quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Quereres

Queria, como na canção, rodar as horas pra trás e deixar-me mais um tempo a vadiar no teu dizer. Queria ter essa risada que me distrai ao pé do ouvido. Queria fazer reais os beijos espalhados pelas palavras. Sem nenhum talvez, confesso: queria renovar o estoque de vinho. Queria saber suas mãos, pele, olho. Sua língua, queria sabê-la inteira. Queria tanto que o querer se inscreve no corpo. Que o querer escreve. Assim: quero. Eu queria confessar um amor imenso. Dizer, como quem morre: eu amo você e ter a exata medida do sangue batendo no pulso e sentir como se o segundo seguinte não fosse chegar nunca e a dor fosse a única forma de me saber eu. Queria perder-me em seus olhos e achar que todos os futuros serão nada. Queria acertar meu passo com o seu e suspirar ao ouvir tua voz, teu violão, teu nome. Queria sonhar seu cheiro e reinventar tua barba no meu rosto: macia. Escreveria cartas inocentes e sussurraria obscenidades olhando a lua e pediria, como quem reina: fica. Comigo, mais, aqui. Queria marcar sua passagem, desenhar as trilhas, mapear desejos. Queria te saber de madrugada, pernas enlaçadas ou telefone na mão para indagar: então, dormia? Como se perguntar fosse saber-te, como se todas as respostas fossem sim e o querer bastasse. Queria querer-te. Isso é quase amor, insisto, enquanto arrumo tua mala para partidas que antecipo. Enquanto quero, já renego as solidões que seu amor me oferece. Eu escolho minha vermelha hemorragia à sua antisséptica precaução. Eu preferia que não fosse quase - e doesse. Preferia o ferro em brasa e a carne viva. Eu escolho o sentir tanto que o peito não me cabe e não esta dorzinha fina de arrancar a casca da ferida. Porque, mesmo agora, tua mão feito ninho, teu suor na minha pele e a alegria entre as coxas, eu sei: não era você, ainda. Não era sua mão, seu cheiro, sua voz. Não era sua boca e sua saliva, embora tivesse sabor tão parecido. Não era seu corpo, não era sua hora. Embriagada de tempo, abri com chave certa a errada porta. Talvez você nunca seja. Talvez já tenha sido quando eu não disse o possível eu te amo. Talvez eu tenha errado a esquina. A hora. Talvez eu tenha ignorado o sinal, ignorado os letreiros e descido no ponto errado. Talvez. 

7 comentários:

Atitude do pensar disse...

Conheço tão bem esse querer, mas algo aqui tem sido alterado - o objeto do querer.
Por ele - ou quem sabe por mim ou nós -, decidi retomar a viagem. Logo eu, que tinha resolvido descer na próxima estação...

Maggie May disse...

eu guardei tanto esse eu te amo, primeiro por medo de espantar, depois pelo silencio que ficava depois de pronunciadas, pior quando era seguido de um fechar de olhos e frases como "um dia você vai encontrar alguém que te mereça", e hoje ao ouvi-lo tantas vezes me dizer "amo você" me calo por querer só escutar o eco dessas palavras em minha vida...

Danielle Martins disse...

Quero...eu te amo... quero tanto...
Beijinhos!

Dona Lô disse...

Caí prá trás agora...

Glória Maria Vieira disse...

Talvez, você seja minha preferida. Talvez? Não, né?! É!

Allan Robert P. J. disse...

O querer nem sempre é certeiro, nem sempre é pontual.
:)

Caso me esqueçam disse...

xarah, lendo teu blog, fico me perguntando quantas horas tem teu dia. pela quantidade de coisa que tu escreve, lê e estuda, deve ter 40h. ou tu eh somente uma borboleta disciplinada? me ensina?

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