sexta-feira, 8 de julho de 2011

Dessas Coisas De Mim

Vez ou outra eu confesso: sou antiga. Gosto de coisas que foram coloridas com intensidade, mas meio desbotadas, daquele desbotamento que é conforto de um ambiente muito usado pela felicidade, sabe? Eu me vejo em cadeiras na calçada, foto revelada, café coado, envelope e papel de carta, criança brincando de esconde-esconde, em panelas de bronze e colheres de pau. Eu me vejo em lampiões, roupas de seda, expressões e palavras como: no frigir dos ovos, peleja, pejo. Sou antiga, sou das que sabem o que é carpideira e que não usou, mas sabe o que é ferro com brasa dentro. Eu uso gírias como "tá massa", compreendendo que estou atrasada mas sem saber em relação a quê. Sou tão antiga que ruborizo. Que digo videocassete. Que sinto falta da radiola, do LP, do som tão impuro que varava a alma. Sou antiga a ponto de gostar de ir ao cinema e namorar um filme. Aliás, se for em preto e branco, que alegria me dá. Antiga. Do jeito chato, que admite todas as benesses e confortos do mundo de agora, mas suspira por vozes como da Dalva e Dick Farney e lamenta Vinícius quase diariamente. Sou antiga das que ainda preferem um abraço. E é por isso, pelo gosto pelo encontro real, pelo desejo de ter nos olhos o rosto amigo, que estou fazendo as malas.

Fazer as malas me faz feliz. Já faz um tempo descobri que sou cigana, bandoleira, irrequieta, e que gosto de chegadas e partidas, mas amo mesmo é a estrada. Percursos. Caminhos. “Mei da rua”, como dizia minha avó. Rodoviária e aeroportos são lugares acolhedores pra mim. Quartos de hotel me agradam. O asfalto se estendendo à minha frente ou as nuvens varadas pelo meu olhar, os espaços em que me faço eu. Sair do lugar, eis o mote. Viajar me faz feliz. A estrada me deixa ser cada vez mais eu, sendo menos. Sem expectativas, sem informações prévias, eu sou quem estou sendo e isso é de uma beleza que me rouba o fôlego. Não tenho boa memória, não sou viajante culta, avetureira nem do tipo que viaja a negócios. Meu negócio é bater perna. Pangolar por aí. Não sou das que lembra nomes de ruas, restaurantes imperdíveis, passeios obrigatórios. Eu gosto de estar nos lugares e ver suas pessoas. Falar com elas. Estar com elas. Eu simplesmente gosto de estar em um lugar que é outro. O prazer da estrada não me vem de arquivar informações ou memórias, mas de saborear o instante. De simplesmente estar lá, nesse canto que é diverso. Nem mesmo boas fotos eu me lembro de fazer. As experiências costumam ficar onde eu gosto que estejam: em mim. Não na memória, insegura e frágil, mas na pele, nas palavras que passo a usar, no jeito de me mover, de reagir às situações, nas ruguinhas ao redor dos olhos que franzi pra ver melhor ou por tanto rir, na forma de andar, de gesticular, nas idéias que vou construindo. Andarilha, gosto de ir e voltar. De passar pelo mesmo lugar, que já não é mesmo, nem mesmo em mim. E de ir aonde eu nunca fui, mesmo quando era outra. 

Resumindo: vou lá, ver o Lemú e cair no seu riso amoroso. Vou lá, ver o dr. Paulinho e  cair no seu olhar afetuoso. Vou.

Post Scriptum
E de novo o desejo me faz contar as horas. Tão fácil se pergunta quando, tão rápido eu respondo quero. E mesmo com as respostas erradas nós insistimos nas perguntas certas. Você quer, com ponto de interrogação. Há medo nas suas letras, eu sinto. Eu não me demoro a dizer: quero, porque eu sei que não há erro, nosso querer não basta. Não somos nós, os certos. Não somos nós no espelho, no enredo, no final feliz. Não somos, não há futuros em nós. Mas eu vou, há uma plataforma de estação que não precisa de acertos,  de amanhãs, de definitivos encontros. Precisa só de dois que - quase - parecem um casal . É só disso que eu preciso: de um quase. Eu anseio por essea estação, esse trem, essa hora. Nossa hora. Eu vou. 

12 comentários:

Pandora disse...

Perfeito, lendo esse texto começo a pensar que nunca serie moderna, não quero ser moderna, prefiro a antiguidade que suas palavras expressam...

E sim, no frigir dos ovos "Eu gosto de estar nos lugares e ver suas pessoas. Falar com elas. Estar com elas. Eu simplesmente gosto de estar em um lugar que é outro. O prazer da estrada não me vem de arquivar informações ou memórias, mas de saborear o instante."

Palavras Vagabundas disse...

Estamos a sua espera! Eu sou antiga e também sei o que é uma carpideira, carpideira que sou da vida que passou.
bjs
Jussara

Caminhante disse...

Carpideira?

Rita disse...

Vai, querida. Vai, sim. E nem que seja um tiquinho de nada, eu vou contigo.

Bj
Rita

Diario de Uma Depressiva disse...

tambem sou meio antiga... rola uma nostalgia ne

e adoraria bandolear como vc...

Pastelaria disse...

Olá Lu
Antes de mais ...parabéns pelo blogue ! :)

gostei do que li ...

Gostaríamos muito que desse uma vista de olhos no projecto DVB- Digital Video Book ,de saber a sua opinião e qual o interesse em desenvolver o seu trabalho neste novo formato.

"Transformamos" os seus trabalhos (já editados em livro, ou não), num DVB- uma ideia original da Pastelaria Studios Productions

O projecto é recente, é uma inovação, tal como explicamos no nosso blogue:

http://pastelariaestudios.blogspot.com/


É exactamente isso! os seus poemas seriam " trabalhados " em DVB . Um livro que se vê como um filme!


Não se trata do mesmo funcionamento de uma editora "normal", pois não somos uma editora e prestamos essencialmente um serviço criativo.

A minha sugestão seria, enviar-nos a sua obra, e nós faremos uma análise e um orçamento de custos.

Posso adiantar que, por ser um projecto novo e, embora o trabalho criativo (audio, voz, imagem, construção do DVB, etc) seja bastante, queremos chegar ao maior número de autores de obras escritas, mesmo que essas estejam ainda na 'gaveta' ...



Fico a aguardar uma resposta e, qualquer dúvida ...estamos por aqui.

Um abraço,

pastelariaestudios@gmail.com

Juliana disse...

Não sou antiga, mas sou igualzinha no que diz respeito a viagens.
Vou roubar esse post pra mim. heheheh

Menina no Sotão disse...

Comecei a dizer tanto e tanto aqui, como só você mesma sabe fazer comigo. Escreves as tuas linhas e pronto, instiga as minhas. Eu vou lá tecer a mim mesma e depois te conto mais sobre meu olhar e seus pretéritos. Não sei se sou antiga, sei que sou alguém que vive no sótão e já me disseram que os sótãos estão se perdendo das casa. Pode? rs

bacio e bom fim de semana. Nos vemos? Estou torcendo para que sim... Será muito bom revê-la.

Suely disse...

Gostei tanto! Tenho paixão pelo que você escreve. Ia gostar de ter e ler um livro seu. Ia gostar de indicar pra um monte de gente. Compartilhar palavras e sentimentos.
Borboleta pequenina e feiticeira. Beijos.

Rafa disse...

Eu também amore, eu também...(Os setembros, né?)

Bj

Atitude do pensar disse...

Ainda guardo minha pasta de papel de carta (de verdade). Quem sabe não podemos trocá-los em breve...
Aqui um querer que chegue o perto, porque ir demora e o tempo brinca conosco.

Renata Lins disse...

Ei, Lulu... tô arrepiada... abri com vontade de ler um texto seu, tinha esse postado, esse que é tão a minha cara que até me dá lágrimas nos olhos. Eu sou indo. E agora, faz um tempo que não vou e isso me faz falta. Sempre tive um pé lá, outro cá. Saudade mora comigo desde que me entendo por gente. Um beijo, e muito obrigada pelo carinho na madrugada. Serendipities.

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