Quando é um lindo tempo de se ver. Quando tem possibilidades, versões, ângulos diversos. Quando tem alegrias. De quando em quando os tempos de sempre: quando a lua brincar no meu quintal. Quando houver risos na sala e comida no fogo. Quando houver rede na varanda. Quando os quandos forem já. Quase foi. Quase vi. Quase vi você. Quase vi você perto de mim. Olhei pro lado errado do futuro e pensei que era um encontro na chuva, mas era apenas minha visão borrada. Não era você. Não era eu. Não era o tempo do riso. Não era o desassossego no seu colo. Não eram novas esquinas pra me perder no canto da sua boca. Já não sei explicar o óbvio e me cansam os castelos de suposições. Eu sou simples. Sou só carne. Não tenho futuros. Não tenho esperas. Não quero mais do que o querer na ponta dos dedos. Só um dia de cada vez. Só uma vez. Mas eu tenho pressa. Chego antes. Atropelo as ausências. Você não está. Parto, não vejo seu trem chegar. Desconheço sua estação. Desconheço a minha. Só reconheço os túneis. É escuro, sempre, pra onde eu vou. Mas não amanhã. Amanhã é mar. Amanhã são esquinas conhecidas, os carinhos de sempre, os anseios de nunca. O mar é encanto. É simples: ele é o que ele é, imensidão e sal. E é tudo que não se pode nomear. É mistério e certeza. É belezas. É permanecer e ser tão estéril e é nunca ficar e ser tão fértil. É em mim, o mar. O mar me faz destemer as mortes. Por causa de Caymmi e Clara, claro.
O mar é de se ver. E de ouvir. E de mergulhar. E de provar. Eu como e bebo mar no sabor do caranguejo. Aos que imaginam muito trabalho, respondo: eu não faço contabilidade do meu prazer. Gosto do gosto escorrendo no queixo, dedos lambuzados, pele com cheiro de sol. Gosto da carne escorregando, firme, na língua. Gosto de sugar o sabor em pequenas doses e antecipá-lo, imenso, em mim. Assim que vivo, talvez, sôfrega e pacientemente reencontrando o prazer em pequenos acertos. Com o mar, perto, nos olhos, molhando pés e sonhos.“Perto de muita água tudo é feliz”. Eu sou.
As Águas do Mundo - Clarice Lispector
Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. (...) E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo.
7 comentários:
Lu, porra, o primeiro parágrafo é meu! Você sabe disso! Cara, da leitura às lágrimas fluidas...
E Clarice... Ah, Clarice!
Beijo, linda!
Lu,
Tenho achado difícil te comentar. Eu leio, fico pensando, volto para ver se entendi. Sei que esse negócio de entender é algo subjetivo, mas procuro entender como talvez os outros entendam. Quando, quase, já... Olhar pro lado errado do futuro. É possível uma coisas dessas? Algo que ainda não se construiu e que só será errado quando for passado. Talvez seja o borrado, já não sei mais. E esse amor que emerge nos teus textos? As vezes tão fraterno, por vezes tão sensual, mas sempre presente. Depois vêm as coisas simples, como o mar. Mas não é o mar que vi em Florianópolis. Esse que você descreveu é bem outro. Não o vivi, mas cheguei a ter saudade.
No fim, Clarice. Sabe que nunca a senti realmente, embora tenha lido algumas coisas, mas engraçado é que os teus trechos colhidos, talvez pelo contexto, me encantam e hoje você me disse: Peterson, você precisa ver o mar.
Obrigado e abraços...
Estava com saudade, e acabei de comer sua presença.
O amanhã já me fala de Clarice e o tal ainda bem que haverá outro amanhã...
Mas o mar não se faz presente há um certo tempo, ainda bem que tenho montanhas...
E você!
Também adoro o mar... você o descreve tão lindamente... me deixa mais apaixonada.
Beijinhos!
Minha linda, isto é o que eu tô pensando que é? Mar calmo aí pra ti. Marés benfazejas.
Bj
"O mar é de se ver. E de ouvir. E de mergulhar. E de provar. " nem mais. Um abraço
Muita água prá vc, minha querida!
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