terça-feira, 5 de julho de 2011

Um Obituário: É Tudo Gente Morta

Assim como era no princípio...

C'est fini. O blog, aquele blog pra onde meu olhar ia quando tudo estava difícil, é findo. Dói. Sei bem que é do arbítrio de quem escreve deixar de fazê-lo. Não reivindico nenhum direito de reclamar. Mas posso lamentar e chorar e resmungar. Porque me faz falta. Porque um dia foi o espaço onde refugiei emoções e pensamentos. Porque era minha esperança de beleza, civilidade, cultura, bom-humor, gentileza. Porque se podia ler sobre Caravaggio e o uso da luz e também sobre rimas populares. Porque havia uma caixa de comentários tão divertida e informativa quanto os posts que as motivavam. Porque havia poesia, música, livros. E havia o cinema de uma forma lúdica, íntima e reverente. 

Meu reader tem, seguramente, mais de setenta blogs listados. Blogs que aprecio, que leio com alegria, que me identifico. Blogs de amigos e que comento diariamente. Blogs de gente que nem sabe que eu leio e raramente deixo alguma palavra. Apesar desta teia, hoje me sinto estranhamente desamparada. Vazia. Sem chão. Amanhã será um outro dia, dizia Scarlett, digo eu. O que ela não falava, mas falo, é que o hoje é de nostalgias. 

Mas eu pensava em um obituário. Vejamos o que se consegue. 

É Tudo Gente Morta, blog coletivo, no sentido maior que se pode dar ao termo, teve suas covas abertas em 28 de setembro de 2009 e trazia, apenas, um anúncio, que começariam os trabalhos em 01 de outubro. Como o bom é transgredir, já em 30 de setembro Pedro Norton apresenta o primeiro Querido Morto. No primeiro outubro se fizeram presentes Raul Sonado e Fellini. Devia bastar, mas foi também já que se apresentaram os Inventários.  De lá pra cá muito se disse sobre tudo e - ainda recentemente - sobre nada, uma banda foi criada, num mesmo 14 de outubro compareceram Larkin em cartas de amor, uma short de se dizer que sol é o coração do corpo  e recebeu-se postais de Viena (de onde mais?). Entre tumbas encontrei certezas como essa e belezas como tais. Nas idas e vindas, até no meu sotaque cearense esbarrei. Aliás, em mim mesma era que mais me encontrava lendo os posts tão redondos que me inspiravam ou espiando lugares cuja perfeição era maior no olhar do outro. Nesta biblioteca feita labirinto de mim (e não por acaso borges sempre presente), a felicidade me contou seus segredos e as estações que não vivo me viveram. Muitas vezes rir era o que me ficava. Outras, o desfrutar. Entre Portraits e leitos de morte, deixei-me acostumar a ter, pois que haviam festas no cemitério de ficar-se feliz de estar lá. Pelos espaços do cemitério, tal riso: convidados, listas boas de se repetir, queridos mortos, cadavre exquis, história particular da infâmia e um dos mais irrepreensíveis editorias que se pode ler. Num 4 de julho, decretou-se fim e que os mortos se levantassem e andassem. Foram-se. Mas é que tudo são tempos

Quando O Biscoito Fino e a Massa cerrou cortinas, senti como sinto hoje, repito então, senão as mesmas palavaras, a idéia De saudade em saudade pelo que não vai se passar trago na retina "Liberty Valance" e é assim que, como pequena participante da blogsfera, despeço-me dos meus mortos. Há uma sequência linda, daquelas que justificam o amor ao cinema: é quando John Wayne observa Vera Miles chorando, aliviada, por James Stewart ter sobrevivido ao confronto com Liberty Valance.


Sente-se toda a tensão de Wayne, a dor contida e aceita de ter perdido a mulher que ama por um bem maior. Ele - ele mesmo que matou o facínora e abriu mão de todas as glórias e até do seu amor - ele e tudo que ele representa: a força das armas, a justiça pessoal, o bravio no Oeste, é isto que ele ajuda a findar quando deixa James Stewart sob os holofotes. Ele faz isso por acreditar em algo que ele não consegue, sequer, vislumbrar. É assim - creio - que muitos se despedirão (e eu com eles) deste blog que tanto nos deu, com a resignação contida e dolorida dos que acreditam num bem maior - mesmo que seja um que nos exile.

Se é com o cinema de ontem que me despeço, é com o cinema de hoje que descubro como seguir. Woody Allen e sua Paris que é um festa, pero no mucho, indica que a idade de ouro é justo esta. Que seja. Que venham senão melhores, outros dias, outros textos. Que fique o registro do adeus. Um registro sonoro, há de ter música na despedida. De forma singular, não é o martelar dos pregos, mas o ranger da madeira cedendo que se escuta. Adeus e obrigada, ou merci – como se dizia tão livremente aí – Eugènia, Teresa, Marta, Gonçalo, Diogo, Vasco, Francisco, Pedro M., Ruy, Pedro N. e, se me permitem, um mais dolorido adeus Zé, Antònio, Manuel e Joana. Que as estradas sejam largas e os atalhos, muitos.

8 comentários:

Long Haired Lady disse...

despedidas são assim, deixam tristeza, e lembranças...

Clara Gurgel disse...

Só vc mesmo Lú, prá fazer um "grand finale" como esse. Prá mim, ainda teve um sentido ainda mais especial. Meu pai "amava" CONCIERTO DE ARANJUEZ...me lembro, que quando eu era bem "piquitica" ainda, ficava observando ele debruçado na vitrola(de fato) perdido sabe Deus lá em que mundo...SAUDADE!! Beijo!

Dona Lô disse...

Sentiu aquela nostalgia? Aranjuez é tudo amiguinha...

Lílian disse...

Cê se apega de verdade, né? Se apaixona mesmo, né? Bem que eu já tinha dito que não era à toa o vermelho desse blog...

Allan Robert P. J. disse...

Dividimos o mesmo sentimento. Quando um blog que gosto chega ao fim a angústia vagueia pelo meu pc. Tudo é parte de um ciclo, mas nada impede um bis.
Idelber Avelar:
http://revistaforum.com.br/idelberavelar

:)

Menina no Sotão disse...

Pronto: cá estou eu com dúzias de perguntas nessa noite gelada. Menina, aqui está muito frio. rs
Carissima, já me despedi de tantos blogs que eu já nem sinto mais nada. Apenas me canso e pronto: viro a página. rs Coisas de uma sagitariana.
Eu fui lendo você la no reader e quando acabaram os posts fiquei com um quilo e meio de perguntas aqui, mas vou ficar quieta aqui e ler tudo novamente para ver se eu mesma encontro as respostas. Caso isso não aconteça, grito na sua orelha. rs

bacio

Atitude do pensar disse...

Tenso. Mas o apego faz-se necessário, é mais uma coisa para lembrar que sou humana.

Anônimo disse...

Olá,

Mas a coisa (sucedânea) ressuscitou... não sabiam?

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