quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Flor de Obsessão

"Sou um menino 
que vê o amor 
pelo buraco da fechadura. 
Nunca fui outra coisa. 
Nasci menino, 
hei de morrer menino. 
E o buraco da fechadura é, 
realmente, 
a minha ótica de ficcionista."




Tem uma porção de coisas escritas sobre Nelson Rodrigues.  Chega à redundância lembrar que é irmão de Mário Filho (verdadeiro nome do estádio conhecido como Maracanã), que seu pai era jornalista e dono de jornal, que seu irmão foi assassinado na redação. Redundante, eu digo e conto tudo de novo porque, eu sei e Nelson sabia, há grande gozo no repetir-se. 

Há quem diga: reaça. Há quem brade: machista. Há quem acuse: pervertido. Maldito, indecente, tarado, Eu a tudo ignoro e confesso: gosto. 

Gosto de muito do trabalho do Nelson Rodrigues. Gosto da coragem de olhar pro que há de mais falho, mais frágil, mais vulnerável no humano que é o desejo. Gosto que ele não tenha meias medidas e nos desvele as vontades, as fraquezas, que ele nomeie o que é torpe com uma quase ternura. Gosto das frases antológicas e afrontosas. Gosto do texto curto e dos finais surpreendentes. Gosto da genialidade simples de entender o tempo, a morte e o amor como estruturantes da subjetividade, logo, componentes da loucura (e que beleza maior pode haver que a peça Vestido de Noiva?).

Gosto de encontrar o cotidiano em seus contos e crônicas, gosto dos personagens comuns, dos diálogos simples, das situações tão íntimas e, ainda assim, assustadoramente teatrais, icônicas, simbólicas. Gosto das comparações intrigantes, das narinas de cadáver, da respiração de asmático, do peito de tuberculoso. Gosto da sensação de espiar pela fechadura, de ouvir por trás da porta, das frestas. E gosto, ah, gosto, do contraponto da ruidosa multidão, da briga de rua, balbúrdia de boteco.

Gosto, especialmente e em reconhecida gratidão, dos textos sobre futebol. Ninguém, nunca (e reverencio Armando Nogueira, Tostão...) conseguiu dizer como ele o mágico e espantoso que há numa partida de futebol. Nelson via além do jogo, via-lhe a sombra, o mítico, o imponderável. Era tão perfeito narrador que nem precisava ver o jogo, ele o sabia. Onde havia a beleza, ele a descobria e, se beleza não houvesse, ele criava. O futebol, na letra de Nelson Rodrigues, é um épico que hipnotiza. 

O mote de Nelson Rodrigues é o amor. E a morte. E a morte por amor. E o amor que é fatal. O mote do Nelson Rodrigues é a vida, posto que o que é viver senão correr pra morte entre gozos de amar? E não sou eu que digo o que lhe inspira, mas ele mesmo: 

Todos os meus textos são uma meditação sobre o amor e a morte. Nada me interessa, senão a história do amor. Quero sempre escrever sobre os que vivem e morrem de amor, sobre os que matam e se matam por amor. Morrer de amor é uma utopia que está cravada em qualquer coração. Ninguém ama por uma temporada. Quem ama, ama para sempre. O amor não acaba e, se acaba, não era amor. Por pensar assim é que me chamam de flor de obsessão.

Por tudo isso e tanto mais é que amo, amo, amo ler Nelson Rodrigues. Sou, por suas palavras, passarinho fitando cobra. Há uma beleza mortal que me convida e prende. Dizia ele que quem só vê em lentes cor de rosa, quem ignora a face negra da vida, era uma pessoa mutilada. Nelson me faz mais inteira. 

Em uma crônica do Óbvio Ululante, diz Nelson: Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: “O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu: “Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. 

É isso, há autores tão plenos de talento, tão tocantes no essencial, tão precisos na forma, que bastam. Pode-se viver para um único autor, para um único livro. Pode-se viver bem lendo apenas e sempre: Nelson. É isso que tenho a dizer.


23/08/2012 - Centenário do cara, mal posso esperar.


10 comentários:

Atitude do pensar disse...

Nossa, Lu, fiquei sem palavras, pois jamais li nada dele, acompanhei apenas algumas peças baseadas nas obras dele. Acompanhando suas palavras ao descrevê-lo, fui me envolvendo por ele, enxergando-me na forma escrita dele apreender a humanidade. Enquanto isso ia associando-o ao Dostoiévski, e para minha surpresa, no final ele estava lá, em uma das falas do Nelson.
Pesquisando os livros dele, fiquei realmente muito curiosa!!!
Cheiros

Juliana disse...

ai, fiquei sem palavras com o seu texto e com o que o Nelson diz sobre o amor.

Palavras Vagabundas disse...

O que dizer de Nelson? Você disse tudo.
bjs
Jussara

Danielle Martins disse...

Conheço-o muito pouco mas com uma apresentação dessa quem não gosta?
rs
Bjos!

Maggie May disse...

A Vida Como Ela é, adoro, lia quando criança na revista fatos e fotos.

Acho o Nelson casado com a fatalidade,com os extremos.

Sardenta disse...

E mais uma vez vc diz o que eu sinto. Obrigada!

Patricia disse...

Nelson era um romântico. Ele é um dos meus favoritos.

caso.me.esqueçam disse...

soh vou admitir, mesmo com vergonha, porque confio em voce. la vai:

nunca li.

mas por favor, continue me amando. eu vou mudar, eu juro.

Renata Lins disse...

Amei você ter postado de novo, esse eu não tinha lido (claro, senão já tinha comentado :)).
E amei você ter escrito tão mais bonito do que eu poderia fazê-lo, com tão mais propriedade. E olha, sei lá se abriu algum buraco na camada de ozônio do meu coração, mas tô com lágrimas nos olhos... por você? Pelo Nelson? Por mim, acho, menina olhando pelo buraco da fechadura. Desde sempre, e para sempre. Love, Lulu. Assim em público. Tu é foda.

Atila Roque disse...

Lindo texto. Adoro Nelson, com suas provocações sinceras e geniais. E com o seu foco no paixão humana sem eiras nem beiras, nas tragédia-comédia da vida como ela é. Obrigado!

Atila

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