sexta-feira, 10 de junho de 2011

Escreveu, não leu...com Update

 Escreveu, não leu...
(08/06/2011)
Porque se escreve? Muitos já responderam, cada um em seu estilo, com maior ou menor drama, com humor ou em trágica constatação. Escreve-se porque não se pode evitar, para ser lido, para tentar dizer, para não morrer. Escreve-se para passar o tempo, para parar o tempo, para mudar a história. Escreve-se para tecer em palavras um véu que esconda o horror deste vazio que nos ocupa. Escreve-se porque se é humano e o mais humano é dizer-se. Eu mesma já brinquei de inventar motivos: aqui e aqui, no outro blog: Olhos da Borboleta. Também eu já dei as minhas respostas no post sobre minha trama de impossíveis: Não sei escrever sobre mortes que não estão em mim. Só a morte íntima é que sabe se tornar letra. Assim, todo dia e a cada texto, insisto na vida aproximando-me da morte. Escrever é reconhecer toda falta: de tempo, de corpo, de ser. E é negar, em cada traço, o vazio.

Apesar da pergunta que continua e das respostas que se repetem, conversando com meu querido amigo sabor fruta (e que lindo poeta que é) nos deparamos com a questão: ainda mais inquietante é tentar dizer, não porque escrevemos, mas porque lemos ( não só nós pensamos nisso, João Cabral de Mello Neto, ao ser perguntado sobre porque escrevia poesia, devolveu: porque você lê poesia?). E, ainda além, porque lemos o que lemos e o que isso faz e diz de nós. Ler é uma entrega e uma conquista. É colocar meu exército no território do outro e fazer, dele, o meu. E isso será sempre posse e estranhamento. Leio porque em uma inflexão, em um intervalo, em uma curva da frase, espero a injunção ao meu desejo e a um saber. Leio porque espero, no encanto das palavras, uma possibilidade de encontro que no real se esquiva. Leio pela sombra, pelo escuro, pelo silêncio que um dito porta. Ler é uma solidão escolhida que nos aparta da solidão imperiosa de existir.

Nelson Rodrigues diz que “depois de matar, o criminoso se torna secundário, ou nulo, e repito: some como se jamais tivesse existido”. Parece-me, à princípio, que assim é com o escritor. Ele não importa, o que importa é a sua escrita. Ou, antes, o que importa é o que está escrito. É o texto que é, não o seu autor. Digo, reluto, e retorno. Flaubert me vem: Madame Bovary sou eu. O escritor é o criminoso rodrigueano, mas é também a vítima, é o que importa. Ele está no dito mesmo que não se confunda com ele. É nesta espiral que interessam os escritores e suas histórias, no que eles encarnam das suas letras. É esse o fascínio que encontro. E é esse o convite que faço. Hoje é dia de dicas. 

Tem este site que é uma delícia: o silêncio dos livros.
Tem este texto do Manuel que é mítico: ando sempre com um livro na mão
Tem estes dois sebos online (na verdade são sebos congregados em dois sites):

O convite principal é o que faz liga em tudo que se coloca neste post: é pra conhecer o programa Palavra Inquieta – Papo com Autores. Descrição na página: “O programa tem como propósito dar voz a escritores, experientes nas manhas e artimanhas do escrever. Destinado a todos aqueles que se interessam por melhorar sua atividade na escrita, levará também um pouco do que de melhor se produz no Brasil e no mundo”. Mas, claro, eu vou dar o macete pra vocês...

Primeiro: você pode participar por twitter ou facebook e fazer aquela perguntinha que fica coçando na ponta dos dedos. Depois: fica guardadinho, se você não puder acompanhar na hora, mas quiser saber o que se passou, não tem erro, vai lá e assiste (eu fiz isso com o programa da semana passada). Mas a dica principal é que quem apresenta o programa é o Léo Gonçalves e vocês não estão entendendo o quanto isso faz diferença. O Leo é poeta, desses que arrombam minhas janelas e desmancham meus cabelos. Desses que escrevem assim:

deve ter algo no céu
da sua boca
que me faz brilhar

Ele faz perguntas que são melhores e mais complicadas de responder, as que não trazem respostas e sim caminhos, as que trazem nas letras o fuxico inquieto de se saber um processo. Eu, se fosse você, assistia. Quinta, 09/06, 19hs, tem Claudio Willer. Aí vocês me contam se não é assim, gostoso, do jeitinho que tô falando pra vocês. Quase como dançar forró numa sala de reboco. Eu disse quase.


Bom de Papo -UPDATE
 Você não viu o Palavra Inquieta? Não se deixou levar pela conversa boa que embala e cutuca? Não deixe de dar uma espiada, mesmo com atraso. É fácil, vai aqui.  Aconteceu uma discussão interessante sobre a confluência da linguagem entre poesia e ensaio e a especificidade de alguns poetas serem também pensadores críticos da cultura. Teve leitura de poemas com boas histórias ligando os momentos. E, ainda, uma conversa sobre o papel da linguagem e, mais especificamente, da poesia, como criação de sentidos alternativos. Além disso, Baudelaire sempre presente. Isso tudo antes dos vinte minutos, que minha conexão é fraca e não me deixa ver tudo de uma vez. Mas amanhã de manhã eu vejo, ah, vejo. 

Bom de Papo -UPDATE do UPDATE
"Na próxima quinta, dia 16 de junho às 19h, o Palavra Inquieta terá a presença de Ademir Assunção. Autor de livros inusitados como Adorável criatura Frankenstein e Máquina Peluda, é um dos poetas mais ativos na cena nacional. Foi um dos mais ardorosos defensores do Movimento Literatura Urgente, que mobilizou escritores de todo o país em 2004 e cujo manifesto continua ainda hoje gerando efeitos nas iniciativas privadas e públicas de incentivo à literatura"...(roubadinho da silva daqui, vai lá e lê o resto). 

O programa Palavra Inquieta – Papo com Autores acontece às 19h e tem transmissão ao vivo pela internet. Para assistir, basta acessar o site: http://on.fb.me/eCtIrD. 

12 comentários:

Menina no Sotão disse...

Eu abro as páginas dos livros que leio como abro uma janela para o sol entrar ou para espiar a chuva e pronto: vejos cores e formas. Sou amante, amada, vilã. Sou eu mesma fingindo ser outra.
Sempre tento imaginar a figura de alguns escritores dando asas as suas ilusões reais.
Enfim, me sinto um pouco a menina (não a mulher) de Olhos de menina e vivo contando as histórias de minha realidade que as vezes me parece inventada... rs

bacio

Long Haired Lady disse...

eu PRECISO ler todos os livro que comprei ultimamente…

ontem mesmo fui a Cultura e me segurei para não comprar mais…rs

Belos e Malvados disse...

Acho que a gente escreve para não se sentir só. Não é poético, mas é humano.

Palavras Vagabundas disse...

Lu,
vou dar uma fuçada nas suas indicações, rs
Por que eu leio? Por que é uma droga muito melhor que qualquer droga, você escolhe a "viagem" que quer fazer e por quanto tempo.
Achei linda essa constatação: "Ler é uma solidão escolhida que nos aparta da solidão imperiosa de existir." E gostaria de saber escrever poeticamente...
bjs
Jussara

Peterson Quadros disse...

Lu,
Percebi, depois de apreciar o texto, a ínfima relação existente entre a escrita e a morte. Será que nós, assim como você, também só conseguimos escrever as mortes que pairam em nosso ser?
Obrigado por mostrar a delícia que é, pelas razões mais diversas, ser um leitor.
O vasto mundo que se abre nesse blog toda vez que nele surgem autores, páginas e ideias nos faz crescer muito. Aqui não perco minha língua mãe, me encontro com ela, todo dia, toda hora. Abraços e uma lindo último dia de trabalho...

Peterson Quadros disse...

...um lindo último dia de trabalho. Desculpa pelo erro.

Atitude do pensar disse...

Acabo de descobrir que leio para me sentir parte, para não me sentir só, para ser todas minhas manifestações...
Vou correr atrás dessa dica!
Cheiros

Rafa disse...

Estamos em sintonia hoje em nossos posts. Eu Leio quer porque gosto de lugares e paisagens novos, quer pra, com uma xícara de café na mão, me deitar na minha almofada preferida e me sentir em casa.

Bj

Shuzy disse...

Como disse a Tati Bernardi:
Escrever para não explodir. Escrever para explodir os outros...

(*=

Glória Maria Vieira disse...

É linda demais essa Luciana em forma de letras que se apresenta de corpo e alma graficamente aqui nesse espaço...
Ai, Luh, só queria dizer que escrever é um desabafo necessário...

Marcantonio disse...

Belas dicas. Aliás, esse O Silêncio dos Livros é uma achado. Vou dar uma olhada no programa.

Afinal, seria o autor o mordomo? Rs.

Abraço.

Suely disse...

Como diria Clarice Lispector:"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever".
Belo texto, Lu.

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