quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Na Estrada

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.


Então, tem dias que choro. São raros e eu mesma me estranho e às vezes vou ao espelho espiar como quem se debruça na janela para ver a aurora boreal. É raro, insólito e, dentro de certos padrões estéticos, é belo. Porque eu acho bonito o sentir. Uma vez eu disse por aqui que queria um coração partido. Pois quando dizemos do que nos dói dizemos de nós e isso nos faz mais humanos*. Porque ser humano é faltar. Então, em prece: um coração. Se estiver partido, recebo. Quero um coração pra batucar esperanças vãs no meu peito. Quero um coração pra sentir inúteis saudades. Quero um coração pra bater em desalentada espera. Um coração com rimas, pobres ou ricas, mas poeta. Um coração pra sentir um grande amor. E pra ver o tal amor acabar. Um coração que se pergunte: pra onde vai o meu amor, quando o amor acaba?  

Procuro, sabe. Porque tem dias que é bem difícil seguir. Porque tem dias que eu me pergunto por quê? e não gosto; mas ainda mais difícil é perguntar por que não? Porque não ser gentil? Porque não ser delicado? Porque não generosidades e risos e solicitude? Porque não podemos ser um tantinho menos e deixar o outro ser mais, se sermos menos não nos faz menores e sim maiores? Porque não agradar, ajudar, acolher? Então, como uma vez já escrevi aqui, procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Minhas pequenas pedras amarelas. Uma a uma, reconstruo a estrada que servirá aos sapatinhos vermelhos que trago no pensar. Eu choro, mas não só: enterneço-me, alegro-me, angustio-me, vibro, encanto-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Eu já tive medo do escrever. Palavras tem um poder que não acaba nelas mesmas, mas ressoam nos vazios entre as linhas, nos furos das letras, no intervalo entre parágrafos. Nos olhos alheios. Hoje, aceito: palavras se amontoam em uma pira onde queimam os futuros. Eu ardo. Mas há músicas e incenso em um ritual que se repete de eu ser eu há muito tempo.

O bom, o belo, o justo. Minhas pedras amarelas, uma a uma eu as coleciono, organizo, zelo. Um Caravaggio, belo. Uma ária de Tosca, belo. Um aboio no fim da tarde, belo. Crianças brincando, riso solto, alguém ajudando o idoso a atravessar a rua: o bom. Ter um afeto especial por tratar diferente os diferentes. Coisinhas que empilho em dourado. Tijolos amarelos, meu Oz particular. Tenho gostos. Estes mimos que põem fogo no olhar. E sou grata. Por cada pequena alegria. Porque me cuidam. Porque há tantos momentos que não são aquele. Porque há muitos dias que não são esse. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso que escuto pela janela, tão límpido, sem sexo, idade, sem rosto. Apenas um som que me atravessa. Me atravessa sem que eu julgue origem, classe, sexo. É bom. É belo. Sou grata. Porque agorinha mesmo há algum pai fazendo cafuné para que o filho durma. Porque há casais fazendo sexo. Há crianças usando estilingues em pássaros imaginários, há gente jogando dama nas praças, há aniversários, partos, amigos em bares, aulas, um arco-íris onde antes era chuva. Sou grata porque em algum lugar há dança. Sou grata porque há tanto e tanto que eu quase não sou, tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Outro tijolo. E amarelo. Porque o humano pode ser em ternuras, eu sei, eu sussurro antes de dormir. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. E é assim, esse dia, cada dia, um dia qualquer. Trago meus sapatinhos vermelhos. E construo estradas com tijolos amarelos. Pé ante pé: o bom, o belo, o justo. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Foi como chuva. Ávida, eu ouvi. E as lágrimas foram, por um momento, não de desalento, mas de reconhecimento. Ainda está aqui, ainda está em mim. Humanidade. Mais uma pedra. Amarela, por favor.


*não é doer que nos faz humanos, creio, mas o que nos dói fala de nós, do nosso jeito, do nosso estilo, e poder enunciar o que nos faz únicos, isso é, pra mim, a nossa humanidade.

10 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Borboletas fazem o caminho dos tijolos amarelo tão mais bonito! Ao bater das asas delicadas vai tocando em tudo e mesmo com dor espalha brilho e purpurina e talvez nem precise dos sapatinhos vermelho. Os sapatinhos podem atrapalhar ao alçar voo.
bjs
Jussara

Glória Maria Vieira disse...

Isso aqui é você. Demasiadamente humana...

Rita disse...

Sabe, há momentos na vida em que tudo que nos resta são as pequenas coisas. Também gosto de celebrá-las. Aliás, se olharmos bem, elas são tudo, já que não conseguimos abocanhar o grandão de uma vez só. Né? ;-)

Beijos
Rita

Clara disse...

como se costuma dizer... "quem não sente não é filho de boa gente", é essencial sentir, um abraço

Atitude do pensar disse...

Essa estrada tem estado tão presente por aqui, meus passos nela, os sapatos vermelhos, esse velho conhecido chamado sentir...
Eu sinto tanto que sinto-me viva e humana constantemente, mas dói. Tudo intenso: dor, alegria, amor, desamor, humanidade, estradas. Você.

Danielle Martins disse...

Eu também choro... e muito, você sabe... mas o que seria de nós sem todas essas dores?
Beijinhos cheio de saudade!

Malu disse...

A borboletas enfeitam os caminhos desbotados e gastos pelos dias...
Tornam a VIDA mais colorida e amena com suas asas leves e quase transparentes... Sutilmente mostram as estradas pelas quais devemos trilhar...
Mas muitos n~so sabem a aparência real de uma borboleta e vagueiam pelos trilhos...
Lindo este teu texto.
Abraços

Suely disse...

Eita, que é tanta inspiração que até quase contagia... visitar essa borboleta enche de encanto o meu dia. No caso, hoje, a minha noite! Boa sexta-feira, borboleta encantada.

DanDi disse...

Lu,

Este texto me inundou daqui: plenitude e gratidão a tudo na vida. Esses belos, bonitos e justos valores são o que imprimem nosso lado mais humano, sim! e você certamente é um tijolinho amarelo da minha estrada. Obrigado!

;-)

Renata Lins disse...

Tâo verdadeiro. O que nos dói. E como somos construídos a partir do que nos dói. Uma criança na rua. Uma pessoa sem casa. Gente sendo morta porque a polícia entrou atirando na favela. Gente sendo morta porque não é judeu - suprema ironia - em Gaza.
O que nos dói. E o que a gente, do nosso pequenino espaço, pode fazer com o que nos dói.

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