segunda-feira, 25 de julho de 2011

Wreckage colonial, by Antonio Eça de Queiroz

Eu já contei que adoro receber visitas? Que amo ter gente querida assim, pertinho de mim? Essa semana é especial porque é uma semana de posts convidados, escritos por gente especial, que admiro, que me encanta, que me enternece. 

O primeiro a aparecer por aqui é um querido morto, já mais vivo agora, que me dá tantas alegrias em suas narrativas diretas e envolventes. Dele, além dos posts emocionantes, tive o prazer de ler "Santo Antonio: o homem por trás da lenda". Antonio é um contador de histórias, quase o consigo ver ao pé das fogueiras do Nordeste com suas histórias de trancoso misturadas às narrativas reais, sempre em límpida e saborosa linguagem. Eu o convidei pra falar do ano inesquecível, pensando neste post que escrevi já a algum tempo em que falo do meu ano perfeito. E qual não foi minha surpresa e deleite quando ele me disse: 1975. Ora, vejam, 1975 é justamente o ano em que nasci. Dessas rimas que a vida faz, com a falta de sutileza e excesso de beleza que lhe é característico. 

Quero dizer obrigada ao Antonio. E dizer-lhe mais: que gosto muito de você, que suas palavras generosamente partilhadas lá e, hoje, aqui, numa alquimia vinda da admiração, me fazem mais eu quando as leio. Obrigada, Antonio. Obrigada aos amigos outros que virão esta semana, amanhã a Bárbara, depois Jussara...

Obrigada aos que me visitam e às borboletas, rubras de alegria, agradecemos. Porque não há tempo certo de ser grata a não ser este, que vivo agora e me é tão bonito quanto doído. Então, o texto:


Wreckage colonial, by Antonio Eça de Queiroz

Foto de Rui Romão

Havia um engenheiro de máquinas, hoje gestor de forte grupo empresarial aqui do Norte, que um certo major quis um dia transformar em governador civil duma cidade quase fantasma. Recém-formado, engajado na nossa tropa de fim-de-guerra, deveria representar alguma forma de Poder administrativo, evitar o vazio formal – porque material já o era, e bem visível.

O major continuaria a ser o que era na cidade desde há escassos quatro meses: governador militar e comandante do batalhão que tentava assegurar uma qualquer paz em Malange. Isto passou-se em Maio de 1975 – ou, como costumo dizer para me rir do Tempo, “no último quartel do último século do milénio passado”. Mais concretamente no início da guerra civil que opôs o MPLA de Agostinho Neto (desde então sempre no poder) à FNLA de Holden Roberto e à Unita de Jonas Malheiro Savimbi.

O caos é relativamente conhecido: de nada serve tentar reproduzir o estertor de uma cidade, o medo das bombas, o stress da incerteza, a evidência do desastre. E a multidão com os seus olhos brilhantes, inquietos de impotência, quase gastos de procurar ajuda no impossível.

Foto de Rui Romão

O major sabia muito bem disso tudo. Mas também sabia – ou talvez apenas achasse dever ser assim, seguir o livro, simplesmente – que a autoridade civil tinha de existir formalmente para que ele pudesse exercer a sua função militar. Por certo que achava isso, talvez achasse que ainda era possível fazê-lo.

Os dois jovens oficiais milicianos indigitados para tão estranha tarefa – a de redimir um poder civil que fugira à frente do fogo da guerra também civil e das suas bem sopradas brasas – rapidamente tentaram demonstrar o equívoco do seu superior:

O senhor estará louco?! Já não há nada para segurar! O comércio foi arrasado, as lojas e as casas estão a ser permanentemente saqueadas, há pessoas que são abatidas simplesmente por estarem nas ruas!... A única coisa que agora fazemos é cobrir os corpos de cal... Vamos governar o quê?!... Com o apoio de quem? De Luanda? O senhor acredita nisso?!..., defendia nervosamente o a contragosto proposto governador civil.

E então o major fez que sim, disse que estava de acordo, realmente não acreditava de facto em nada do que acabara de propor.

Mas não tenho outra opção. O nosso alferes sabe muito bem da situação porque manda na ferrugem[*]: eu não tenho viaturas para levar toda a gente para Luanda, disse o militar de carreira, marcando de forma sincopada as orações desta sua última frase. Porque não eram apenas os 500 homens do batalhão, havia que contar com cerca de dois mil civis nas mais variadas circunstâncias.

Já não conseguimos proteger coisa nenhuma e estamos encurralados: não podemos sair daqui. Você tem alguma ideia, alferes Botelho?...

O meu major sabe que estive anteontem debaixo de fogo durante quatro horas... Nada do que possa acontecer agora me espantará muito, mas é claro que tenho medo!, contrapôs, defensivo, o alferes engenheiro. Depois de breve pausa, continuou: – Bem..., se me arranjar alguma protecção eu e os meus mecânicos tentaremos arranjar os carros necessários.

E assim teve de ser.

O miliciano, alferes da ferrugem, sem grande porte atlético e com cara de quem andava ali um pouco ao engano – afinal, a mesma de todo o batalhão –, passou cinco dias em incursões nocturnas, acompanhado dos seus especialistas e de uma Berliet com um pelotão de atiradores para protecção de proximidade e pouco mais.

Durante cinco dias retiraram de camionetas e carros abandonados uma quantidade apreciável de peças sobressalentes. Ao fim de uma semana a frota estava completa. No dia seguinte o batalhão abandonou Malange, rumo a Luanda, acompanhado pela desgraça de uns milhares de civis subitamente desterrados.

Nessa última tarde, três militares do batalhão português cederam a uma tentação: foram vistoriar os destroços. Três amigos, um deles armado de uma velha Walther P-38[†]– e mais nada.

Uma livraria escaqueirada deu-lhes livros de pintura – esquecidos pelos anteriores assaltos. A casa de um radioamador local forneceu uns óculos escuros muito bons (Ray-Ban), um excelente e completíssimo atlas da National Geographic, de 1972, e um receptor de ondas curtas que nunca foi possível voltar a pôr em funcionamento.

Na última casa – que era rica de aspecto mas despojada de conteúdo – a busca foi severa.
Os três amigos viraram tudo de patas para o ar, à procura sabe-se lá de quê.

Subitamente, uma porta fechada!... À chave!... A gula cresceu primária, de forma natural. Havia que arrombar a porta, nada de particularmente difícil.

Mal a porta se abriu de rompante a vontade dos salteadores logo ali murchou como o canhão subitamente amolecido num filme de desenhos animados: dentro da sala tão bem resguardada por dentro do edifício, mas agora já esventrada na sua parede exterior (talvez por um morteiro 81), estava um preto – muito, muito preto – com uma espingarda de caça nas mãos.

A velha Walther não permitia grande sabedoria, ou sequer diplomacia, sobre o que fazer perante o indivíduo – que por segundos morosos olhou o petrificado grupo com o branco dos olhos todo saltitado de pânico.

Depois aconteceu o que no fundo toda a gente queria que acontecesse: num gesto rapidíssimo o tipo abriu a caçadeira, virou-a ao contrário – deixando cair os cartuchos –, e fugiu com velocidade digna de registo e uma salva de palmas de benefício.

Nessa última noite houve uma improvisada banda de música a chinfrinar, que festejava, inconsciente de álcool, de cannabis e de esperança, o regresso à Metrópole[‡].

Isto tudo nas ventas daqueles que – por razões que os próprios conheciam mal – largavam o sítio que em muitos casos os vira nascer e singrar na vida.

Na manhã seguinte, às sete da manhã, a incrível romaria de desterrados (de um e do outro lado) iniciava os seus últimos dias em África.

Alguns, porém, ficaram, e outros até voltaram.

Outros não.
Foto de Rui Romão



[*] Secção de mecânica-auto dum quartel ou destacamento operacional
[†] Pistola alemã vulgarizada na Segunda Guerra Mundial
[‡] Designação então corrente para Portugal

3 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

O blog é da Lu, mas o comentário é para o Antonio.
Cara, amei seu texto!Adorei a leveza e a simplicidade e os profundos sentimentos que o mesmo passa.
bjs
Jussara

aaeq disse...

Um palavra primeira para a Luciana: obrigado, querida amiga, ficou muito bem instalada esta minha velha história (calma, só é velha porque eu já tinha 21 anos quando ela aconteceu...)
Jussara, um grande obrigado para você também pelo generoso comentário. Tenho várias destas histórias publicadas no já extinto blog 'É Tudo Gente Morta', que a Luciana bem conhece. Aliás, republicarei hoje uma delas (um pouco mais pesada...) no Facebook, se quiser espreitar consegue lá chegar pelo meu nome ou através da Luciana.

Beijos

AEQ

Luciana Nepomuceno disse...

Antonio, sua história é como roupa bem cortada, cai bem em quem lhe vista. É uma alegria, volte sempre. E quem quiser, tem links pro seu blog no texto, assim como aqui na coluna ao lado, entre os blogs queridos, mesmo que Nunca Mais, seu cemitério está listado.

Bjs

Jussara, seu texto vem na semana, te avisei? Bjs

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