segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tio Hermínio

Hoje eu resolvi falar do Tio Hermínio. Só que eu não encontro as palavras, não sei falar do Tio Hermínio. Eu posso, quem sabe, começar dizendo que ele é bem alto. Muito alto. Mas não sei se isso faz sentido se vocês não souberem o que significa: a asa do Hermínio. Se você não sabe se reclamar, ante os controles de estacionamento, que não vai alcançar e quem dera uma asa de hermínio. Tenho que alertar que o tio Hermínio não é meu tio, é tio do meu pai. Não muda muita coisa, cresci olhando pra cima pra vê-lo. Eu podia dizer que em uma terra e um tempo onde tudo era vendeta e violência, o tio Hermínio sempre foi um pacifista. Reconhecido e bem visto em toda a cidade. Respeitado. Da paz, justo e zeloso em relação à família. Meu outro tio (nem pacifista nem muito justo, mas igualmente adorável, que casou com uma santa e que merece um dia um post só pra ele) estava de pendenga com um vizinho a respeito de uma cerca. Cerca vai e cerca vem, começou a circular na cidade um rumor sobre uma suposta encomenda a respeito do meu tio. Daí que o Tio Hermínio chegou até o delegado (que calhava de ser irmão do vizinho intrigante) e disse: “meu irmão é um cachorro. Seu irmão é um cachorro. Mas se o cachorro do seu irmão colocar um dedo no cachorro do meu irmão, eu toco fogo na sua casa e fico esperando na porta com um pau”. Um pacifista. 

Tio Hermínio foi fotógrafo. Não um fotógrafo, mas o fotógrafo oficial da cidade. De lambe-lambe nos primeiros tempos, 3X4 mais adiante, retrato de família, foto pra documento. Até que tudo se padronizou em automáticas revelações e ele fechou seu quartinho escuro. Antes, alfaiate. Antes ainda, agente de bandas de música. Ao mesmo tempo e sempre, era o homem da inovação, do manejo da eletricidade, da arquitetura arrojada. Suas casas eram, sempre, experiências de risco, fios descascados por todo o lado, tomadas abertas, escadas impossíveis de serem subidas e/ou descidas a não ser com uma recomendação expressa de como fazê-lo.

Nós o chamávamos de O Vó. É que ele era irmão da minha avó paterna e era, uau, uma versão masculina dela, mesmo riso largo, mesmas mãos grandes, conversa fácil acolhida. Estava sempre ocupado cuidando da nossa bisa, depois dos irmãos, dos sobrinhos, da cidade, de todos. E, depois, foi igualmente cuidado, querido, olhado. Mas ele não era moleza, ah, não era não. Um dia estávamos na casa do outro tio, distante da cidade, ele estava doente e queria voltar à sede do município. Chamou o irmão pra lhe dar carona uma, duas, na terceira vez se levantou e disse: vou rolando. Ele era assim: firme. E disponível. Nós jogávamos passa bombom. E baralho. 

Era um apaixonado pela cultura e, especialmente, devido à sua vivência, empolgado com a educação formal. Por esse amor ao estudo, umas treze crianças acolheu, entre sobrinhos e filhos de vizinhos e lhes propiciou condições de estudar e viver na capital para se formar. À distância, torcia e vibrava com todos. Também comigo se alegrou. Nunca esquecerei o abraço empolgado que me deu quando soube que passei em dois vestibulares para Universidades públicas. Um rasgo de carinho, claro, não muito usual lá pelas suas bandas. Mas ele era um homem a frente do seu tempo. Ou, ainda, fora do seu tempo. Seu tempo, aliás, finda. Noventa e três anos, trombose e várias outras doenças periféricas ligadas à idades vão pesando. Ontem, o tio que casou com a santa ligou e me disse: não passa de amanhã. Passou. Fico feliz com nosso último encontro, com o tempo que passei em seu abraço, com o riso que ele colocou no meu rosto e eu no dele. Sentirei saudade. Saudade dele. Saudades de nós, com ele. Saudade do meu pai, riso solto, indo pra lá. Saudade do carro cheio, conversa alta, em viagem pra ver o Vó. Saudade de quem eu fui. De quem eu sonhava ser. Saudade de todo o tempo que ele sabia fazer passar em alquímica acolhida. Saudades.

10 comentários:

Lílian disse...

Um homem enorme, que mora numa casa de risco e é um pacifista - ainda que na iminência de tocar fogo na casa do delegado por causa de dois cachorros (se é família, mas é cachorro, fazer o quê?).
Um homem muito, muito grande que tira fotos na caixa mágica e ainda dá abraços enormes em quem lhe dá gosto.
Puxa, com um tio assim ninguém teria medo do valente da escola, da cara feia do vizinho ou mesmo do delegado. E estudar fora de casa? Olha... Saudades, né, borboleta? Entendo bem. BJO GRANDE.

Palavras Vagabundas disse...

Gostei não do post...justo na semana que ando morrendo de saudades do passado...tem tios, ou primos, ou agregados a família que são e serão inesquecíveis! É bom isso...
bjs
Jussara

Lica disse...

o mundo não é justo.

Rita disse...

Eu também fiquei com saudades do Tio Hermínio.

BsVoxx disse...

Há pessoas que sempre estarão vivas no nosso coração e pelo que li, Tio Herminio será uma delas ... bjs

Long Haired Lady disse...

mais uma vez estou aqui com os olhos úmidos…

eu lembro do meu avô raimundo que perdi aos 4 anos…ele era assim alto, eu só lembro dele olhando para cima…mas será que ele era alto mesmo ou eu era muito pequenina?

Luana disse...

Querida... Como diria Taiguara "Vai! Abandona a morte em vida em que hoje estais. E o veneno e a solidão mudam de cor. Vai indo amor"

um beijo

Fabiana disse...

Oi!
Deixei um recadinho esses dias.. Passei pra conferir as novidades!

Vou te colocar nos meus links, pode?

Abraço!

Fabiana

Peterson Quadros disse...

Levei minha excêntrica família para uma canoagem (nunca mais... ainda não sei se estou vivo). Agora de forma espiritual ou não estou atualizando a leitura desse livro que se modifica a cada instante. Descobri que eu queria ser adotado pelo tio Hermínio. No começo, pela sua descrição, imaginei um sujeito tão alto que ultrapassava as nuvens. A história da cerca... Que coisa fabulosa. Me senti em casa. Voltando ao tio MacGyver… Pacifista, fotógrafo, eletricista... Versão masculina da avó. Poxa... Segurei até que pude, mas confesso que chorei um pouco, aquele choro que começou por ele, pelo seu final e depois passou pela saudade que sinto da família, do Brasil e de tantas outras coisas que não entendo... Luciana, muito lindo isso que você faz com a gente. Obrigado.

Fal disse...

Ah, Lu, que coisa tão linda. <3 <3 <3

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