quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Passeio

Pergunta o Chico: e se de repente a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente? Seria ótimo. É ótimo. Um exemplo fictício: a pessoa está no limiar, um tantinho de angústia, meia dose de tédio, um porção de solidão. E toca o telefone, ficticiamente. E, bem, só pode ser o seu jeito de dizer meu nome, ops, o nome da pessoa – imaginária, claro, que faz toda diferença e já tem um riso no olho e um brilho na boca, confundo-me, é o contrário, não importa, um brilho risonho que faz engasgar em palavras ligeiras.

Não é a primeira vez, claro. Você me sabe de um jeito que eu até me espanto. O conforto de estar ao seu lado. A cumplicidade. O morno. É tão certo. O que? Qualquer coisa. Nunca ter que prestar contas. Nunca ter medo. Nunca medir palavras. Ouvir: eu gosto de você. Eu senti saudade. Eu queria ouvir sua voz. Dizer: eu gosto de você. Eu senti saudade. Eu queria ouvir sua voz. E ser exatamente isso. Não menos. Não mais.

Porque eu vim ao mundo a passeio. E você está por aí, com tempo livre. São as coisinhas miúdas da felicidade. Como uma ligação no fim da manhã. Ou um livro pelo correio. Ou uma surpresa com violino. É isso, meu segredo: eu adoro violinos. São lindos, não são? A curva sinuosa, o jeito preciso com que se assentam sob o queixo, a postura que demanda um preparar para o abraço... Ah, e ainda tem o som que eles produzem. É mais ou menos assim: tum, tum, tum. Não, não, esse é o som do meu coração batendo um tantinho mais acelerado.

Pois é, se a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente saía por aí cantarolando e sentindo em ternuras, calor, encanto, afeto – como eu:


No Clima

E por causa do Meme dos 30 livros (já me leu no Eu Sou a Graúna? Está acompanhando todo o povo que participa? Renata, do As Agruras e Delícias de Ser, a Rita, do Estrada Anil, a Niara do Pimenta com Limão, a Marília do Mulher Alternativa, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Mayara do Mayroses, a Grazi, do Opiniões e Livros, a Juliana do Fina Flor, o Pádua Fernandes do O Palco e o Mundo e a Tina, que me inspirou e escreve o sempre ótimo Pergunte ao Pixel) como eu dizia antes do parêntese enorme, por causa do meme dos 30 livros, dei uma arrumadinha em pensamentos antigos:

Hoje só tem prazer, riso solto, desfrute. Adoro essa palavra: desfrutável. Bonito, né? Alguns livros são assim: para o deleite. Livros que se fazem alimento do gozo. Livros tenros, pra serem apreciados não só com olhos, mas com mãos e boca e nariz. Livros pra ler com a pele. 

Eu, hoje, me quis livro. Ali, nas tuas mãos, revelar-me letra a letra. Como se o que já foi dito fosse futuros. Eu recordo no futuro do pretérito. Você ali, parado, e eu me despindo. Tiraria palavra por palavra. Em algumas letras me demoraria, entre excitada e encabulada, o rubor que você antecipa me cobrindo o colo, o rosto, os sonhos. Você ali, parado, e as palavras se amontoando no chão, meu pensamento nú, meu desejo explícito. Mas não, eu sei, os nãos se avolumam ocupando todas as prateleiras, todas as escrivaninhas. Os nãos fazem barulho. Não dizer que me roubaste o fôlego. O chão. Eu quase sei. Quase sei a tua mão virando a minha e tua língua brincando em meu pulso. Eu quase sei a mordida em minha nuca. Quase sei tua barba fazendo cócegas em minhas coxas. Quase, quase sei tuas mãos levantando minha saia só para me fazer corar. Mas não. É só por hoje, eu penso. Nem por hoje, eu grito. Mas se eu pudesse, faria todas as perguntas e saberia, talvez, o que é o impossível de nomear: o que você vê quando você não me vê? Você me adivinha? Antecipa textura, gosto, cheiro? Você anseia? O coração bate mais e melhor? Tem mãos de artista que percorrem um corpo que não está, reinventando-me no seu desejo? Tem dores e medos e planos? Tem saudades e vontades e vazios? O que você quer? de mim? Das minhas histórias? Onde você vai me encontrar? Em você? Em letras? No que não vê? Tateie. Ache. Pegue. Venha. Desfaça os laços da camisola ou os nós da história, mas chegue.


5 comentários:

Viviane Junqueira Ayres disse...

Totalmente desfrutável...
Eu me quis livro...me quis até violino encaixada no queixo...
Mas os nãos se avolumam ocupando todas as prateleiras...
Só me resta ler Shakespeare e ouvir BJ Thomas...

"But there's one thing, I know,
The blues they sent to meet me
Won't defeat me;
It won't be long till happiness steps up to greet me"

OBrigada Lu... pelo presente

Menina no Sotão disse...

Você hoje se quis livro nas mãos dele, violino sendo sutilmente afinado. Bem, eu me quero taça cheia, de vinho é claro, a ser degustada lentamente, pelas arestas até o último gole... ai ai ai

bacio

Maggie May disse...

hoje eu gostaria de não estar sentindo a dor que sinto…

mas você me fez viajar aos 14 anos de idade, dia 23 de dezembro, a Globo passava o filme Hello Dolly e eu sentadinha esperando, quando toca o telefone, e era aquela pessoa perdida, aquele menino dos olhos profundamente verdes e fala perigosa, queria me ver!
até hoje não vi este filme! rs

Glória Maria Vieira disse...

Bárbara. Você é assim. Que analogia liiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda, ein!? Pura, boa e profunda poesia é minha Luciana, gente!:~

Danielle Martins disse...

se a gente não sentisse a dor que a gente finge que sente... que fingimento mais bobo... saudade tão grande de ti...
Bjos!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...