quinta-feira, 30 de junho de 2011

Porque Não Era Ele, Porque Não Era Eu ou Se Fosse Montaigne

Prólogo
Estou cansada. Muito cansada. Cansada de tentar. De me esforçar. De não conseguir. Cansada de ser insuficiente. Cansada de só me permitir ser feliz. Quero aprender a sofrer. Quero aceitar a dor. Quero ser a dos olhos vermelhos. Quero ser a do sorriso triste. Quero não ter caminhos. Quero reconhecer: não sirvo, não presto, não consigo.

Ou então me devolvam as palavras. As minhas palavras. Uma a uma, que eu as perdi junto com as esperanças. Que não são as últimas que morrem. Elas já se foram e eu ainda agonizo. Atrasada para meu destino.


Releituras

Quantas palavras eu precisarei realinhar em ditos pra tratar desta fome que não tem nome? O céu azul, azul. No email insistem em chegar mensagens que não quero ler. A tela branca zomba da incapacidade de reunir palavras pra dizer o que quer que seja. As letrinhas me engasgam de afazeres que não faço. Procuro dirigir os olhos pro tempo em que o desejo não estava, mas estava sempre. Em vermelho. Eu caio no ridículo. Sou óbvia. Festejo a luz no fim do túnel mesmo sabendo que é o metrô e que eu não terei a necessária velocidade pra me desviar. Pior, sabendo que sou eu que estou no controle do que, sem reservas, atropela a mim e aos futuros. Escuto Angela Ro Ro e escrevo em guardanapos. O vinho se coloca em taças que faço desaparecer em cacos nas lixeiras da casa. Fecho cortinas, escondo o dia. Permaneço em madrugadas insones ignorando os relógios que gritam obrigações. Não quero. Arrasto-me na sarjeta imaginária dos amores desperdiçados antes de serem. Despetalo em mal-me-quer os sonhos de antigas mentes que me habitaram. Sozinha, eu sei, só me resta escrever histórias na pele com afiados estiletes.


Trago o coração inquieto. Trago-o passeando no corpo, trago-o nas mãos, trago-o nos olhos. Ele, o coração inquieto, pergunta e eu também: em qual esquina de mim mesma eu te espero? Que palavra te faria real, olhos, mãos, suor e suspiro? Qual o trajeto para esquecer-me em tuas lembranças e me fazer tua personagem preferida? Eu tenho confusos planos de me perder em você. Mas eu nunca te disse, eu nunca te digo. Eu sempre digo de mim que é o único desconhecido que me atrevo a trilhar. Mas, um dia, eu espero, será uma coragem. E direi: quero. E mais: você. E ainda: quando, venha, muito, dentro. Eu ontem te vi. Ou te inventei. Porque eu quase encostei minha cabeça em teu peito, mas como se eras apenas luz e sombra e letras e a minha vontade? Eu ando em círculos. Escrevo em círculos. Devaneio sobre o que ainda nem sinto. Mas quero. Quero que você me leia em braile. Que me reinvente. Defina espaços, curvas e reentrâncias. Quero que me conte do que eu já não sabia de mim. Quero que me desarrume as malas, os planos, o cabelo, quero que me desarrume o vestido. Ignoro o passado, desprezo o futuro, desenho agoras nas paredes imaginárias do meu coração. Guardo as perguntas em baús e faço montes de papéis amarelados que escalo entre soluços. Um corpo geme. Escuto, sem surpresa: é o meu. Encolho-me no meu próprio colo e tento dormir sonhos que não sejam despenhadeiros. As vertigens me convidam a pedir teu abraço. Trinco os dentes, tranco as palavras. Ainda espero, claro. Mas já não lhe dou meus pés pra que trilhe seu desejo. Fiz meu caminho: de hoje em diante, viajar sem ter que me desencontrar. É porque tudo queima. 


Gosto desta história. Gosto de ser a pessoa que pode gostar de você. Gosto de fazer, das distâncias, perguntas. Gosto de ser quem ainda ruboriza na tua mão Gosto de tanto e de muito, mas gosto especialmente do jeito fácil com que sabemos nos encontrar, gosto de não ter medos de amanhãs, de não procurar as palavras certas, de não temer os equívocos. Gosto de poder te perguntar e de gosto de poder te responder. Gosto das brincadeiras, das promessas vazias, dos mimos. Gosto de te falar das grandes questões e ouvir das miudezas do dia. Gosto de te falar de A a Z e ter como resposta uma sequência de letras iguais que devem ser uma gargalhada. Gosto de rir. De rir com você e, até, de você. Gosto de não ter que me preocupar se você me entendeu errado porque você não se preocupa em entender. Gosto que você recebe meu ímpeto. Gosto de suas insinuações e provocações. Gosto de não nos escondermos. Gosto. Só não sei porque gostar assim não pode ser o bastante. Porque eu preciso de mais?  Porque não é você, porque não sou eu. Ontem eu vi o Chico explicando o amor e falando de Montaigne: porque era ele, porque era eu. Eu escolhi a simplicidade. Mas não é o bastante, nunca é. Porque não quero só escolher, quero ser escolhida. Vista. Quero que alguém olhe e saiba: ela é simples. Tem tanto que não quero, quero apenas isso: corpo, uma taça de vinho e palavras quando elas quiserem vir. Porque é difícil? Porque não é o moço bonito? Porque não é cara gentil? Porque não é o além-mar que me despe em palavras? Porque é sempre a brincadeira infantil “não é com você, não é com ninguém, é com a pessoa que eu quero mais bem” e se aponta o vazio?

 Epílogo
Arde, sabe. Quando você não olha. Quando você não liga. Quando você não é. Quando você não diz a palavra exata que seria mágica. Quando você não acerta. Arde quando você não chega. Ou não fica. Quando é outro lugar, outro dia, outra palavra. Quando você não me adivinha, não me antecipa, não me intercepta. Quando você não é esquina, chegada, porto. Arde quando eu digo você, você, você, pra não reconhecer que o equívoco é meu. O equívoco sou eu. Arde. E quero ler isso tudo e achar que é ficção.

13 comentários:

Dona Lô disse...

Nossa, Lu, que coisa mais linda!! Aliás, não consigo comentar de outrojeito: sempre assim, que lindo, que lindo... Você me encanta!

Clara Gurgel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Clara Gurgel disse...

Lú,depois vc me pede prá comentar aqui.Como? Me faltam palavras,aliás, "me sobram" palavras.Vc já disse todas as que eu queria dizer ou ouvir...quiçá os dois!

S. disse...

nós sempre queremos, n é? te amo (e vai passar)

Juliana disse...

cadê o meu fôlego que estava aqui?
porque ,né?

Gente, que lindo!

Viviane Junqueira Ayres disse...

Fazer os leitores chorar...estava nos planos da autora? rsrsr

Lu.. eu não sei escrever tão lindo como você...mas eu sinto um tantão assim...

"Quantas palavras eu precisarei realinhar em ditos pra tratar desta fome que não tem nome?"... a minha fome tem nome e endereço e como posso comer pão com mortadela e querer saciar a minha fome de caviar???????????? Eu ainda não consigo...

E fico na espera de algo que diminua o meu querer...que me faça ver que eu não estava certa...que caviar não é o única coisa a matar minha fome...

Mas por enquanto ainda é...

Long Haired Lady disse...

Arde, espeta, esvazia a alma quando aquela palavra que mudaria tudo fica presa em sua garganta e não na de quem esperamos ouvir...

Atitude do pensar disse...

Ai, Lu, trago na mão um coração que não é meu, mas também não é de ninguém. Portanto, resta-me sentir. O quê? A ardência de querer.
E sabe de uma coisa: Sempre acreditei que a esperança é a primeira que nos deixa, pelo medo de morrer.
Cheiros,
K.
P.S. Mas não era o Rio?

Glória Maria Vieira disse...

Se eu disser que estou aos prantos em plena luz, em pleno dia, entre seu poste e minha identificação? Juro com toda sinceridade que possa existir em mim, e nesse momento, que ninguém nunca falou por mim até essa postagem, como você falou/descreveu. Como deu voz a esse meu eu! (...)

Lindo, seu, meu... Demais!='\ Vou me recompor, viu?! A noite eu volto aqui... Eu volto. ='/ #sua... fantástica.

Rita disse...

Lu,

Estou com tanta saudade de você. Com tanta saudade de bater papo, no skype, no twitter, no gmail, sei lá. Estou tão corrida, escondida, ocupada, bla. Mas eu leio você e sinto mais pertinho e aí sei que daqui a pouco a gente põe tudo em dia. Esse seu texto tá tão lindo, tão ... seu. Tão Lu. Isso, um texto Lu.

Beijo, viu.

Rita

Dona Lô disse...

Lu, eu sempre te leio! Não comento de outras formas porque nem escrevo tão bem. Mas acompanho teus escritos, e adoro.
Beijos!

Fred Caju disse...

Sempre tenho uma queda quando existem epílogos...

Insana disse...

É dificil achar que é ficção, eu li isto tudo sabendo que estava lendo de sua vida, mais parecia a minha...

bjs Insana

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