sábado, 16 de julho de 2011

Língua

"Eu já esqueci você, tento crer, 
nesses lábios que meus lábios sugam de prazer..." 


Eu te vi, foi agora a pouco. E o peito doeu. O ventre doeu. De te achar bonito, de te querer em beijos, de te saber em mãos. Como se fosse novo. É, eu te paquerei. Outra vez. E foi aí o sobressalto: tudo era novo pra mim, não lembrava teu rosto, não sei teu gosto, não conheço tua mão. Eu tinha esquecido e não sabia? É mais fácil do que eu cantava, repetindo João em vezes sem fim: seu nome, sua cara, seu jeito sedutor? 
"Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma" diz Pessoa. Nós não nos soubemos ler, antes, porque saberíamos agora? Vou soletrar teu nome e escrevo desejo. Mas em uma língua que não saberás decifrar e tudo cala. À míngua.

Abismo
Há, no Museu da Língua Portuguesa, uma beleza que me leva às lágrimas, sempre. Eu amo as palavras que lá encontro. Que lá me desencontro. Em cada dito a certeza de que os meus grandes dramas e prementes questões são nada ante uma rima direita, uma frase perfeita, um ponto final corretamente colocado. Toda essa fome se faz reconhecido pranto ante a beleza. Não me importo com os sapatos vermelhos, com as estradas vazias, com as esquinas trocadas. Lá, não sei de fotos que não existem, de encontros que não estive, de luas tão cheias de desencanto que me pus Ismália. Lá só há tanto brasil, tanta humana tentativa de estar com o outro e tanto reconhecimento da impossibilidade da empreitada. Lá eu aceito a minha solidão como se pudesse viver com ela. Ou morrer.

Baralho

seria um dia, ela sabia. um dia, um dia, um dia, o salto repetindo em passos, um dia que não era o hoje, o salto levando-a, sempre, inseguro equilíbrio. seria um dia. enquanto isso, o baralho. cada vez mais estranho, espadas vermelhas, ela se inquietava, em algum tempo foram: copas, ouro, espada e paus, ou era mais uma resposta errada que ela insistia em conhecer? tenta lembrar, mas a estrada a convoca e é dia ante dia, esquece-se, pé ante pé, que ela segue. enevoada lembrança: já esteve em janelas. lembra de ver uma lua, amarela lua, lembra de ver o tempo passando, lembra que era de esperas que se fazia. Apoiava-se na janela. delicado desequilíbrio, olhar espichado no que viria. Agora, ela é quem vai. um dia, um dia, um dia, os passos soando alto, as janelas é que se espicham pra vê-la. as cartas, as cartas que ela não escreveu, as cartas extraviadas, as cartas não dizem nada, as cartas se anunciam em espadas vermelhas e a estrada é quem diz: seu tempo é nunca. 

11 comentários:

Maggie May disse...

nao me contive naquele planetario do museu, lagrimas escorreram dos olhos sem que eu conseguisse controlar!


e você, ainda voa em sampa? rs

beijo!

Fred Caju disse...

Entre rubras espadas, valetes imprescindíveis a todos.

Liliane disse...

Flanando atrás de uma borboleta aqui encontro voce, sua linda, cheia de lágrimas incontroláveis nos meus olhos...
To com saudade e bem muita inveja desse povo sortudo de São Paulo...
Vem pro norte, borboleta, pro pólo norte me encontrar... Mil beijos linda! vou ali te abraçar...

Menina no Sotão disse...

Há tempos não vou aquele museu e olha que fica logo ali, literalmente falando, mas meus pés estão contidos e meus dedos atordoados, agora meus olhos estão com imagens mil desse sentir entre ver, estar, permanecer. Ai que Fernando Pessoa tem razão: antes as palavras.

bacio

Rita disse...

Ai, que saudades de você.
bj
rita

Juliana disse...

eu queria ter um museu daquele no quintal da minha casa.


chorei sem parar na praça da língua.

Clara disse...

foi tão bom passar por aqui, vir de férias e ver estas palavras doces e deliadas, um abraço

Suely disse...

Na minha família - eu e meus filhos - amamos as palavras e escolhemos profissões que estão vinculadas a elas. Um é jornalista, outro estudante de letras que vai pra Carolina do Norte estudar a diáspora africana nos próximos dias. Passear no seu blog é uma forma de sorver as palavras delicadamente expostas e receber a poesia que derramas por onde passas. Beijos, Lu. Boa semana.

Júlio César Vanelis disse...

Madrinha... Q saudade! Saudade de você, dos seus textos...
Queria muito conhecer o museu, espero ter a oportunidade em breve.Tem tanto de você aqui, pelo menos da noção que eu tenho de você...

Um grande beijo,madrinha... até o próximo

Rafa disse...

E essa dor travestida em beleza, rodando sua bolsinha afoita nas esquinas da vida?

Bora conversar.

Bj

Atitude do pensar disse...

Precisei sair da janela e subir à montanha, pois as respostas não chegavam. Mas agora que a sei, prefiro o silêncio. Afinal, havia me acostumado com ele...

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