domingo, 31 de julho de 2011

Das Des-Razões Do Amor

Porque a gente ama? É sempre difícil falar de amor. Diz Lacan que é impossível, mas é do cerne do humano e, ainda mais, do âmbito da psicanálise, tratar do que não se pode falar. É impossível falar de amor, talvez, porque dizer do amor é dizer da falta que o estrutura e da entrega que o mantém: "amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer". Não quer porque o que lhe falta não é o mesmo que nos faz incompletos e que supomos que ele anseie. Assim, oferecemos o que sobra ao Outro pensando suturar uma ausência. O amor remete ao vazio e é pelo vazio diariamente convocado.


O amor vem falar do que nos diferencia, do que nos faz únicos: o meu amor sou eu, irrepetível. A falta que se faz amor é constitutiva do ser humano. O amor é pra trás, está lá, na memória, o amor é mais bonito quando acaba, depois que foi. Chegamos atrasados ao nosso amar, é isso. Procuramos nos alcançar e ao que sentimos, mas quando damos nome, quando batizamos o sentir, é aí que o perdemos, porque o que podemos falar não consegue dizer de tudo que é.

E, ainda assim, insisto. Estes dias revi dois filmes que me lembraram o que amo ou, ainda, porque amo. Há dois homens, e eles são – concomitantemente – iguais e tão distintos quanto se pode – aparentemente - ser. Will Kane e Rooster Cogburn, respectivamente Gary Cooper e John Wayne. Ambos já não são jovens, vemos em seus rostos o cansaço de uma vida difícil. Ambos têm uma tarefa a cumprir. Will Kane é um delegado prestes a passara bola que se depara com uma situação conflituosa ressurgida do passado, Rooster Cogburn é um agente federal que aceita o trabalho de procurar e capturar um fugitivo em território indígena. Wiil Kane é um homem ilibado, ético, determinado, impecável e reconhecido por todos como gente boa. Rooster Cogburn é um bêbado, um tanto violento, displicente e com moral frouxa.

Bom, eu preciso falar de Matar ou Morrer, primeiro. Will Kane acabou de casar (e com Grace Kelly, linda, o preto e branco realçam seus traços perfeitos) e entrega o distintivo determinado a se tornar dono de loja em outra cidade pra agradar a esposa. Entretanto, antes de ir-se, recebe a notícia que um pistoleiro que prendeu 5 anos antes foi solto e que ele e seu bando estão chegando à cidade - e não com boas intenções. São 10:40 e o pistoleiro chegará no trem de meio-dia. Daí em diante é uma jornada de solidão. Todos insistem para que Will fuja, mas seus senso de dever não permite. Ele vai sendo abandonado por todos: os ajudantes oficiais, os valentões do bar, os respeitáveis frequentadores da igreja, os amigos... até a recém-esposa compra uma passagem no trem que vai partir. E ele lá, forte, firme, decidido a lutar e morrer pelo que acha certo. A cidade o abandona, mas ele não abandona a cidade (ai, como é lindo este filme que tem uma canção tocante e decorre todo ele em tempo real e apresenta relógios onipresentes). Poucas vezes se conseguiu traduzir a angústia, o desamparo humano tão fielmente como aqui. O rosto de Gary Cooper transmitindo surpresa ante o comportamento dos demais, resignação, coragem, tristeza, ah, como um rosto pode ser todos os possíveis?

O outro homem que me comove tem uma bravura indômita. Ele não tem moral inatacável, muito pelo contrário. Sua comunidade o repudia, mas é ele o indicado quando se pergunta por alguém realmente valente. Rooster é acostumado a abandonar, a mentir, até roubar. Ele não é um mocinho. E, ainda assim, quando é preciso, é com ele que se pode contar. É ele que está sempre lá quando Mattie necessita. Ele tem um olhar severo, mas generoso. Ele sabe admirar a coragem no outro (no caso, na outra). Neste filme, Mattie é uma mocinha com um pensamento fixo: capturar o bandido que matou e roubou seu pai. Pra isso contrata o velho e já baqueado Rooster.  Juntam-se a eles um texano que procura o mesmo bandido – por motivos diversos. Rooster tem comportamentos que não estamos acostumados a ver nos mocinhos, como dizer: "Dispare antes, do jeito que puder, e pergunte depois se o adversário quer se entregar vivo." Rooster e Mattie se respeitam. Admiram-se. Comovem um ao outro. Há horas em que Rooster podia desistir, abandonar Mattie, mas ele não o faz. Ele não a deixa, ele se mantém com ela. Gosto do jeito como se alternam ternura e dureza no olhar que Wayne dedica à pequena Mattie e à sua auto-imposta tarefa. Na memorável cena em que ele prende as rédeas no dente e parte num duelo com quatro pistoleiros, ah, que tocante que é. Quase tanto como os momentos em que ele sacrifica tudo pra carregar Mattie até o médico.

Kane e Rooster são os homens que amo em cada homem que eu amo. Eu amo o andar angustiado de Kane e o gingado insolente de Rooster. Amo o abraço generoso de Kane e a cavalgada solitária de Rooster. Por baixo do tapa-olho, da estrela de latão, por baixo do silêncio eloquente ou da conversa bêbada, estão eles: homens que se sabem comprometidos com algo além deles, além de mim, além do óbvio. Algo que não se consegue definir com precisão mas se reconhece em situações extremas. Eu os amo no seu amor pela sua missão. Pela sua coragem e pelo conhecimento dos seus limites e da necessidade de ultrapassá-los.

Há um poeta inglês do séc. XVII, Lovelace, que termina sua poesia - To Lucasta, going to the Wars, assim: I could not love thee, Dear, so much, Loved I not honour more; que eu entendo assim: não te amaria tanto, querida, não amasse mais a honra (se não for isso, não me corrijam, por favor, rá). É isso que amo nos homens que amo: essa convicção interna, esse núcleo seguro, essa ternura revestida em coragem. Essa independência. Amar estes homens não e fácil, demanda a certeza de que no amor não é matar ou morrer e sim matar e morrer e, pra isso, só mesmo com bravura indômita.  


PS. Meu querido Sérgio escreveu, inteligentemente e com maestria que me falta, sobre esses dois filmes no seu excelente 50 Anos de Filmes. Aqui estão os links: Bravura Indômita e Matar ou Morrer.



7 comentários:

VaneZa disse...

Eu ainda não vi os filmes, mas os verei com certeza e me lembrarei de cada uma das suas descrições. Acho que vou passar a amr esses homens também... vc não vai ficar com ciúme, não, né?

AbraçoZzz

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
adoro os dois filmes, porque eu tenho profunda admiração por pessoas e personagens que fazem o que têm que fazer, simples assim e difícil assim.
bjs
Jussara

Maggie May disse...

adoro filmes antigos, mas confesso que oswestern não me seduzem…

com relação ao amor, de minha parte, sinto que é doar, se dar, se entregar, zelar, cuidar, e viver.
mas tudo isso realmente está dentro da gente, alguém, por quimica, destino, sei lá, desperta.

beijo!!!

Danielle Martins disse...

Tem coisa mais linda do que dar o que não se tem?
Boa semana!

Atitude do pensar disse...

Não vi nenhum, mas o amor está sempre por aqui.
Sexta ouvi Xavier (personagem de bonecas russas), dizer algo como: sem amor somos tristes, mas com ele também. Cheguei a seguinte reflexão: Sem ele somos abismos, mas como ele há formas e preenchimento; mesmo que estejamos tristes.

Andrei Deuschle disse...

@Lucianahn - Que leveza de palavras embaladas ao vigor de uma percepção tão aguçada e pujante. Embriagante e contemplativa é a leitura de seu texto ao passo que se caminha na trilha da mente que a criou.
Quem dá do que lhe sobra, do que lhe abunda, não faz além de sua obrigação de partilhar.
Quem dá do que não tem, do que lhe falta, não interessa o que dê, dá em verdade AMOR...!!!

Anne disse...

Preciso dizer que concordo muito com essa frase "o amor é mais bonito quando acaba, depois que foi."
O amor de hoje, de agora, é muito difícil.
Beijinhos e obrigada por me fazer refletir.

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