domingo, 14 de agosto de 2011

Bilhete


Porque eu me lembro: 
fui feliz.

E eu só queria colocar em um bilhete curto todas as saudades que eu vou inventar. Escrever letra por letra assim: você me dói. Deixar que aqueles dias de encontro se façam anotações de rodapé. E seguir. Queria lembrar onde fica a porta - a de saída - e não mais acreditar que o querer é um labirinto. 

Eu só queria olhar um espelho qualquer e encontrar aquela mulher que sabia dizer: eu sou em coragens e, de mãos dadas com ela, escolher uma estação em preto e branco pra pegar um trem que me afaste dessa menina que em angústias soluça seu querer. Você me dói. Sempre doeu. Doía quando eu me obrigava a tomar vodca e sempre te respondia:
não, não sei e me envergonhava de ser eu e queria tanto me “esgueirar” e “sorver”, mas eu tropeço e bebo, não sou sutil. Eu só queria deitar no seu colo e falar do Sebastião* e cantarolar a musiquinha Disney. Só queria tirar a sandália e sentir areia da praia. E correr para as calhas quando chovesse. Eu só queria chorar lendo as notícias de fome e morte e perda e não ter que discutir pós-modernismo em festas de aniversário.

Você me dói, é isso, você e seu mundo que não me cabe, grande demais, pequeno demais, estreito – seu mundo é estreito, eu sei agora, mas quanto já me doeu. Procuro a caneta, ensaio o bilhete. Como no avesso de chegar a uma casa abandonada eu cubro as lembranças como quem remove lençóis que preservam os móveis: eu lembro de tudo, é o primeiro soluço. Do sorriso de canto de boca, das calças todas iguais, do olho faminto. Lembro das barreiras todas que teu falar trazia: cada pergunta, um despenhadeiro a mais. Lembro que fomos praças e risos e dávamos voltas no mesmo quarteirão pra não chegar nunca onde suspeitávamos a ausência do outro. Lembro que estivemos em tantos lugares que só deviam ser um: a cama. Lembro do seu jeito esquerdo, do teu corpo certo demais no meu, das noites curtas, do acordar preguiçoso. Lembro um dia e o outro e o outro e o outro até que todos pareciam ser o mesmo, tocados no ritmo do que eu aprendi a chamar felicidade mas que já tinha nome e eu nem sabia: intervalo. Lembro do peso do seu corpo no meu, e é bom. Lembro do peso de carregar tuas perguntas, teus medos, tuas histórias sem vírgula que me coubessem e dói.

Por muito tempo empilhei memórias. Tempo demais, não sei contar, um dia, um ano, toda a vida. Mas, agora, esse adeus feito bilhete. Porque dói e eu não posso mais, não agora, não mais um olhar, nenhum último beijo, não a última vez no teu corpo. Um a mais e eu virarei estátua de sal. Uma vez a mais. Uma vez qualquer. Uma vez, eu sei que é uma forma de re-começar.

Era uma vez. Uma? Todas as vezes. Era uma vez uma confeitaria. Daquelas com vitrine de vidro. Enorme e colorido convite de sabores que eu só adivinho. Menina, nunca deixo de ser menina de nariz colado naquela vitrine, o desejo se fazendo saliva. Tão perto: nariz, vidro, sabor. Quase ao alcance da mão. Quase. Era outra vez. Eu aprendi todas as operações matemáticas. Uma vez um é sempre o mesmo. Era a primeira vez: eu nem sabia que um dia você ia se tornar parte do meu aparelho respiratório. Era qualquer vez. O riso na voz e o engano: era só um espelho.

Era a última vez, eu repetia sem soluços, deixando o bilhete, partindo de mim.

Passe o Sal

E na vida real, essa do passa o sal, da pia de louça, das roupas de cama que precisam ser lavadas, das verduras que murcham na geladeira, do ônibus cheio e das contas altas, na vida real eu dormi. É isso: decidi o que tinha que decidir, falei o que tinha que falar, cresci mais um pouco e pude, enfim, dormir, deixar que as olheiras escavadas no meu rosto voltem a ser sombras. Fiquei um pouco mais só, é certo. Viver é abandonar, uma a uma, as esperanças de encontrar-se no outro. Resta, ainda, a tênue vontade de encontrar os outros. De qualquer forma, dormi. 


Esse é o Sebastião*.

5 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

De tudo ao meu amor, por esse blog, serei atenta...

Glória Maria Vieira disse...

E digo mais: Eu não posso passar um dia sem vir aqui, sentar, tomar "uma xícara de café. Sentir-se em casa e me vê nesse espelho que me descubro todos os dias. Todos...

Maggie May disse...

sofrer faz parte do crescer, ou é o inverso?

Danielle Martins disse...

Quantos quereres...
Beijinhos!

Atitude do pensar disse...

Minha felicidade é em pequenas doses homeopáticas, mas as vezes sinto que me falta, acho que vou absorvendo tudo a minha volta. Ainda sou tantas fotografias, musicas, cheiros, hoje sou a bomboniere que havia ao lado de casa, quando era criança. Os palitinhos salgados e os de chocolate.
Pra você passo o sal, mas também o açucar, para que este último adoce seus lábios e o primeiro ajude na cicatrização das dores e feridas.

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