quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Rascunho


Um aviso: eu exagero. 
Mas não mordo. 
A não ser que peçam, claro.
Aproveitem, estou ficando banguela.


A saudade, mais do que dói, assusta. O amor, assim como a piedade, corrompe. Ele não obedece ordens, nem se submete, a não ser por assim o desejar. Estou perdida no hiato entre teu corpo e o meu, na distancia entre o que pulsa e o que é, no indecifrável da palavra que não se pode dizer.

Estou menina. Vulnerável. Estou exposta e solitária, no porto, açoitada pelo vento e encharcada de mar e de anseios. A noite, enegrecida de dores e desejos inconfessos, confunde-se com meus olhos de onde se ausentaram lua e estrelas. Estou imensamente vazia. Plena de espaços. Desejo permanecer te esperando. Mas sigo, porque, para te encontrar, é preciso sair de onde me procuras. É claro, preciso de força. Fortalecida sucumbirei mais rapidamente. Levanto-me. Parto, embora seja o navio que se distancia. Minha raiz é meu percurso. Esculpida numa rocha à beira mar, viajo em interiores. Alimento-me de memórias. Reinventar meus sentimentos é a única forma de preservar a verdade. É como ficção que posso te amar. Vou me enredando, então, na histórias que desaprendi a contar. Vivendo assim, uma história dentro de outra história. Como se fosse possível escolher. Decidir. 

Eu invento: resolvi escrever uma história sobre uma mulher. É tão simples, traços no branco são letras e já posso respirar. Riscos de mim, mas insisto: a história de uma mulher. Porque? Porque hoje amanheci pensando nela. Nessa mulher. Uma qualquer, claro. Então, era uma vez. Era uma vez uma mulher. É preciso que se diga: era uma vez é uma coragem. Isso de viver, como disse o Kundera, sem ensaio, sem esboço. Rascunho nenhum. Mas, agora, era uma única vez essa mulher e nenhuma outra. Uma mulher comum. Uma mulher alegre. Uma mulher de filmes, panelas, amigos. É só isso: era uma vez uma mulher que só tem de especial ser uma. Porque já foi tantas, hoje pode ser essa história. Uma mulher comum que escrevia um blog. Pronto, começada a narrativa, a mulher se faz em nuances que já me escapam: era uma vez uma mulher comum que escrevia um blog e resolveu escrever, certa madrugada, um post sobre uma mulher. E, porque tinha coragens, escreveu assim: era uma vez uma mulher comum, uma mulher alegre, uma mulher de livros, panelas e amigos. Que escrevia blogs. Que lia blogs. E que, de repente, deu pra esperar. É isso, o comum também tem sombras. Tem vontades. O comum dessa mulher tem um desejo que pode virar história. Ou dor. Ou pranto que é o jeito do dizer se fazer sal. Essa mulher, a que espera, nada sabia do inquietar-se à janela. Nada sabia do espreitar palavras como se anseia por um olhar. Não sabia que se podia ficar esperando sem saber o quê. Era uma desavisada a moça dos blogs. Ela é das que se perde, antecipo. Das que não cabem em seu corpo e o estendem sempre em direção ao outro. 

Então, nos perdemos? Acho que não: eu escrevo sobre uma mulher, uma mulher comum que tem um blog e que escreve sobre uma mulher, uma mulher comum que tem um blog e que não sabia esperar. Aí, um dia. Uma pequena janela de dizeres. Uma frase no meio de outras frases. Uma palavra no meio de outras palavras. Desassossego. Pronto. Ponto. E ela soube. Soube das janelas, das esperas, das palavras que tiram o sono. E, de tanta ansiedade e de tanto saber, fez a única coisa que podia: escreveu. Disse coisas como: quero tergiversar. Ou, talvez, disse: eu espero. São tantas as formas de dizer as únicas coisas que dizemos: eu amo, eu morro. Eu vivo. Eu, viva. Ou ainda: ela, a mulher da história da mulher do blog que é minha. É aí que a mulher que escreve sobre a mulher que escreve, pára. Essa mulher pensa: que enxerida! E se constrange de sua personagem ser assim tão atirada. Mas logo a perdoa: ela também é uma louca. Porque escrever assim é um desnudamento da alma e desnudar-se não é seguro. Eu mesma sou das que flertam com abismos. Das que mergulham de olhos abertos. Das que desenham com estilete na alma. Das que choram em tinta preta. 

É mesmo a vertigem das letras que atrai as três: a mulher que espera e escreve blogs, a mulher que escreve a mulher que espera e escreve blogs e eu, que tanta ternura tenho e acordei pensando nelas e encosto meu dedo nas teclas como se pudesse ser uma forma de abraço. Embora eu saiba dos vazios: do querer, do dizer, do viver. A mulher que escreve continua: a mulher que espera se angustia: de tanto saber passa a desconhecer-se. E dói. E ela, a mulher que escreve como quem se debruça na janela, aguarda, pois já não sabe escrever outra coisa. Ela se repete, letra letra faz caminhos que ninguém percorre. A mulher que escreve o post sobre a mulher que espera e escreve, pára, outra vez. Ela também se repete, ela sabe. Também se faz em percursos de paisagem desolada. Revira os olhos, ela é assim, tem manias, pequenas e amáveis manias de mulher gentil. E fica pensando nas dúvidas que ela mesmo criou para a mulher que espera: terá ela se enganado? A mulher na janela tem perguntas que nenhuma das duas pode responder. A mulher que espera porque só poderá saber o que a mulher que escreve lhe permitir. A mulher que escreve porque não tem certezas, só interrogações e uma xícara de café quase esquecida bem perto da mão. Ela quase esquece a outra mulher, a mulher que ela escreve e se lembra do Homem e se pergunta: então, se soubesse fazer poesia? Ela se lembra: Adélia, e é com palpitações que recusa memórias de todo amor feinho. Se soubesse, ela diria como Adélia. 

Seu pensamento em um susto volta pra mulher que espera, espera tanto, espera até mesmo a escrita da mulher que escreve. Porque é presa à sua história. Que ainda não é toda, como – aliás – todas as histórias. Não toda, incompleta – se sabe a mulher que espera. A mulher que escreve a mulher que espera também sabe. Também oco. E eu, que penso escolher a história que quero contar mas só sei apontar as entrelinhas do que nem é, sei: fica faltando um pedaço. Reconheço: eu ainda estou aprendendo. Aprendendo a não viver o grande amor da minha vida. Aprendendo a não inventar realidades para que elas não existam. Aprendendo a escrever roteiros diferentes. E aprendendo que eu posso gostar. Estou aprendendo a não segurar na mão, a não recostar no ombro, a não pedir por favor. Estou aprendendo a não caber em uma mão. Aprendendo a não ir. Aprendendo a não agradar. Aprendendo a não escrever cartas de amor. Nem bilhetinhos. Aprendendo a não ter o que dizer. Estou desaprendendo o meu amor. Ou aprendendo o desamor. O certo é que estou na estrada. 

10 comentários:

Danielle Martins disse...

Coragem... Isso de viver sem ensaio, sem esboço... coragem...

Maggie May disse...

O grande amor da vida de uma mulher, a gente sempre o espera, cria expectativas, sonha, algumas planejam outras recusam, algumas buscam, outras encontram, algumas nem sabe, outras adivinham, e poucas sabem que o amor está dentro de cada uma, e é esta capacidade que se tem ou não...

Rita disse...

Nósssinhora...

Niara de Oliveira disse...

Me li nas tuas linhas e palavras... Sem ar, sufocada, também na estrada, lembrando da porta que ainda nem fechei.
Li teu texto apaixonado e aflito e consumidor ouvindo Djavan... porque está mesmo faltando um pedaço, meu que não está comigo. :'( ...
http://youtu.be/TZPXCF4qYNk

Menina no Sotão disse...

Fui lendo, vendo, sentindo e me perdendo, não apenas de mim mesma, como se desprendesse algo que de fato nem é meu - mas fui me sentindo ali, nas linhas e quando terminou, estava eu me questionando "sou eu?"...
E a resposta se perdeu de mim!

bacio

Juliana disse...

Nósssinhora... (2)

Allan Robert P. J. disse...

Desejos sempre contam histórias, sempre viram histórias, às vezes tão confusas que só percebemos quando já passou.

Glória Maria Vieira disse...

Eu sou apaixonada por essas mulheres que aqui se encontram e que aqui me deixam encontrar-me em mim...

ALEX RAMOS disse...

Você me EMOCIONA, com estas palavras e tive que ver dentro de minhas entranhas o que não é fácil, aproveitando este momento:
O que é o amor, onde vai dar,
Parece não ter fim
Uma canção cheirando a mar,
Que bate forte em mim
O que me dá meu coração
Que eu canto prá não chorar
O que é o amor, onde vai dar
Porque me deixa assim
O que é o amor, onde vai dar,
Luar perdido em mim...

http://letras.terra.com.br/danilo-caymmi/392294/

Atitude do pensar disse...

Hoje eu acordei pedaço, espaço. Meio que sem sentir sentimensto e sensações antigos. E isso, doeu. Acordar sem querer tempo para respirar, para viver, para sobreviver. Mas agora, lendo-a, inundada desse vermelho, por onde perspassa águas, vertigens, híatos, me sentir, mais dor, mais além, me fez ver meu reflexo, o desalento, os desabores, e a falta de coragem de seguir por um caminho que nada me diz. Cadê a coragem? Não sei, mas acho que ficou na cama.

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