terça-feira, 26 de julho de 2011

O ano da minha vida, por Bárbara Lopes

Continuando a semana, com convidados queridos, Terça é dia de Bárbara. Que, vamos concordar, andava ausente daqui, mas é que estávamos ali, batendo perna, bebendo cerveja, comendo gostosuras e, em grande parte do tempo, madadayando. Pra quem ainda não sabe, Bábara Lopes é colunista do Borboletas e isso me dá um enorme prazer toda vida que eu lembro. Porque sua presença é sempre saborosa e instigante. Pra constar: ela não gosta de doces, é paulista, jornalista, prefere calor (talvez porque toma chopp), ama gatos, e escreve no Blogueiras Feministas e no Feministas na Cozinha. Ah, tem um marido amigo (rá) que faz uma comida de fazer babar.


O Ano da Minha Vida, por Bárbara Lopes

 Ontem, dizem, foi o dia fora do tempo, segundo o calendário maia. Como é o mesmo que andaram dizendo por aí que prevê o fim do mundo para o ano que vem, eu não tenho muita vontade de dar crédito a ele. Mas ontem foi um dia longo – na verdade, ainda é, mas estou escrevendo num hoje que quando for lido será ontem. Um dia de ponto final, de ponto-pula-a-linha-parágrafo, de vira-a-página, de fim-e-começo. E eu sou incoerente mesmo, e se o calendário me contempla, eu contemplo o calendário de volta. Exceto nessa parte de fim do mundo, que sou terminantemente contra.

Mas eu prefiro inventar meus próprios calendários. Prefiro os dias que não acabam, as noites cheias, as semanas só sextas-feiras, os meses com R (ou seriam os sem R?). Por isso o ano da minha vida seria o monstro de frankeinstein, janeiros daqui e dali, invernos muito breves, luas quase sempre cheias.

Seria assim:
  • Uma parte ali 1971 e 1972, cada, os anni mirabilis da música brasileira. Juntos, ali: Acabou Chorare, Clube da Esquina, Construção, o melhor do Roberto Carlos, a trilha sonora que me acalenta.
  • Daí muda para 1996, ano que eu entrei na faculdade, de Fargo e Trainspotting, os filmes que me fizeram a cabeça.
  • Volta para 1958, quando nasce a bossa-nova (e eu sou bossa-nova: aquela novidade que ficou pra trás), quando tudo ia dar certo, Ipanema era só felicidade. Sério: o Rio nos anos 50 é a melhor tradução para Paris nos anos 30 e 40. Efervescência, otimismo, o mundo que se descortina.
  • Era Vitoriana na Inglaterra, a cidade sorrindo e devorando os seres humanos. Um período (vale como um ano?) de violência, estímulos, sensações - nasce o sensacionalismo, por sinal -, criatividade, iluminações e terrores. De Jack, o Estripador, e de Engels descobrindo Londres. De Charles Dickens (e minha mãe adora a piada “mais pobre que uma criança num livro do Dickens") e das estradas de ferro.
  • Avança para 2002, o ano em que conheci a Europa (somos velhas conhecidas, mesmo que ela não se lembre de mim), cruzei o oceano duas vezes – na ida e na volta – e descobri um mundo, novos sons, novos sabores, em que as trevas dos anos 90 pareciam se dissipar, o ano em que fui mais jovem.
  • Pula para o ano que vem, quando eu vou viajar, vou descobrir, vou ser melhor. Nada será como antes.
  • Ajusta mais um pouco: agora. Dia fora do tempo, como todos os outros. O dia que não é nem nostalgia, nem promessa, apenas é. O dia em que escrevo, em que sinto saudades, em que tenho pressa e reclamo da falta de tempo. O dia que teve gato, marido, vinho, email, trabalho, ponto final, medo e comida requentada. Hoje, pra sempre.

    4 comentários:

    Maggie May disse...

    o dia comum que abriga tudo que você ama.

    Atitude do pensar disse...

    O dia agora!

    Palavras Vagabundas disse...

    Goatei do ano que não é um, são vários.
    bjs
    Jussara

    Sardenta disse...

    Essa Barbie emociona, hein?

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