mãe frequenta e fiquei chocada com o discurso do cara que tava lá na frente. Mostraram fotos horríveis de fetos, de úteros dilacerados em procedimentos. Eu sabia que uma das pessoas que estavam lá tinha feito um aborto quando era adolescente e fiquei pensando como deve ter sido terrível ser julgada e exposta a tantas críticas, ainda que indiretamente.



Todas as minhas crises com religião sempre passaram justamente por essa facilidade que se tem de usar Deus como escudo pra proteger as falhas que todo mundo tem e de usá-lo como arma pra massacrar o outro.

Olha, acabou que eu desabafei um pouco aqui. Não sou boa de organizar meu pensamento na hora de comentar em post, mas esse assunto catuca a gente mesmo.

Menina no Sotão disse...

Eu respirei fundo aqui depois de ler o comentário do sr. Edivaldo Jr.
Sinceramente acho a sociedade hipócrita e já não tenho mais paciência para discutir certos temas. Outro dia ficaram chocados comigo quando disse que se eu engravidasse, eu faria um aborto. Tenho consciência que não tenho vocação pra ser mãe, e não quero ser. Assim sendo, tomo os devidos cuidados, mas se acontecesse, não me obrigaria a nada. E ponto. É meu direito. É meu dever.
E quando falam que é crime, por favor, olhem ao redor e veja a quantidade de crime que acontece por aí. Fácil falar e defender idéias, mas a verdade é que se homens engravidassem, o aborto já teria sido legalizado. Porque aborto acontecem todos os dias. Só que quando se tem dinheiro para fazê-lo é bem feito, quando não, se submete a procedimentos enfadonhos que causam dor e sofrimento.
Mas é fácil falar quando o assunto passa longe da gente, não é com a gente. Afinal, homens só precisam apontar o dedo na direção de alguém, não é com eles, não é mesmo?
Isso me causa um cansaço.
Mas adorei seu texto, viu? Entra para aquela famosa galeria "eu queria ter escrito isso".
bacio

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...