sexta-feira, 22 de julho de 2011

Madadayo

Quer ir embora? 

Momentos Íntimos
Cheguei e no abraço da minha mãe, eu disse: obrigada. Obrigada por fazer de mim uma pessoa legal. E depois disse o mesminho pro meu pai. É isso aí, hoje, arrebentada de dor, garganta doendo, nariz pingando, tantinho de febre e corpo passado no moedor de carne, eu descobri: sou uma pessoa legal. Talvez, até, muito legal. Porque há tanta gente incrível a me querer bem. Tanta coisa linda, tanta coisa boa, que eu só consigo dizer: grata. Por cada risada, por cada conversa, por cada abraço. Sou muito feliz, muito mesmo. Ia fazer uma lista de belezas e afetos, mas vou dizer só: bárbara eu te amo para caraleo lopes.   



Fogo Fátuo



Tua mão. Tua mão em sim. Em mim, redesenhando rotas marítimas. Tua mão desescrevendo poesia, material, concreta carne: quente e ansiosa. Tua mão, desconstruindo as certezas, as esperas, as tristezas. Assim: tua mão por todos os lados, sem deixar opção a não ser caber na palma. Tua mão, desfazendo as saudades. Tua mão, desmanchando horizontes. Tua mão, inventando trajetórias e escolhendo pouso. Tua mão, certa, segura, dedo a dedo invadindo, pilhando, penetrando. Tua mão sabe espaços. Tua mão, serena, paciente, audaz. Tua mão ávida, curiosa, insistente. Tua mão no corpo, no colo, no canto obscuro do querer. Tua mão sem som, sem intenção, sem amanhã. Tão cedo, tão certo, quero: tua mão.


Fogueira


Falo mal de você. Rio. Eu escracho. Zombo em um tom a mais. Gosto de diminuí-lo, fazê-lo pequeno. Para que caiba. No meu bolso. Na palma da mão. Na memória. No meu peito. Para que não me arrebente os vasos, não vaze pelos olhos, não desfaça meus contornos. Represa. Fiz diques para meus anseios, em concreto silêncio moldei barragem. Preciso que você seja pouco, seco, árido, a umidade me assusta: eu a sinto na palma das mãos, entre as pernas, nos olhos. De que tamanho você pode ser para não ocupar tantos espaços em mim? Achincalho momentos, retiro palavras do contexto, desvirtuo idéias. Faço irônicas caricaturas como se fizesse uma oração: seja pequeno. Faço piada mas não encontro o riso, foi nos seus olhos que minha gargalhada ficou? Que olhos imensos você tem. É pra te ver melhor - responde o lobo. Porque você não diminui, insisto espreitando os olhos famintos. Todo ponto de vista é visão de um ponto, nem o óbvio faz você caber na caixinha que reservei. Madeira laqueada, pequeno reservatório de belezas. Mudo a perspectiva, afasto-me, vôo, vou, longe, longe, lounge. O que a palavra não fez pode o espaço fazer? Distante, você será menor? Mancha esquisita no horizonte do meu querer? Fecho os olhos. Se não pode ser pequeno, será nada, breu e sono. Fecho. os. olhos. Fico, por um tranquilo instante, sozinha em mim. Aí, você. Em mim, ainda maior. Enorme, que boca enorme você tem. Que fome enorme você tem. É pra me comer melhor? Me devora inteira, surpresa, espio: sou casca, oco, vazio. Mas um dia eu consigo - espremo, torço, recorto e lhe faço caber, pequeno, entre as letras de a-d-e-u-s. 


Fogo de Palha



Porque é sempre fácil com você. Porque é sempre bom, sempre intenso, sempre quente.  Quem brinca com fogo. Eu brinco, com o seu, com o meu e, ruborizada, prefiro não dormir. É o moço da cantiga, de uma cantiga, qualquer, sempre, nunca, quando dá. Sua língua sabe brincar no meu ouvido, no meu juízo, nas minhas coxas, sua língua me sabe, me saboreia, me saúda. Porque o corpo responde tão fácil, o riso aparece tão rápido e o adeus sempre se faz encontro. Porque não é você, mas gostamos de fingir que sim, madrugadas no outro. Faço meu álbum de pedaços de corpo pra que você monte seu desejo. Em vermelha memória.



Das Cinzas




Pois era uma vez uma menina que nasceu tão velha que já tinha memórias do que nem tinha acontecido. Seu tempo era ontem, mas ela chegava depois. Vivia nos amanhãs. Os dias eram sempre bons, pois já tinham sido. E ela se sabia toda e ria-se disso. Vertia sangue, se houvesse corte e, nos olhos, trazia sal. Era amiga do tempo e colecionava estrelas. Em noites de lua, contam, ela virava rua e se deixava andar. Seu espelho era de letras e ela se dizia, mas ainda não sabia ler. Esperava quem a soubesse, mas nunca estava lá quando eles chegavam. Era uma vez uma menina, era outra vez. Só dessa vez, vamos chegar na mesma hora e descobrir que há pouso perfeito: teu peito.

7 comentários:

Atitude do pensar disse...

Conectadas: Daqui ouvindo Lenine. Acordei com vontade de simplesmente me preocupar somente com "o que me interessa", possuir medos que não me devorem, que não sejam sombras.
Porque o devorar, isso eu espero por parte do menino de sorriso acolhedor. Mesmo pairando sobre a dúvida: tem como não se perder ao ser devorada?
Não sei, mas dizem que se perder é se encontrar...
Queimei do inicio ao fim, e jamais as cinzas me representaram tanto.
Beijo, Lu.

Bárbara Lopes disse...

Maggie May disse...

queria estar nesse grupo dos amigos queridos…rs
mas mesmo assim continuo adorando esta borboleta!

beijo!

Dona Lô disse...

Ufa! Recuperei o fôlego agora, suspenso durante toda a leitura. Caramba, que texto é esse...? Sem palavras. Novamente, me encantou!

Dona Lô disse...

Mas Lu, este texto não parece seu!

Lílian disse...

Eu continuo achando inacreditável esse jeito que você tem de escrever tanto, em tantos textos que se alinhavam um no outro. Sem contar esse jeito de contar "o que não se deve dizer".
BJU!

Iara disse...

Eu só queria também agradecer os seus pais por terem te feito uma pessoa tão bacana, com esse sorriso tão lindo e essa presença delicinha. Porque não é só você que sai ganhando com isso, nêga. Não vou esquecer de fazer isso quando te visitar, pode ter certeza. ;-)

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