sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Submissão

Eu não preciso apresentar a Joana, ela é de casa. Tanto é, que já estivemos em festas. Pra sabê-la melhor, pode reler o post que lhe escrevi de aniversário, era pra ser um abraço, mas o oceano... ou pode dar uma espiada neste aqui, a comemorar seu mais recente feito. Mas ela não só foi dita, também disse. Inesquecível seu texto Ontem, Hoje e Amanhã, presente na Semana de Ativismo Online Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. E, claro, já esteve aqui, me dizendo lindezas de aniversário.

Joana escrevia naquele cemitério que admiramos cujo obtuário esvoaçou aqui

Dessa feita, o encontro foi lá pelo facebook. Um link que nos aturdiu. Aproveitei e perguntei: um texto para o borboletas? E ela, generosa, disse sim. Ei-lo. Leiam. Gostem. E, convido, pensem. Porque a mim inquieta que o que era livre, seja preso. Que o que era riso, seja dor. Que o que era fácil seja crime. Que tanto que foi conquistado seja desperdiçado. Que tanto que foi vivido seja esquecido. Inquieta-me que uma abertura de novela do começo da década de 90 seja revista em 2012 pela moral e bons costumes. 

É nesse contexto de conservadorismo, de retórica do ódio, de Dia do Orgulho Hetero, de contestação da Lei Maria da Penha, de retrocesso nas discussões sobre o aborto que deve-se ver que este vídeo não é um fenômeno isolado. 




SEDE SUBMISSAS MULHERES, SEDE SUBMISSAS AOS VOSSOS MARIDOS
by Joana Vasconcelos

“O MEU MARIDO DISSE «AGORA TENS DE FAZER UM PÓS-DOUTORAMENTO EM DIREITO FISCAL» … DIREITO FISCAL? MAS EU DETESTO IMPOSTOS! PORQUE HAVERIA EU DE FAZER TAL COISA? MAS O SENHOR DIZ «SEDE SUBMISSAS, MULHERES, DEVEIS SER SUBMISSAS AOS VOSSOS MARIDOS»”

Foi assim que Michele Bachmann, candidata à nomeação republicana para as Presidenciais de 2012 e apoiante do movimento Tea Party, explicou em 2006 esta sua opção de carreira. Cinco anos volvidos, num debate realizado há dias na FOX News, o inevitável aconteceu: um jornalista perguntou-lhe se enquanto President of the USA “se submeteria ao seu marido”. Após alguns segundos de hesitação, Bachmann começou por afirmar o amor e admiração que sente pelo seu marido, homem temente a Deus e bom pai, para então concluir que “submissão (…) significa respeito. Eu respeito o meu marido.”
Estava ateada a discussão, que logo inflamou os media e a blogosfera.  
Num primeiro momento, a polémica centrou-se na pergunta – para uns ofensivamente sexista, para outros oportuna e apropriada. Pois se é certo que jamais a mesma teria sido dirigida a um candidato homem, não o é menos que dificilmente se imagina tal questão a ser colocada a qualquer outra  candidata que não Michele Bachmann - e isto apesar de São Paulo (e não Deus Nosso Senhor, como afirma esta) na Carta aos Efésios (5, 21-24), ter feito tal exortação exclusivamente às mulheres. Porque quem deu causa a tal pergunta foi a própria Mrs. Bachmann, quando trouxe para o espaço publico e o discurso político esse trecho, invocando-o para explicar esta e várias outras decisões relevantes da sua vida (como a própria candidatura ao Congresso, em 2006) e atribuindo-lhe um sentido que é tão linear quanto questionável.     
Depressa, porém, a controvérsia se estendeu também à resposta de Michele Bachmann. Não faltam, claro, os que consideram ter-se tratado de uma réplica (muito) elegante a uma atitude (muito) deselegante. Mas há também os que entendem que Mrs. Bachmann se limitou a desconversar, fugindo à questão - e que não podia, nem devia, tê-lo feito, já que depois de ter criado, ela própria, toda esta situação, tinha obrigação de esclarecer os eleitores quanto ao que realmente pensa (e pratica) quanto a este ponto. Que é como quem diz, deixar bem claro quem é que na realidade aqueles que venham a votar em Michele Bachmann vão eleger: a própria ou o seu marido?
Para tornar tudo (ainda) mais complicado, vozes de sectores religiosos mais conservadores logo trataram de esclarecer ser outro – bem mais literal e bem mais radical que a versão soft do submission means respect - o significado e as consequências da submissão que pregava São Paulo. Enquanto muitos relembram como em situações afins foram bem mais categóricas e tranquilizadoras as respostas de JFK, como católico, e de Hillary Clinton, enquanto Bill’s wife, quanto a quem tomava (e quem seguramente não tomava) as decisões nos cargos que um e outro ocupavam …
To be continued, ao que parece. 

4 comentários:

Rita Roquette de Vasconcellos disse...

quem sabe
se batermo no fundo com muita força
submergimos mais depressa?

:-)

Palavras Vagabundas disse...

Oh, perguntinha bem feita!
bjs
Jussara

Glória Maria Vieira disse...

Deselegante? Mais que apropriada. E, sabe, eu tenho minhas sérias dúvidas se não seria o marido dela que iria governar por ela, viu?! Rum... Acho muito difícil que tendo essa visão (submissão=respeito), ela fosse ter voz ativa pra nada. Se não tem na própria vida, imagine...

Dona Lô disse...

Auto-respeito passou longe...

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